Torre dos Clérigos e Universidade do Minho recebem prémio Europa Nostra

A obra do arquiteto Nicolau Nasoni e um mestrado sobre monumentos e edifícios históricos foram distinguidos na edição deste ano.

A recuperação da Torre dos Clérigos, no Porto, e um mestrado de Análise Estrutural de Monumentos e Construções Históricas, da Universidade do Minho, são os dois projetos portugueses premiados na edição deste ano dos Prémios Europa Nostra para o Património Cultural.

Ao todo, 29 projetos de 18 países foram distinguidos pelos seus "contributos exemplares em conservação, investigação, serviço dedicado ao património, e educação, formação e sensibilização", segundo um comunicado do Centro Nacional de Cultura, representante em Portugal da Comissão Europeia e da Europa Nostra. Este ano, 202 candidaturas, oriundas de 39 territórios, foram avaliadas por júris independentes.

"É o óscar da carreira" é como o padre Américo Aguiar, presidente da Irmandade dos Clérigos, classifica a vitória da Torre dos Clérigos nos prémios Europa Nostra, depois de já terem terem sido distinguidos em outros prémios na área, como o Vasco Vilalva/ Gulbenkian. O prémio foi atribuído a projetos na Croácia, República Checa, Grécia, Itália, Noruega, Roménia, Espanha e Reino Unido.

Os trabalhos de reabilitação foram contratualizados no final de dezembro de 2013, a obra arrancou em janeiro de 2014 e no dia 12 de dezembro, às 12.00, relembra. "A gente agora emociona-se porque tudo correu bem". Repete mais do que uma vez que tanto os prazos de tempo como financeiros foram cumpridos.

Foram investidos 2,7 milhões de euros, 1,7 com recurso aos fundos europeus do QREN e 1 milhão assegurado pela Irmandade dos Clérigos. "Só temos de agradecer a todos os profissionais. Dedicamos sempre o prémio aos trabalhadores. Do arquiteto João Carlos [Santos, subdiretor do Património Cultural] ao carpinteiro, eletricista, pintor, jovem auxiliar das mais diversas épocas, porque foram capazes de materializar aquilo que em 1763, quando a obra ficou concretizada na totalidade, os trabalhadores da época fizeram", diz Américo Aguiar. "Desde a reabertura até agora nunca mais deixámos de ter pessoas que ficaram curiosas para ver o que foi feito".

Os números falam mais do que o presidente da Irmandade (e dão-lhe razão). De 100 mil visitantes em meados de 2011, passaram para os 500 mil em 2015 e chegaram aos 625 mil em 2016". "85% são estrangeiros, segundo a Irmandade dos Clérigos, e destes "40% são espanhóis". "Dá para a ver a escala do antes e depois". Em julho de 2015, a Torre dos Clérigos assinalou o visitante 1 milhão, nós estamos a dias ou semanas de assinalar o visitante dois milhões em acumulado. "Este número de visitantes tem muito a ver com o facto do Porto não é ser moda é ser um destino europeu. Nós também estamos a usufruir do bom nome da cidade, que também tem a ver com este património com este carácter das pessoas do Porto. E os Clérigos são uma referência há mais de 250 anos, marca a imagem e o carácter da cidade e estamos particularmente felizes por termos sido capazes de concretizar".

O presidente da Irmandade dos Clérigos, uma instituição religiosa, diz que já recuperaram o investimento e que tomaram uma decisão desde o início: "O projeto vai ter retorno financeiro. "E decidimos que o retorno que tivéssemos seria partilhado com a cidade. "Nestes dois últimos anos já distribuímos mais de meio milhão de euros", revela. Entregues às ligas de amigos e voluntários de hospitais da cidade do Porto. "Criámos a imagem do fim de semana solidário, em que a verba é entregue a um hospital. Já demos uma volta, estamos a dar a segunda volta. Queremos que quando as pessoas olhem para a Torres do Clérigos veja que a cumpre os seus estatutos - ajudar os padres na velhice e na doença, a Casa de S. Vicente de Paulo, no Porto - mas também ir ao encontro daqueles que são os membros da cidade e escolhemos os hospitais porque é onde podemos ser mais transversais".

Mestrado em Guimarães distinguido

Na categoria Educação, Formação e Sensibilização, o Mestrado de Análise Estrutural de Monumentos e Construções Históricas, leccionado no polo universitário de Guimarães da Universidade do Minho, é o outro vencedor português do Europa Nostra.

Primeiro, as explicações: que mestrado é este? "Funciona no âmbito das construções históricas, de preservação patrimonial e julgo que é das primeiras vezes que foi atribuído um prémio nesta área", diz Paulo B. Lourenço, coordenador do mestrado ao DN.

Funciona todos os anos, desde há uma década, em Guimarães e em outras três universidades europeias (Universidade Politécnica da Catalunha, Universidade de Pádua e a Universidade Técnica de Praga). Até agora, cerca de 250 alunos, de 65 países, frequentaram o mestrado. A maioria são estrangeiros. "Acaba por ser um bom indicador da capacidade de Portugal e de promover a internacionalização.

Engenheiros, como Paulo B. Lourenço, mas também arquitetos e arquitetos-engenheiros são os principais interessados. As contas fazem-se assim: 50% engenheiros civis, 25% arquitetos-engenheiros, um curso que não existe em Portugal, e 25% arquitetos". "É um curso virado para a conservação, mas não é para historiadores, nem arqueólogos nem restauradores-conservadores. Não tem paralelo com outro e é por isso que temos alunos dos EUA, do Canadá, da China, da Índia... Temos um máximo de dois ou três alunos de cada país".

Baterias apontadas ao prémio do público

Esta distinção é uma antecâmara dos sete prémios finais, a conhecer numa cerimónia para cerca de 1200 pessoas que se realiza no dia 15 de maio na cidade histórica de Turku, na Finlândia, . Os vencedores recebem 10 mil euros de prémio, tal como o vencedor do prémio do público, escolhido, a partir de agora, através de uma votação que decorre online (e entre os votantes será sorteada uma viagem à Finlândia para duas pessoas para assistir à cerimónia).

Com os olhos postos neste prémio, a Irmandade dos Clérigos vai lançar um campanha nas redes sociais procurando divulgar o prémio e apelar ao voto "de maneira a catapultar o nome dos Clérigos", refere o padre Américo Aguiar. "É o prémio cereja no bolo", chama-lhe o presidente da Irmandade dos Clérigos, ao DN. "De todos os premiados, um será a escolha do público. Nós queremos divulgar esse património aos portugueses e em particular em toda a Europa". Decorre em parceria com a câmara do Porto e do Turismo de Portugal, "a partir do momento em que o site da Europa Nostra abrir o concurso".

"Os seus projetos destacam o papel significativo do património cultural nas nossas vidas e na nossa sociedade. Hoje, especialmente, com uma Europa que enfrenta grandes desafios societais, a cultura é vital para nos ajudar a aumentar a consciência da nossa história e valores comuns, e a promover a tolerância, a compreensão mútua e a inclusão social", afirma Tibor Navracsics, Comissário Europeu para a Educação, Cultura, Juventude e Desporto, no comunicado que chegou às redações.

O cantor de ópera Plácido Domingo, presidente da Europa Nostra, chama a atenção dos chefes de Estado. "Os líderes da UE devem aproveitar a oportunidade histórica do Ano Europeu do Património Cultural em 2018 para reconhecer os múltiplos benefícios do património e o seu valor fundamental para aproximar países, comunidades e culturas na Europa e fora dela".

Nos dias anteriores à entrega do prémio, entre 11 e 15 de maio, decorre o Congresso do Património, em que participam as propostas vencedoras, já com as baterias apontadas para o próximo ano. As candidaturas para os prémios Europa Nostra 2018 abrem no dia 15 de maio e encerram a 1 de outubro, no site da Europa Nostra.

A lista completa dos vencedores em 2017:

Conservação

? Capela de S. Martinho, em Stari Brod, perto de Sisak, Croácia

? Complexo Barroco e Jardins, em Kiks, região de Hradec Králové, República Checa

? Antiga cidade de Karthaia, Ilha de Kea, Grécia

? Bastião do Palácio do Grande Mestre, em Rhodes, Grécia

? Pirâmide branca, em Roma, Itália

? Estrada do rei, em Filefjell, Noruega

? Igreja e Torre dos Clérigos, Porto, Portugal

? Palácio Cultural, em Blaj, na região da Transilvânia, Roménia

? Fortaleza de Cap Enderrocat, Maiorca, Espanha

? Teto das ruínas do Mosteiro de San Juan, em Burgos, Espanha

? Cromford Mills: Building 17, Derbyshire, Reino Unido

Investigação

? Projeto de Investigação e Conservação Rode Altarpiece, Tallinn, Estónia

? "Carnival King of Europe", San Michele all"Adige, Itália

? Museu Piranesi", Milão, Itália

? Projeto de investigação e conservação Bosch, "s-Hertogenbosch, Holanda

Serviço Dedicado ao Património

? Ferdinand Meder, Zagreb, Croácia

? Jim Callery, County Roscommon, Irlanda

? The Norwegian Lighthouse Society, Noruega

? Zoltán Kallós, Transilvânia, Roménia

Educação, Formação e Sensibilização

? Erfgoedplus: Online heritage platform, Hasselt, Bélgica

? Centre of Visual Arts and Research, Nicósia, Chipre

? Programa educacional para o património cultural checo, República Checa

? Projeto Paavo Nurmi Legacy , Turku, Finlândia

? Heritage Crafts Initiative for Georgia, Tbilisi, Geórgia

? Projeto Patromónio Cultural e acessibilidades, Berlim, Alemanha

? ilCartastorie: Storytelling in the archives, Nápoles, Itália

? Programa educacional: Património Cultural Judeu, Varsóvia, Polónia

? Mestrado de Análise Estrutural de Monumentos e Construções Históricas, programa europeu coordenado em Guimarães, Portugal

? Samphire: Projeto de património marítimo da Escócia, Reino Unido

Foram também atribuídos Prémios Europa Nostra a projetos de dois países europeus que não integram o programa Europa Criativa: Kiliç Ali Pasa Hamam em Istanbul, Turquia (categoria de conservação), e A coleção de guardiões do tempo Philippe Stem, em Geneva, Suíça (categoria de investigação).

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.