"Tenho um afeto muito grande por aquilo que fiz"

Fernando Guerra começou a fotografar arquitetura quando a profissão não tinha nada de "cool". Hoje inaugura no CCB uma exposição que reúne 1200 das suas reportagens

Um dia, Jared Leto, ator vocalista da banda 30 Seconds to Mars, partilhou uma fotografia de Fernando Guerra na sua conta do Facebook. Essa imagem, além de repercussão internacional, foi, segundo o artista, um desses raros momentos em que as suas filhas adolescentes valorizaram o que faz. "Foi o ponto alto da minha carreira", ri-se. O que pode mudar a partir de hoje, dia em que inaugura a exposição Raio X de uma Prática Fotográfica, na Garagem Sul do CCB. "O meu trabalho é este, é o que me interessa que perdure. Tenho um afeto muito grande por aquilo que fiz". Fernando Guerra, arquiteto de formação, explica, com estas palavras, a a celebração da fotografia de arquitetura que vem fazendo desde 1999.

Fala dos seus 1200 trabalhos, reunidos desde 2004 no site Ultimas Reportagens , espinha dorsal do que se vê no espaço dedicado à arquitetura, e mais 60 projetos que nunca estiveram online, a partir de uma longa mesa, que mistura fotografias e artefactos como o iPad em que Siza desenhou Adão e Eva em torno da maçã. "Isto é tão mais do que um trabalho ou emprego. É um modo de vida", declara ao lado do irmão, Sérgio, que o acompanha nos bastidores.

O mais velho dos irmãos Guerra, 46 anos, recebeu a primeira máquina fotográfica aos 16 anos. O que podia ser um hobby fugaz, persistiu. Fernando viu o seu trabalho no número dedicado a amadores da Photo, no início dos anos 90. A arquitetura só existia enquanto profissão. Em Lisboa e em Macau onde trabalhou, após o curso. "Tinha uma máquina pendurada ao ombro, fotografava furiosamente até chegar às obras e depois via, mas nunca fotografava, porque fotografia de arquitetura era a coisa mais aborrecida à face da Terra". Nas suas imagens há pessoas, a nuvem que só lá está naquele dia... Explica: "Na altura, o que os editores queriam era as casas despidas de pessoas e isso não me interessava nada. O que me interessava era o momento decisivo do Cartier-Bresson".

No regresso de Macau, em 1998, Sérgio, sete anos mais novo, estava a terminar o seu curso de arquitetura, e falou da necessidade de fotografia de arquitetura. "O Sérgio começou a achar que podia fazer, mas como ele não percebia pevide, eu achei que ia ser o fim do nome da família, mesmo que o nome da família não fosse conhecido de ninguém a não ser na nossa rua. Quando comecei, ia um bocado obrigado". O irmão intervém. "Eu comecei a arranjar trabalho já a contar que ele viria". Fernando retoma: "Em 1998 ou 1999, ninguém queria ter esse trabalho. Eu tinha a necessidade de dizer que era arquiteto, porque senão era menos bem tratado nas obras onde ia". Iam bater às portas com os slides. Arquitetos que lhes disseram não, são hoje clientes. Fernando recorda as palavras do irmão num dia de chuva a fotografar um projeto de Belém Lima: "Mano, a partir do próximo rolo não ganhamos dinheiro com este trabalho".

Chegamos a 2017 e à galeria do CCB. À relação próxima com Álvaro Siza. Aos trabalhos em projetos assinados por Zaha Hadid, Like Architects, Carrilho da Graça ou Aires Mateus. No estúdio FG+SG trabalham mais quatro editores de imagem e um administrativo. "Já nos quiseram fazer parecer Batman e Robin, mas nós temos pessoas a ajudar. Além da família, no ateliê. A editar as fotografias que fazemos e o Sérgio a pôr-me em todos os sítios. Nunca me preocupo com orçamentos, com nada", reconhece Fernando.

A exposição é, também, uma radiografia do país. "Sempre fotografei aquilo que se estava a produzir mais. Primeiro, shoppings; depois, escolas - Parque Escolar; o acesso dos jovens ao crédito, e portanto muitas casinhas pequeninas; depois, tudo isso desce, o Pedro Passos Coelho disse "vão todos daqui para fora" e, curiosamente, eu não fui para fora porque ele mandou, mas porque lá fora começaram a chamar". Um pouco antes da troika chegar a Portugal, começaram a surgir os convites para trabalhar fora. Há um gráfico com estes dados na exposição, mas bastaria seguir Fernando nas últimas semanas: São Paulo, Rio de Janeiro, Macau, Lausana, Madrid, Genebra, Luxemburgo e Milão.

Depois da fotografia, Fernando é apaixonado por carros e é por isso que há quatro Porsches, seus, na exposição, por sugestão do curador. "O que o Luís [Santiago Baptista] diz é que ninguém está comigo mais de cinco segundos sem que eu comece a falar nos automóveis. A relação que o Luís faz "tem a ver com a procura do belo, de um certo sentido estético que eu faço com tudo o que tenho".

Raio X de uma prática fotográfica

Garagem Sul, Centro Cultural de Belém

Praça do Império, Lisboa

De terça a domingo, das 10.00 às 18.00 (última entrada: 17.30)

Até 15 de outubro

Entrada: 4 euros; 2 euros (estudantes, maiores de 65, portadores do cartão Bertrand, SECIL, membros da Ordem dos Engenheiros Técnicos, clientes BBVA com cartão premium; gratuita para menores de 18 anos e Cartão Amigo CCB.

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