Spike Lee e Lars von Trier e o mal da América

BlaKkKsman não hesita em seguir as pisadas do modelo do policial. Um documento dos nossos dias para a América refletir sobre o mal e as suas vozes cada vez mais vivas.

Numa altura em que a imprensa cannoise já está histérica a prever a Palma de Ouro, o novo filme de Spike Lee, BlacKkKsman, chega com estrondo e trovão. Um regresso aos seus dias de aclamação com uma obra que se passa nos anos 1970 mas que remete para a escalada de racismo nesta América de Trump (o filme acaba com imagens reais de Charlotte e da marcha de ódio do ano passado).

Inspirado no caso real de um detetive negro da polícia do Colorado que conseguiu enganar o líder do Ku Klux Klan e tornar-se membro da organização, Spike Lee faz um filme engagé, uma lança política que denuncia um dos piores flagelos americanos, a organização racista. Há uma militância orgânica que aqui é agilizada com um humor que é certeiro na caricatura dos assassinos racistas do KkK. Escorreito, repleto de ideias de cinema e com uma lavra de ensaio sobre a linguagem e a palavra, BlaKkKsman não hesita em seguir as pisadas do modelo do policial. Um documento dos nossos dias para a América refletir sobre o mal e as suas vozes cada vez mais vivas. A sua ovação de pé no Palais durante muitos minutos diz muito sobre este acontecimento cinematográfico.

Mas "acontecimento" é também The House That Jack Built, de Lars von Trier, retrato de um serial killer americano encarnado com afinco por Matt Dilon. Passou fora da competição na seleção oficial e há relatos de vómitos e público indignado. Um belo filme de um cineasta que está com dons provocatórios cada vez mais requintados, embora, por vezes, se perca num certo exibicionismo teórico.

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João Gobern

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