'The Staircase': O drama, pouco subtil, de ser inocente ou "não culpado"

O documentário do realizador francês Jean-Xavier de Lestrade, que está em exibição na Netflix, mostra como uma suspeita pode impedir a justiça

Não há prova mais real, e cruel, da intensidade dramática de uma história do que a cara de Michael Peterson. No 9º episódio, o escritor americano surge, após oito anos de pausa na história. Os seus olhos estão baços, a pele irritada, os dentes fazem-no sibilar frases que antes saíam entoadas teatralmente. Coxeia e está mais magro.

Michael foi filmado por Jean-Xavier de Lestrade ao longo de 16 anos. Tem agora 74 anos, tinha 58 no primeiro episódio da série. A sua cara é o guião visual de uma história que não se consegue contar. A mulher de Michael morreu, no dia 9 de dezembro de 2001. Não se sabe como. O que o documentário conta, magistralmente, é a história da suspeita que veio depois.

Kathleen e Michael eram um casal rico, branco e feliz que vivia numa casa grande, com piscina e jardim, numa segregada e pobre Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Ele escrevia livros, sobretudo autobiográficos, sobre a sua guerra do Vietname. Ela era uma executiva de telecomunicações. Na última noite em que estiveram juntos, beberam vinho e champanhe. Foram sentar-se juntos nas espreguiçadeiras da piscina, apesar de ser uma noite de dezembro. Kathleen regressou a casa e Michael conta que ficou mais um pouco.

Pouco depois, Michael encontrou Kathleen caída no chão, ao fundo de uma escada, dentro de casa. Ligou para o 112. Na gravação ouve-se o seu choro e as palavras têm aquele final entoado em súplica que as crianças usam numa birra. A polícia chegou oito minutos depois. A mulher estava morta, o marido foi escolhido como suspeito.

É esta interpretação, feita pelas autoridades, que é contada ao longo de 13 episódios pelo documentário de Lestrade (que ganhou um Óscar, em 2002 - o primeiro ano de filmagens de The Staircase - com O Culpado Ideal). A suspeita que o Estado da Carolina do Norte lançou sobre Michael Peterson poderia, da mesma forma, ter sido lançada sobre um desconhecido. Poderia, até, não haver suspeita nenhuma. Kathleen poderia ter caído, numa escada estreita, íngreme e de ângulos retos, como é aquela.

Por isso, esta é uma série que narra, com tempo e rigor, um processo judicial. Mas é muito mais do que isso. É a melhor série recente sobre justiça. A "justiça" que aqui importa não é o mecanismo, mas a ideia.

Ao longo de 13 episódios, de 46 minutos cada, Lestrade mostra-nos, com subtileza, a forma óbvia do que vemos e ouvimos todos os dias sobre outros casos. Que a justiça só pode ser, para ser "justa", uma correção da sua ausência, da "injustiça". E que, demasiadas vezes, a injustiça predomina: para autoridades pressionadas por "resultados", para técnicos forenses que incriminam sem testar, para familiares descrentes e ansiosos, para advogados pragmáticos, para jurados que ignoram, para juízes calculistas, para jornalistas ávidos de conclusões.

A cara de Michael Peterson ganha as mesmas marcas que o documentário provoca nas convicções de quem o vê com atenção. Há uma frase que resume o drama, dita pelo irónico advogado que o defende: no final, não há nenhum veredicto de "inocente". Um processo judicial, uma suspeita levada a um júri, distingue apenas um "culpado" de um "não culpado". E este último conceito, tão saudavelmente lato, inclui a inocência, mas também a "dúvida razoável" sobre o grau de culpa.

Michael Peterson tem várias histórias, como é comum: é um ex-marine bissexual, adotou as filhas de um casal de amigos mortos na Alemanha (ela, também, improvavelmente encontrada morta ao fundo de umas escadas). Será que essas são as razões que explicam a morte de Kathleen, como diz a acusação com um sotaque sulista caricaturalmente conservador? Ou o que tem a sua "infidelidade conjugal" a ver com uma morte sem evidências de agressão? A sua família divide-se.

No final de tudo, em 2017, para falar de justiça, com os lábios e as mãos a tremer, Michael fala de uma música que gosta. Everybody Knows, de Leonard Cohen. É o final perfeito para uma série que nos ajuda a perceber o tempo em que vivemos: Everybody knows that the dice are loaded/ Everybody rolls with their fingers crossed/ Everybody knows the war is over/ Everybody knows the good guys lost/ Everybody knows the fight was fixed/ The poor stay poor, the rich get rich/ That's how it goes/ Everybody knows.

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Nuno Artur Silva

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