Sobe o pano, ouvem-se aplausos e pede-se bravura a quem dança

A companhia Cão Solteiro criou Morceau de Bravoure para a Companhia Nacional de Bailado. Estreia esta quinta-feira em Lisboa

19 minutos de aplausos. Não, não foi na União Soviética de Josef Estaline, que condenava o primeiro que parasse de o aplaudir. Aconteceu na despedida dos palcos de Joan Sutherland, soprano australiana. Foi em 1959 no final da ópera Lucia di Lammermoor, de Donezitti, representada na Royal Opera House, em Londres.

Uma pergunta: Por que terá a Companhia Nacional de Bailado (CNB) esta semana publicado no Facebook um vídeo com um excerto desses 19 minutos de aplausos? Responda-se com a peça que esta quinta-feira, às 21.00, estreia em Lisboa no Teatro Camões, casa da CNB. Morceau de Bravoure. A expressão que dá título à peça, e que também faz parte do ballet clássico, designa um singular momento de virtuosismo, uma execução magnífica numa obra e que provoque como que um surto de aplausos.

A assinatura deste Morceau de Bravoure é da companhia de teatro Cão Solteiro, que volta a colaborar com o realizador André Godinho. Nunca tinham trabalhado com uma companhia de bailado. Para dar dança à trama dos corpos na peça, convocaram o coreógrafo Rui Lopes Graça.

Um espetáculo feito de agradecimentos

Estamos no ensaio. Rui desce do palco, onde fala com os bailarinos, e senta-se na plateia. Também Paula Sá Nogueira, do Cão Solteiro, e André Godinho lá estão. Os bailarinos da CNB e os três atores que integram a peça já vestiram os figurinos concebidos por Mariana Sá Nogueira e o cenário do artista plástico Vasco Araújo faz-se notar. Apagam-se as luzes, o pano sobe.

Ouvem-se aplausos, mas ninguém na plateia se move. Há uma crescente ovação mas ninguém produz qualquer som. Os bailarinos vêm agradecer. A coreografia desse agradecimento é aquela que reconhecemos própria do final de um bailado clássico. Mais aplausos. Mais agradecimentos. Passam-se mais de vinte minutos. Já dançaram? É o fim? E agora? Aplaudimos? Esperamos? Aplaudimos e/ou esperamos.

No palco parecem estar tão perdidos quanto nós, cá em baixo. À vez, parecem desesperadamente puxar dos galões e exibir o seu virtuosismo. O ator declama texto em catadupa, há Shakespeare e há ele mesmo, que nos fala. Uma bailarina faz intermináveis fouettés (piruetas conduzidas pela perna direita, que parece dar ordem ao resto do corpo). Há um musical, canta-se All The Single Ladies, de Beyoncé, ou o clássico "If you"re happy and you know it clap your hands", eles dançam e nós ouvimos a rapper M.I.A. A certa altura uma das atrizes acende um cigarro, olha em volta e pergunta: "Ninguém diz nada?" Não, ninguém diz nada.

"As pessoas batem palmas independentemente. Toda a gente assumiu que isto é assim. As pessoas vêm agradecer e bate-se palmas. Isto é uma coisa que faz sentido questionar", nota André Godinho. Há muito que, no final dos espetáculos do Cão Solteiro não se agradece.

"Não podemos vir agradecer porque não queremos dizer que tudo o que se passou foi uma ficção. Não são ficções, são situações" diz Paula Sá Nogueira. Há muito que queriam fazer um espetáculo sobre o agradecimento. Morceau de Bravoure é esse espetáculo. E talvez por isso peça ao público, aos bailarinos e aos atores que puxem dos seus galões e mostrem bravura.

Morceau de Bravoure estreia quinta-feira e está até dia 22 de novembro no Teatro Camões, em Lisboa

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