Tesouros nacionais deveriam ter planos de segurança especiais

Luís Raposo, presidente do Conselho Internacional de Museus da Europa, defende a criação de planos de segurança especiais para as peças classificadas como tesouros nacionais, uma vez que a existência de seguros para as coleções dos museus é "totalmente incomportável".

"Assim teriam uma proteção especial em caso de catástrofes como sismos, inundações ou incêndios. A componente de seguro seria a última prioridade", afirmou Luís Raposo, em declarações à agência Lusa, quando contactado a propósito do acidente que ocorreu no domingo, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), que danificou uma escultura do século XVIII.

O museólogo comentou que "em abstrato", seria bem-vinda a criação de um seguro permanente, mas sublinhou que "os valores são incomportáveis".

O MNAA anunciou que será constituída uma equipa multidisciplinar para a recuperação da estátua do "Arcanjo São Miguel", que sofreu fraturas e perdas da camada policromada, mas que poderá ser recuperada, segundo os especialistas.

Luís Raposo, presidente do Conselho Internacional de Museus ICOM-Europa, a maior organização internacional do setor, indicou que "quando as coleções estão dentro dos museus públicos - em situação de exposição ou em reserva - a prática habitual nos diferentes países, incluindo Portugal, é que não existam seguros".

"Em abstrato, seria bem-vinda a existência de seguros dessa natureza, porque mesmo dentro dos museus, em circunstâncias normais - seja em exposição ou reserva - as peças correm alguns riscos - como se viu no caso do acidente do Museu de Arte Antiga", considerou.

Para o ex-diretor do Museu Nacional de Arqueologia, "riscos existem sempre", mas a criação de um seguro para todas as peças dos museus públicos "seria totalmente insuportável do ponto de vista dos orçamentos dos museus e da disponibilidade financeira dos Estados".

"Implicaria verbas completamente fora de todo o propósito dos orçamentos atribuídos aos museus", vincou.

De acordo com o conhecimento que o museólogo tem da realidade mundial dos museus, a não existência de seguros não ocorre só em Portugal.

"Não conheço algum país que tenha esses seguros. Não garanto, mas a prática comum é esta. Não existem", disse, acrescentando, que para cada realidade, "é uma questão de avaliação entre riscos e custos".

No caso dos acidentes - como aquele que ocorreu no MNAA - considera que "os riscos são muito baixos, e os próprios museus têm condições de conservação e restauro dos pequenos acidentes que podem acontecer".

Os seguros das peças dos museus são habitualmente realizados para quando as obras saem e são transportadas para serem apresentadas noutros museus.

"Também estes seguros têm custos imensos. De tal modo, que muitos dos projetos que os museus por vezes pensam fazer, devido aos custos incomportáveis, acabam por não os realizar", apontou.

Questionado sobre o fluxo crescente de turismo e de visitantes nos museus e monumentos do país, e a probabilidade de mais acidentes ocorrerem, o presidente do ICOM-Europa mostrou preocupação com esta realidade.

"É o caso do Mosteiro dos Jerónimos, que começa a ter uma entrada superior à sua capacidade, e pode vir a acontecer noutros monumentos e até em museus", alertou.

Também contactado pela agência Lusa sobre a questão da necessidade de um seguro para as coleções dos museus públicos, António Filipe Pimentel, diretor do MNAA, considerou que os valores seriam "incomportáveis para qualquer museu".

"Seria totalmente incomportável fazer um seguro permanente a 50 mil peças de um museu. Estamos a falar de peças que valem milhões e milhões, algumas de valor inestimável", avaliou.

Por outro lado, defende que os museus poderiam poupar muito dos seus orçamentos se o Estado fizesse um seguro para o transporte das peças, através de uma caução, em vez de ser feito por seguradoras privadas.

"Poupavam-se muitos recursos dos museus com essa medida. Temos um orçamento anual reduzido para projetos, e se não entrasse a rubrica dos seguros, seriam custos valiosíssimos que poderíamos poupar", sustentou.

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