"Tenho orgulho em não depender do Estado"

Almoço com Filipe La Féria

Em dia de estreia, achei quase impossível que Filipe La Féria aceitasse o meu convite para almoçar - conseguia ver a azáfama, gritos de um lado para o outro, fatos atirados com urgência para camarins, últimos retoques no cenário, atores a aquecer o tom para cantarem melhor. Não me ocorreu que, para um profissional com mais de 50 anos de carreira - "de muitos êxitos, desilusões e de luta", sublinha - e um mínimo de três espetáculos diários para uma plateia de 770 pessoas, estrear um novo espetáculo fosse pouco mais do que um dia como os outros.

"Está tudo muito calmo", diz-me Filipe La Féria, o tom rouco que todos lhe conhecem pendurado num sorriso que nunca desaparece por completo. Quando nos sentamos na mesa reservada no segundo piso do Solar dos Presuntos - cumprimentos distribuídos pelo caminho a muitos dos que ali almoçam; abraços e saudações retribuídos aos empregados da casa com quem se cruza -, diz-me: "São muito meus amigos, aqui." Não precisava de o esclarecer, o carinho e a atenção que recebe mostram que é mesmo assim. De tal forma que mesmo sendo meu convidado hão de recusar pagamento. O almoço é oferta da casa e não há discussão.

"Já estamos com a Amália há uma semana, gosto sempre de fazer previews, de rodar os espetáculos. E esta manhã já demos uma sessão da Pequena Sereia - a segunda é agora às 14.00, e à noite temos a estreia." Em épocas de festa, como o Natal, chegam a ser seis ou sete por dia, cenários mudados, elenco ajustado e La Féria atento. Garante que confia na sua "equipa extraordinária" e, sobretudo agora que está a chegar "ao outono", tem a preocupação de formar pessoas novas. "Mas gosto de estar por ali", confessa, reconhecendo mais veia artística na neta mais velha, de 4 anos (tem outra de ano e meio), do que na filha, Catarina, que apesar da ligação ao teatro "está hoje mais focada na família".

citacao:A cultura paga impostos escandalosos. Até pelos cartazes que pomos na fachada temos de pagar]

Alentejano com costelas espanholas - "a minha mãe era ali da raia, de Barrancos, e toda a família tem origem em Huelva" -, gosta de comer e nem tenta resistir aos queijos e enchidos à nossa frente, perfeitos para tapear enquanto não chegam os habituais filetes de peixe-galo com arroz de tomate. Eu preferi o delicioso folhado de perdiz com batata frita na perfeição e a costumeira imperial. Conta-me que o dia começa cedo e tem sempre que fazer. Não são só os problemas que "os portugueses adoram criar". São as ideias que está permanentemente a trabalhar.

Ainda antes de oficializar a reedição de Amália - que na verdade não o é, já que escreveu textos novos para enquadrar todas as dimensões hoje conhecidas da vida da fadista, a encenação é "muito moderna e sofisticada", complementada com vídeo em 3D e integrando "uma homenagem aos pintores de todas as épocas que ela atravessa, de Almada a Stuart Carvalhais, Pomar ou Vieira da Silva" - já tem novos projetos a andar. "Começo logo de manhã a ensaiar Olívia e Eugénio, com a Rita Ribeiro e dois jovens com síndrome de Down que vou levar ao palco pela primeira vez - é uma peça muito difícil que vai estrear-se em tournée por Portugal. Depois tenho de escrever A Volta ao Mundo em 80 Minutos, com o João Baião, que é um grande musical e estará em palco no Casino Estoril, em breve. E tenho de pensar já no que se seguirá a Amália. É sempre este vendaval." É por isso que diz que devia viver "pelo menos mais duas vidas", ou então "viver 200 ou 300 anos, para fazer tudo o que queria - é muito injusto a vida humana ser tão curta..."

A sua foi desde sempre o teatro. "Sou da Aldeia Nova de São Bento, que hoje é Vila, e o que mais me fascinava em miúdo eram as caricaturas dos teatros que saíam no Diário de Notícias. Não se falava tanto de política e futebol..."

Os custos chegam a 70% do preço dos bilhetes

Mais novo de seis irmãos, nascido no ano em que acabou a Segunda Guerra numa família liberal de "médicos, homens célebres, maçons - o meu pai era um lavrador abastado -", diz que teve a sorte de ter uma infância muito feliz e o privilégio de ver o mundo à luz de diversos cristais. "Como dizia o poeta espanhol Ley Campoamor, nada es verdad ni mentira, todo es del color del cristal con que se mira; e eu achava que o mundo tinha de ser diferente, via tudo como um teatro a que assistia ora de camarote ora de plateia, até no galinheiro."

Os recortes do DN, guardava-os numa caixa de sapatos. Não apenas para recordar, para fazer igual ou melhor nos teatrinhos que promovia no Colégio Infante de Sagres ou na igreja, ainda antes de se estrear, aos 16 anos, na Companhia Rey Colaço - Robles Monteiro, em que representou com os maiores nomes da época de ouro do teatro e da cultura portuguesa. "Tive a sorte de conhecer gente extraordinária: Almada Negreiros, Natália Correia, Ary, Cesariny... estreei-me numa peça em que entrava a Palmira Bastos!"

Desde essa altura, reconhece já ter feito "muito pela cultura portuguesa", "lançado grandes talentos", como António Zambujo. E não compreende como se pode desvalorizar o trabalho feito com críticas de que é cultura ligeira. "O que faço está enraizado na tradição portuguesa e tem muita qualidade" - palavras do público, português e estrangeiro, não suas. "Uma peça de Shakespeare pode ser horrível."

Aproveitando a chegada das generosas doses de filetes e folhado, o sabor a exceder as expectativas, como sempre acontece ali no Solar dos Presuntos, faço a ligação à sua saída do Porto, onde chegou a ter o palco do Rivoli por sua conta, na época em que Rui Rio estava à frente da câmara. "Adoro o público do Porto e imensa gente me pergunta porque não levo lá as minhas peças, mas é muito difícil. Antes, o teatro era dos artistas, agora é dos programadores - já não há encenadores, há programadores. Nos teatros oficiais são essas pessoas de fora, que não têm expressão artística, que controlam tudo. E o próprio Rui Moreira disse que não queria ali os teatros do La Féria e similares... contra isso não há argumentos."

A política cultural em Portugal é desastrosa

Em Lisboa, não sente esse preconceito porque o investimento que fez no Politeama - "e foi um risco" - lhe pôs o público aos pés. "As pessoas vêm em multidões, enchem o teatro, o que me permite ter estas companhias, mas isto requer muito trabalho... Eu nunca fui muito ajudado pelo Estado, sou um pouco enfant terrible. E a cultura paga impostos escandalosos - como se fosse um centro comercial ou uma mercearia. Até por termos os cartazes na fachada temos de pagar - à junta, à câmara, ao Estado, aos bombeiros... São coisas em que podíamos ter benefícios e que chegam a representar 70% do custo de cada bilhete. Mas hoje fazer teatro é assim, é uma roleta. Em Amália tenho um grande elenco, com mais de 70 pessoas em palco, e isso deixa-me aflito porque se o teatro não esgotar não dá para pagar tudo."

O maior amargo de boca que teve foi também aqui, com o cinema Olímpia, que comprou para fazer um teatro e uma escola de artes do espetáculo, em 2009. Recorda que, na altura, o presidente da câmara, António Costa, entusiasmara-se até a fazer ali uma espécie de Passeio da Fama à moda de Los Angeles. "O Politeama, ali ao lado, é um ex-líbris e aquela rua é dos sítios com mais história de Lisboa - veja-se os estrangeiros que ali vão. Ainda ontem um terço da sala eram estrangeiros. É tão popular aqui como o Lido em Paris ou um teatro do West End em Londres."

Mas o que parecia certo desfez-se em nada, as licenças camarárias esperadas em pouco tempo nunca chegaram e o investimento de La Féria, com recurso a um empréstimo junto da CGD, foi por água abaixo, deixando-o agarrado a uma dívida "astronómica". "Ainda fui recebido uma vez por Fernando Medina, já presidente da câmara, que me disse que oito dias depois mandava chamar-me. Passaram dois anos. Entretanto tive de vender o teatro - que agora vai ser transformado em hotel - e tudo o que tinha e estou aflitíssimo para pagar", reconhece. "É uma enorme injustiça. Mas até me orgulho de não depender do Estado."

A cultura ainda é como dizia Salazar: 'A casaca que se veste para receber os estrangeiros'

Esvaziamos os pratos em pouco tempo - ou assim parece, porque a conversa boa não deixa ver o tempo passar e a comida estimula a gula. Os "50 anos muito difíceis" da carreira de La Féria, mesmo cheios de prémios - "prémios e condecorações nunca faltam, dinheiro é que não há", ri-se - deixaram-lhe uma certeza. "A política cultural em Portugal é desastrosa. Basta olhar para o Orçamento do Estado. A cultura é o parente pobre e tudo está entregue a lobbys muito fechados. Ainda é como Salazar dizia: a cultura é a casaca que se põe para receber os estrangeiros."

Pergunto-lhe se não reconhece valor em nenhum dos nomes que assumiram a pasta até hoje. É rápido a chegar a João Soares, cujo trabalho na Câmara de Lisboa elogia. "Gosto muito dele, como pessoa e como político. Foi o melhor presidente da câmara que tivemos e foi um grande erro deste governo não o manter como ministro da Cultura. Mas tornou-se incómodo porque enfrentou os lobbys..." Guarda também as melhores palavras para Pedro Santana Lopes, "um homem que pensa no futuro, tem visão". Mas hoje não reconhece qualidade em ninguém. Deixou-se que o teatro perdesse toda a importância, lamenta, que se tornasse "uma coisa para as elites das elites, e hoje podem estar as salas todas fechadas que ninguém nota. E quem tem público, como eu, paga." Pergunto-lhe quanto custa produzir um musical como esta nova versão de Amália. Aponta para cerca de meio milhão de euros. "E é feito com boa vontade dos atores, técnicos, etc., que só recebem depois da estreia."

Somos interrompidos com uma proposta de leite-creme queimado ao momento que La Féria aceita de imediato para si e para mim. "Tem de provar. É uma maravilha." Não exagerou, confirmo à primeira colherada, voltando a conversa para o musical que vai estrear nessa noite de quinta-feira. Depois de seis anos em cena e 3,5 milhões de espectadores, La Féria só acedeu a refazer o espetáculo pelos muitos pedidos recebidos do público. "É a primeira peça que vou repor, numa versão totalmente nova, mas tinha de ser, porque o espetáculo ficou no coração dos portugueses."

Na primeira vez que o levou ao palco do Politeama, há quase duas décadas, fê-lo a pedido da própria Amália. "Na altura, ela perguntou-me quem é que ia fazer o seu papel, porque não via quem pudesse ser: "Só se for eu!", disse-me". A memória fá-lo rir-se. "Era uma figura extraordinária." Voltar a uma realidade mais triste: "Ao contrário do público anglo-saxónico, nós não nos refletimos nos nossos artistas, nos nossos poetas, só os valorizamos depois de morrerem. Talvez seja uma negação da nossa própria alma." É por isso que acredita que Amália será de novo um sucesso. "Tem esta força porque é a nossa história que ali se conta através da vida de Amália, que percorre todo o século XX; cita-se os maiores poetas, de O"Neill a Alegre. É um tema extraordinário." Tanto que, mesmo antes de se encontrar comigo, escreveu uma carta para enviar às escolas do país, para alertar os professores para a lição de História e de Português que ali está.

Desaparecido o leite-creme, já com o meu café e o chá de camomila a chegar à mesa, a pressão das 15.00 mesmo a chegar, La Féria explica-me que o boom de turistas em Lisboa também pesou na decisão de fazer voltar Amália. A peça é toda legendada em inglês, francês e espanhol e o encenador e dramaturgo prepara-se para acrescentar o alemão à lista.

"Nesta semana em que estivemos a experimentar o musical, vimos a quantidade enorme de turistas que foram ver o espetáculo. E ainda ontem um casal de americanos disse que eu devia estar na Broadway", orgulha-se. Noutros tempos, ainda antes do 25 de Abril, chegou a viver em Londres, mas quis voltar a Portugal. Anos mais tarde, teve convites para ficar em Madrid, em Paris, mas não teve coragem de largar os projetos que aqui tinha. E não se arrepende das escolhas que fez: "Hoje seria outra pessoa. É verdade que não ando de helicóptero, como diziam os americanos, ando de carro elétrico, mas gosto muito de Portugal; as críticas que faço são um ato de amor, por não podermos ser melhores." Ainda assim, não tem dúvidas do que dirá "a São Pedro: se for para voltar, só se for para a Broadway."

Fazemos o caminho até à saída e, se dúvidas houvesse, os abraços que vai recebendo comprovam que Filipe La Féria é uma estrela. Sem tiques dessa condição. É excecionalmente carinhoso com Evaristo Cardoso, dono do Solar dos Presuntos e antigo chef da seleção nacional de futebol. "Vai lá esta noite... estou à sua espera!" E a resposta pronta, depois de me oferecer uma flor do arranjo que enfeita o balcão: "Não podia ser de outra maneira. É um grande amigo, o Filipinho."

Depois desta noite, La Féria voltará a olhar em frente, à procura de novos desafios, inspirando-se nas peças que vê lá fora - "chego a ver o primeiro ato de uma, o segundo de outra, às vezes até três por dia", confessa -, nos livros que lê, nas viagens que faz. "Nunca estou satisfeito. Quero sempre continuar a trabalhar."

Solar dos Presuntos

Pão, queijo, presunto, azeitonas

Água

1 imperial

Folhado de perdiz

Filetes de peixe galo

2 leites-creme

1 café

1 chá de camomila

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