Diogo Infante apresenta primeira temporada inteiramente desenhada por si

A nova temporada conta com 11 produções de teatro, uma das quais própria e dez coproduções, uma ópera, com libreto de Pedro Mexia, e oito espetáculos musicais

Onze produções de teatro, uma das quais própria e dez coproduções, uma ópera, com libreto de Pedro Mexia, e oito espetáculos musicais preenchem a programação 2018/2019 do Teatro da Trindade, anunciou nesta terça-feira o diretor artístico, Diogo Infante.

O investimento na programação é de 300.000 euros, mas este montante pode aumentar, uma vez que podem dividir a receita de bilheteira com os parceiros coprodutores de espetáculos, sublinhou Diogo Infante, na conferência de imprensa de apresentação do espetáculo.

A lógica da programação desta temporada assenta numa "melhor gestão dos recursos, na aposta de espetáculos com carreira longa, privilegiando o teatro de texto, de narrativa e o trabalho de atores, seja de autores clássicos, seja de contemporâneos, com vista a fidelizar correntes de público", explicou Diogo Infante.

Por isso, na sala Estúdio, as peças deverão ficar em cartaz entre cinco a seis semanas, enquanto na sala principal - que a partir de 11 de julho recebe o nome da atriz Carmen Dolores -, os espetáculos ficarão em cartaz oito a dez semanas, com possibilidade de dilatação deste prazo.

"Este projeto artístico, que se reflete num modelo de gestão, passa por potenciar ao máximo os projetos que temos em carteira e isso representa, como eixo principal, ter espetáculos de teatro com carreiras de longa duração. É a forma que encontrámos de podermos maximizar os recursos, reinvestir o investimento, porque estamos a trabalhar para o retorno", disse Diogo Infante.

Porque essa é uma "mais-valia" de que dispõe nesta lógica já que assim podem partilhar as receitas com os produtores e possibilitando que todos trabalhem para o investimento, observou.

Das 11 produções de teatro, sete serão representadas na sala Estúdio, porque as outras quatro irão "ocupar o grosso da temporada" na sala principal.

Da programação do Trindade constam ainda três espetáculos musicais integrados no Ciclo Mundos -- no âmbito de uma parceria com o Festival Músicas do Mundo -, concertos de fado, de música latina, de jazz, de dança, mais concentrados nos meses de junho julho porque são menos apetecíveis para ao teatro, uma diversidade de propostas que vai de espetáculos para bebés até espetáculos para muito adultos.

"O que nos interessa aqui é que as pessoas se sintam refletidas nestas propostas. Não estou a trabalhar para um nicho. Interessa-me uma oferta diversificada, eclética e abrangente", frisou.

Sobre o regresso de alguns atores e encenadores à programação do Trindade, Diogo Infante disse ter sentido essa cumplicidade, devido ao "sentimento partilhado que, de uma forma geral, a classe tem" pelo Trindade, uma sala por que nutrem "muita ternura" e em que há uma "espécie de consenso", em dizer que é a melhor sala de teatro em Lisboa.

Ter um papel determinante nos conteúdos em que são coprodutores, mas também na forma como os comunicam para o exterior é, segundo o ator e encenador a "marca" da sua direção no teatro, já que pretendem "garantir qualidade" e uniformizar a forma como se projetam no mercado e, por isso mesmo, foi criado um novo logótipo.

Questionado pela Lusa sobre o facto de nesta temporada assinar apenas uma encenação - Zoom, a única produção própria, com estreia a 13 de fevereiro, na sala principal -, Diogo Infante justificou que se tratou de "uma gestão" da sua "energia".

"Tenho outras responsabilidades além desta e, portanto, não me quis apropriar demasiado do espaço de intervenção", observou, recordando que recentemente encenou e representou O deus da carnificina, e que irá encenar Carmen.

Na temporada hoje apresentada, Diogo Infante não subirá ao palco do Trindade como ator, alegando, contudo, que "haverá tempo para isso".

Diogo Infante, que assumiu funções de diretor artístico em 2017, recordou ter sido neste espaço que agora é da Fundação Inatel que se estreou como encenador há 27 anos, em O amante, de Harold Pinter.

E reiterou que se sente ali como "em casa", como quem vive "um ciclo que se completa" por aquele ser o seu teatro "favorito" de Lisboa, e onde sente "uma boa energia".

Agradeceu ainda a toda a equipa da casa, considerando-a "fantástica, generosa, empenhada, com muito brio e orgulho", assim como à sua antecessora, Inês de Medeiros. Porque o seu projeto artístico para o Trindade consiste em torná-lo "num lugar de referência na cultura em Lisboa", concluiu.

A partir de 19 de setembro, quarta-feira será o Dia do Espectador. Este dia constitui-se como uma oportunidade de concretizar "a oferta de descontos" do teatro, em termos de ingressos, afirmou Diogo Infante, que disse ainda ser esta uma forma de "colmatar um dia que é tradicionalmente mais fraco". O diretor artístico explicou que o dia do espetador pode permitir a ida ao teatro de público com "menos hábito ou posses".

A reformulação do Prémio Miguel Rovisco, um prémio para novos textos de teatro da Fundação Inatel, com o valor de 2.500 euros para o vencedor, que subirá ao palco da Sala Estúdio no ano seguinte, é outra das marcas da direção de Diogo Infante, que também virá a integrar o júri do prémio.

A nova temporada do Trindade, a primeira totalmente gizada por Diogo Infante desde que dirige o teatro, fica também marcada pelo estabelecimento de uma parceria com a Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC), à semelhança do que o ator e encenador fizera nas outras salas que dirigiu (Maria Matos e Teatro Nacional D. Maria II).

O Trindade acolherá assim, em junho de 2019, o espetáculo final da licenciatura em teatro da ESTC.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.