Tolentino Mendonça: "Servir a Igreja na Cultura"

A anúncio da ida do padre e poeta Tolentino Mendonça para os arquivos e biblioteca do Vaticano corresponde a um pedido do Papa Francisco. Iniciará funções em setembro.

Ao abandonar em setembro a atividade em Portugal, o padre José Tolentino Mendonça justificou que aceita o pedido do Papa Francisco para "servir a Igreja na Cultura". Em declaração, o poeta considera que o facto de ser nomeado arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana deve-se a ao desejo do sumo pontífice: "Quis o Papa Francisco chamar-me a Roma para servir a Igreja em colaboração estreita com o seu ministério petrino, nomeando-me "Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana"."

Um cargo que, acrescenta, "desde os alvores da Igreja de Roma que os papas mantiveram a tradição de conservar num arquivo próprio a memória dos mártires e a gesta dos pastores, bem como os livros que asseguravam a atividade litúrgica e as necessidades administrativas da comunidade eclesial". Recorda que "desde o século VIII temos notícias consistentes da existência de uma biblioteca, enriquecida ao longo dos tempos com monumentais e preciosos espólios, que colocam a atual Biblioteca Apostólica Vaticana entre as mais fascinantes instituições culturais do mundo". Daí que "o arquivo e a biblioteca sejam assim lugares referenciais da memória específica do cristianismo, mas também da cultura universal; são espaços de ciência e de construção de pensamento, procurados por investigadores de todo o mundo que ali encontram o rastro da história e a capacidade que esta tem de iluminar o presente; são grandes repositórios daquela beleza capaz de ferir de infinito o coração humano".

Para José Tolentino Mendonça, "a cultura é uma das fronteiras proféticas para o catolicismo de todos os tempos e, de um modo talvez ainda mais incisivo, para o catolicismo contemporâneo. Como recorda o Concílio Vaticano II, "é próprio da pessoa humana necessitar da cultura", pois esta fornece os bens e os valores necessários para alcançarmos "uma autêntica e plena realização" (G.S.53)".

A cultura, afirma, "faz-nos viajar à raiz arquitetural da pessoa, àquilo que constitui o núcleo fundante da sua aventura existencial, mas também nos permite interrogar e iluminar o seu horizonte de sentido. A cultura documenta o que somos, é verdade. Mas espelha e potencia as grandes buscas interiores, o contacto com as grandes perguntas, a vizinhança das razões maiores que funcionam como patamares do caminho a que a nossa humanidade vai chegando, a proximidade daquele vastíssimo e inconsútil silêncio que, porventura ainda melhor do que a palavra, exprime em nós o mistério do Ser. A arte do encontro, para que tanto tem desafiado a Igreja o Papa Francisco, tem aí um espaço de desenvolvimento natural, pois a cultura, no seu sentido mais verdadeiro, é prática de escuta, de atenção, de intercâmbio e de interdependência; é exercício interminável de hospitalidade. Não admira que um dos serviços que a Igreja de cada tempo presta ao futuro seja, por isso, o investimento no diálogo entre a Fé e a Cultura, que constitui um horizonte inequívoco para uma apresentação credível do Evangelho ao coração das mulheres e dos homens nossos contemporâneos e uma reparadora fonte de esperança e de paz".

Por estas razões, explica, coloca-se "humildemente ao serviço da Igreja, como mais um entre os operários da vinha do Senhor" e confia-se "à força da oração dos irmãos e à intercessão de Maria, Sede da Sabedoria".

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