Tourada dá audiências mas RTP exclui mais corridas

Televisão pública tem previstas três transmissões de touradas neste ano. A primeira, a Corrida TV Norte, teve uma audiência média de 400 mil espectadores. As associações pró-tourada reclamam maior presença deste espetáculo em antena. A RTP recusa. A plataforma Basta aplaude.

A subida de audiência alcançada pela RTP com a mais recente transmissão de uma corrida de touros merece duas leituras bem distintas. A PróToiro diz que foi "apenas" a confirmação do sucesso televisivo das touradas, enquanto os antitaurinos da Plataforma Basta duvidam dos resultados. Defendem que se as "corridas" dessem audiências, a RTP não reduzia o número de transmissões nem a TVI e a SIC teriam acabado com o espetáculo nos seus canais. A RTP exclui a aposta em mais transmissões tauromáquicas. "Isso está fora de questão", diz o diretor de programas Daniel Deusdado.

Os estudos de audiência realizados pela GfK/CAEM mostram que na noite de 17 de julho a transmissão da Corrida TV Norte, a partir da Póvoa de Varzim, conquistou uma audiência média de 400 mil telespectadores, tendo atingido picos de audiência superiores a 600 mil. Dados que traduzem uma subida média para os 13,1% no canal público, representando mais 1,7% em relação ao dia anterior (11,4%) e 1,6% comparando com a sexta-feira anterior (11,5%) à mesma hora.

"Isto só prova que o público português tem interesse em ver corridas de touros televisionadas e que não faz sentido reduzir as transmissões das touradas", sublinha o dirigente da PróToiro, Paulo Pessoa Carvalho, para quem as três transmissões agendadas para este ano são uma "atitude castradora por parte da RTP e em concreto o seu diretor de programas", refere, acusando Deusdado de "parcialidade".

Aliás, a PróToiro sugere que responsável da RTP opte pela "imparcialidade inerente a quem ocupa cargos públicos", diz Paulo Pessoa Carvalho. "Lá porque não gosta de touradas, não tem de ser contra as touradas", sublinha, alertando que os aficionados "não estão a ser tratados de igual forma" pelo canal público. O presidente da Associação Nacional de Grupos de Forcados, José Fernando Potier, diz que a RTP, "enquanto serviço público pago por todos, devia levar touradas às pessoas que não têm este espetáculo nas suas terras ou que não têm dinheiro para o pagar".

Contactado pelo DN , o diretor de programas da RTP1 deixa claro que o resultado das audiências "não é relevante para a decisão de ter ou não touradas em antena" e assume que não está nos seus planos investir em mais transmissões anuais. Instado a pronunciar-se sobre se encara as touradas como um espetáculo com cariz cultural e com tradição, Daniel Deusdado responde que "não há um consenso no Parlamento ou na sociedade portuguesa sobre as touradas", acrescentando apenas que a atual direção de programas "reduziu significativamente o número de touradas a transmitir anualmente".

Sérgio Caetano, da Plataforma Nacional para Abolição das Touradas, Basta, começa por pegar nos dados que mostram a perda de público nas praças de touros nos últimos seis anos, tendo registado uma quebra de 680 mil espectadores para menos de metade. Segundo a Inspeção-Geral das Atividades Culturais, em 2016 - e pela primeira vez - as touradas em Portugal baixaram das 200, enquanto também o número de espectadores foi o mais baixo dos últimos 20 anos. "É preciso ter em conta que estes foram anos de crise. Hoje já há mais assistência", ressalva José Fernando Potier. Segundo dados a que o DN teve acesso, na semana de 28 de junho a 2 julho estiveram mais de 30 mil pessoas nas praças de touros, tendo sido realizados dez espetáculos tauromáquicos em cinco dias.

"Se as touradas dessem audiências as televisões iam apostar nesses programas. Mas não o fazem, porque isso não é verdade", assegura Sérgio Caetano, sublinhando que a transmissão de touradas pela RTP é "o principal motivo de queixa" ao provedor Jorge Wemans, que já ontem foi acusado pela plataforma de "desrespeito" pelos "milhares de cidadãos" que apresentaram queixa pela transmissão em direto da Póvoa de Varzim. Acrescenta o movimento que o provedor não assumiu as suas responsabilidades "ao considerar de forma simplista", diz, que não tem poder de decisão e que as queixas enviadas se traduzem na adesão dos cidadãos a uma "campanha mal dirigida".

Na missiva, o provedor admite ainda que para impedir a transmissão de touradas na televisão pública deverá ter de se "obter legislação específica nesse sentido", dando a palavra a quem "tem capacidade legal de impor uma decisão". Porém, a plataforma recorda que "o anterior provedor salientou o elevado volume de queixas recebidas e considerou que a transmissão de touradas "não é serviço público", pelo que a RTP se devia abster de transmitir este tipo de programas".

Ainda assim, os antitaurinos já encaram a redução a três transmissões anuais como o caminho que poderá ditar o fim das touradas na TV. As redes sociais estão repletas de petições, apelos e abaixo-assinados para que se reclame a abolição das corridas televisionadas junto da RTP e do Ministério da Cultura.

Já o Ministério da Cultura demarca-se da polémica, justificando que "a responsabilidade pela seleção e pelos conteúdos dos diferentes serviços de programas da RTP pertence aos respetivos diretores", pelo que não se pronuncia nem interfere no conteúdo editorial. Recorda que a liberdade de programação é um instrumento decisivo do serviço público de televisão "pelo que só pode ser questionada em situações excecionais", concluindo apenas que "a tauromaquia está prevista e regulada na legislação vigente".

A segunda das três corridas de touros com direito a transmissão pela RTP neste ano está agendada para 11 de agosto. Terá lugar na Figueira da Foz, a partir das 22.00, enquanto a última transmissão será a 12 de outubro: uma corrida de gala à antiga portuguesa a partir do Campo Pequeno, em Lisboa.


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