Trabalho sobre madeira: "Nunca cortei uma árvore"

A madeira era um dos materiais preferidos do escultor Alberto Carneiro, que morreu hoje no Porto, aos 79 anos.

A Casa da Cerca, em Almada, e a Fundação de Serralves, no Porto, acolheram duas das últimas retrospetivas da obra de Alberto Carneiro, escultor que trabalhava preferencialmente sobre madeira, sem nunca ter cortado uma árvore, como disse à agência Lusa.

"Trabalho sobre a energia da matéria, sobre a natureza, sobre os elementos -- a água, a terra, o fogo e o ar. Tenho um grande amor pela natureza. Trabalho sobre árvores, não sobre madeira. Nunca cortei uma árvore", disse à agência Lusa, em 2011, quando da mostra na Casa da Cerca, em Almada, que era "Uma ode à natureza e a vida do homem esculpida, fotografada, desenhada".

Em Serralves, no Porto, em 2013, a exposição "Arte Vida/Vida Arte" reunia peças concebidas propositadamente para o espaço do museu - oliveiras despidas pendentes do teto, folhas espalhadas pelo chão, troncos retorcidos, videiras secas que ganhavam uma nova vida nas paredes brancas de Siza Vieira.

Num caso e no outro, os elementos da natureza eram o próprio autor, a cada passo das exposições, como demonstrou em ambos os casos.

Alberto Carneiro falava sempre das suas obras falando de si, para as explicar: "Toda a obra é a história do artista", disse em Almada, acrescentando como foi determinante para si ter nascido "rural, do meio das ervas". "Esse é o motivo da minha consciência, é a razão do processo através do qual eu fui construindo a minha obra. Foi fundamental ter começado aos dez anos a trabalhar como aprendiz de santeiro nas oficinas do Coronado", no Porto, disse à Lusa, na Casa da Cerca.

E mostrou então a cicatriz ao longo do indicador esquerdo, marcada na sua mão desde o início do seu percurso, memória "da aprendizagem dos materiais" e do "processo de ganhar consciência do corpo".

"Trabalho sobre a energia da matéria, sobre a natureza, sobre os elementos -- a água, a terra, o fogo e o ar. Tenho um grande amor pela natureza. Trabalho sobre árvores, não sobre madeira. Nunca cortei uma árvore", contou. "A primeira coisa que faço é meter-me dentro da árvore -- senti-la -- perceber como cresceu", disse Alberto Carneiro, ao pé das duas árvores divididas mas quase encaixadas, da escultura "Ainda a memória do corpo sobre a terra" (1987/88), patente na Casa da Cerca, no outono de 2011.

"São as coisas de fora, que são, no fundo, o meu lado de dentro", afirmou. Dois anos depois, em Serralves, o escultor dizia à Lusa: "A obra de arte que não coloca qualquer problema, não é obra de arte, porque ela existe para questionar, para aumentar o campo de ação, para criar novas fronteiras, novos conceitos".

"O que é preciso é que o bichinho fique lá", disse então Alberto Carneiro. "O desenho para mim não é tanto um processo de estudo para outras coisas, mas acima de tudo um meio de terapia, um meio através do qual eu me liberto de muita coisa", afirmou o escultor.

"Eu e arte não sabemos ao certo quem somos, mas temos a certeza de sermos um do outro, e isto é tudo de precisamos para a vida", escrevia Alberto Carneiro no texto de apresentação da retrospetiva de Serralves, "Arte Vida/Vida Arte".

Em 2013, a realizadora Olga Ramos realizou um documentário sobre Alberto Carneiro, com o título Dificilmente o que Habita Perto da Origem Abandona o Lugar:

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