Teresa, Ana e Cândido. Com três nomes se faz uma casa

Embrulharam as dificuldades e fizeram juntos um espaço em Paris onde a cultura portuguesa tem o papel principal

Uma arquiteta, uma professora universitária e um empresário fizeram uma obra em Paris. Nenhum dos três recebeu dinheiro pelo trabalho de um ano e meio e o empreiteiro gastou mais de 300 mil euros. Não param de elogiar-se mutuamente. Cada um diz: sem eles não teria sido possível.

Teresa Nunes da Ponte, 60 anos, Ana Paixão, 39, e Cândido Faria, 54, são os protagonistas. A obra é o auditório da Casa de Portugal na Cidade Universitária Internacional de Paris, de verdadeiro nome Residência André de Gouveia, construída em 1967, destruída em Maio de 68, ocupada após o 25 de Abril de 1974, reconstruída 30 anos depois. Faltava o auditório, agora está pronto, inaugurado há um mês por António Costa e Artur Santos Silva, com um miniconcerto do pianista Júlio Resende. As obras custaram 440 mil euros, cem mil pagos pelo BPI, 25 mil pela Gulbenkian, o restante por Cândido Faria. Houve outras doações, como os seguros oferecidos pela Fidelidade, por exemplo.

Nas fotos da cerimónia, nenhum dos três aparece na primeira fila e Ana Paixão só se destaca quando faz a sua intervenção enquanto diretora. Porque ela é e foi diretora da Casa de Portugal, sim, desde 2011, escolhida por concurso. Doutorada em Literatura Comparada e em Musicologia, é professora a tempo inteiro na Universidade Paris 8. Especializou-se em literatura e música dos séculos XVI a XIX, mas nos últimos anos ganhou novas capacidades: perita em gestão e, mais recentemente, em construção civil. Pelo menos é o que diz Cândido Faria, o empresário que continua espantado: "Um dia perguntei-lhe como é que sabia tanto de ar condicionado e ela respondeu: "Sou curiosa por natureza." Ela conhece a casa de cor e salteado. Os papéis, os mapas, onde está o fusível..."

A diretora da casa é "remunerada" pelo direito de ali residir e nada mais. Para ela esclarecer este pormenor é preciso perguntar-lhe, porque não o dirá espontaneamente. No entanto, é ela quem chama a atenção para o facto de Teresa Nunes da Ponte ter feito o projeto e o acompanhamento da obra a título benévolo: "Trabalhou neste projeto desde 2013, vindo a Paris por vezes mais do que uma vez por mês, sempre ao telefone a par da evolução da obra." Ou nas palavras de Cândido: "A Cidade Universitária obrigava-a a estar presente por tudo e por nada, só para chatear, sem ser preciso. Ela foi muito paciente, grande mulher."

Este é o ponto em que se fala de contrariedades. Durante um ano e meio, os três andaram de Herodes para Pilatos, que é como quem diz entre a Câmara de Paris, a direção da Cidade Universitária e outras entidades, até conseguirem ter todos os papéis em ordem. A burocracia habitual, já se vê, e mais algum contravapor que agora eles querem esquecer.

A arquiteta, no tom sereno de quem já viveu muitos temporais, conta que quando o presidente da Fundação Gulbenkian lhe falou em andar a reunir mecenatos para esta obra, ela disse que queria participar. Conhece bem a Fundação, esta arquiteta que recorda com carinho os encontros com Ruy Athouguia (1917-2006), Daciano da Costa (1930-2005) e Gonçalo Ribeiro Telles (1922), três dos autores dos projetos iniciais - respetivamente de arquitetura, interiores e paisagismo - da sede de Lisboa, com os quais trocou impressões no início na renovação.

A Casa de Portugal, hoje Residência André de Gouveia, foi inaugurada em novembro de 1967, com projeto de José Sommer Ribeiro. Seis meses depois, Paris era incendiada pelo Maio de 68 e a casa não escapou: relacionaram-na com o regime da ditadura e invadiram-na, destruindo o interior. O mesmo aconteceu em 1974. Em 2003 foi objeto de obras no valor de 9,3 milhões de euros, financiadas pela Gulbenkian, por mecenato e pela Cité Internationale Universitaire, que contraiu um empréstimo bancário de seis milhões e por isso se tornou proprietária até 2032. O projeto foi do arquiteto franco--português Vincent Parreira e o nome foi mudado para Residência André de Gouveia, para evitar confusões, indo buscar para patrono o humanista do século XVI que chegou a ser reitor da Sorbonne. A casa - toda a gente continua a conhecê-la como Casa de Portugal - passou de 104 para 186 quartos, todos com casa de banho privativa, caso único entre as 40 residências da Cité. Mas o dinheiro não chegou para refazer o auditório.

Por ali passaram até hoje seis mil investigadores portugueses e de outras nacionalidades, e entre eles os bolseiros da Gulbenkian colocados em Paris. Artistas, cientistas, escritores, a casa acolheu-os e alguns já responderam ao apelo lançado por Ana Paixão. É uma das iniciativas para captar mecenas, mil euros para ter o nome num quarto. Com a gestão de Ana Paixão, a casa passou a dar um lucro de 300 mil euros por ano, pois além dos residentes anuais agora é possível a qualquer pessoa ali dormir por 50 euros por noite, se houver vagas. No período do verão a casa abre-se a estudantes, sobretudo norte-americanos, que vão estudar francês para Paris. Mas todo o lucro - ou o prejuízo, se o houvesse - vai para a Cité Universitaire.

O que agora foi feito é o auditório denominado Sala Fernando Pessoa e a Sala Vieira da Silva, que será a biblioteca e zona de estudo. Ana Paixão tem já uma programação intensa, a sala está ocupada até ao fim do ano. Público não falta: a sala tem 150 lugares e só na casa há 186 residentes, e no campus há seis mil pessoas. A diretora tem parcerias com inúmeras instituições e com todos os festivais relacionados com Portugal, do Chantier d"Europe ao Parfums de Lisbonne, e dos tempos do conservatório trouxe grandes amizades e contactos. É ali que está alojada agora toda a equipa do Teatro Nacional D. Maria II da operação Ocupation Bastille.

Com todo o conhecimento que tanto Cândido como Ana têm da comunidade portuguesa, o que faz falta? Responde o homem de Riba de Ave: "O nosso país, que precisa de crescer, devia aproveitar estas pessoas que se destacam e que estão espalhadas pelo mundo. Mas não há ligação cultural, intelectual e até industrial com a comunidade portuguesa. Muitas vezes tive contactos, em trabalho, com grandes quadros portugueses que estão em multinacionais. Não entendo como é que nenhum governo entendeu isso. Devia haver uma plataforma para fazer esta ligação. Conheço muitos notários que fazem escrituras e falo muito com eles. Dizem que a comunidade portuguesa é a mais ativa de todas, mesmo em compras e vendas de propriedades."

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Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...