Sokurov e o requiem para a Europa e as artes

O DN encontrou-se com Aleksandr Sokurov no Lido de Veneza. O cineasta russo fala do seu ensaio "Francofonia", que esta quinta-feira chegou às salas nacionais. O cinema como mergulho histórico-literário com o Louvre e a Europa de ontem como ponto de partida.

Nos corredores do Hotel Excelsior, em Veneza, há um aparato silencioso em torno das entrevistas ao mestre russo Aleksandr Sokurov. Jornalistas que parecem fãs de uma banda pop aguardam num terraço ao sol a sua vez para lhe fazer algumas perguntas. São muitos os que estão verdadeiramente apaixonados por esta nova "arca" do realizador mas há logo sintomas de debate. "Elegia à Europa", dizem uns, "manifesto sobre as consequências históricas da arte". Francofonia, há 11 meses no Festival de Veneza, provocava toda esta reflexão, coisa raríssima nos festivais de cinema.

Chegada à vez do DN poder estar alguns momentos numa mesa com ele e meia dúzia de jornalistas de todo o mundo, Sokurov está mais sorridente do que habitualmente. O cineasta de A Arca Russa (2002) e Alexandra (2007) sabe que tem a imprensa do seu lado e está com vontade de falar do seu novo filme, um ensaio - "encomenda" do Museu Louvre. Ao seu lado tem um tradutor que de forma rápida e sincopada transforma as suas palavras calmas e enérgicas do russo num inglês perfeito.

"A arte não nos salva", começa por dizer. "A arte é apenas uma concha onde nos podemos proteger. Aliás, serve apenas para nos escondermos e, ao mesmo tempo, não a recebemos como um presente de mão beijada, tem de ser criada." Sokurov está a fazer analogias a mil à hora com a sua tese sobre o Louvre e a criação cultural europeia em tempos de guerra.

"No Louvre acontece uma contradição moral. É um lugar que se salvou da guerra mas que foi criado graças às guerras de Napoleão. Daí eu ter dado este título, Francofonia, tem que ver com cacofonia. Aliás, Napoleão está aqui de forma ubíqua, está sempre em fundo. A verdade é que aquele amor incondicional que tínhamos pela França está a ser ultrapassado por algo bem mais complexo. Não quis fazer um filme histórico, apenas uma peça de arte onde comunico os meus sentimentos. Por muito que seja um leitor ávido de livros históricos, a minha relação com a História vem da Literatura", acrescenta o realizador que responde com um sorriso mais matreiro do que cínico à nossa pergunta acerca de um dos momentos do início onde ouvimos ele próprio a dizer que há uma deformação na direção desta história: "há qualquer coisa de imperfeição intrínseca na arte cinematográfica hoje. Não vejo filmes notáveis a serem feitos. Ao contrário do escritor ou do artista plástico, o cineasta não consegue captar a perfeição artística - está sempre enjaulado. Se calhar, é uma coisa que um dia pode mudar... Por exemplo, houve uma altura em que Ingmar Bergman conseguiu criar arte cinematográfica de excelência... Nós, da nova geração, não estamos aptos para isso." Fica uma pausa silenciosa no ar. Porquê, interrogamo-nos. A resposta vem com uma pausa ainda maior, mas o sorriso de Sokurov continua: "não temos o talento suficiente!"

Para além das reflexões contundentes, há também vontade de fazer revelações: filmar no Louvre não foi fácil: "estava muito mal habituado. Com A Arca Russa tive todas as condições perfeitas para rodar no Hermitage, mas no Louvre foi muito complicado. Tínhamos assinado as condições com a anterior direção mas com as eleições presidenciais chegou uma nova direção e um novo ministro da Cultura. Digamos que a nova administração do museu acabou por ser muito picuinhas. Rezava a Deus para que a rodagem lá acabasse o mais cedo possível... Foi uma tortura verdadeira, mesmo muito difícil." Aos 65, este siberiano continua a resistir, a não vergar.

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