Skolimowski desvenda máscaras e segredos do quotidiano

O cineasta polaco filma as atribulações do dia a dia: "11 Minutos" narra a confluência de várias acções que ocorrem em apenas... 11 minutos

Afinal de contas, até que ponto podemos definir as rotinas do nosso quotidiano como uma colagem de factos mais ou menos irrelevantes? Ou ainda: a banalidade dos gestos e comportamentos pode ou não ser reveladora das razões mais fundas do que somos ou imaginamos ser? Ao fazer 11 Minutos (estreia amanhã), o cineasta polaco Jerzy Skolimowski apostou em desmontar as máscaras do dia a dia, expondo tudo aquilo que está para além das aparências, os seus segredos e fantasmas.

Estreado no Festival de Veneza de 2015, 11 Minutos pode definir-se como um paradoxal exercício de compressão e dilatação do tempo. Por um lado, somos confrontados com uma galeria de personagens que vivem histórias separadas: um cineasta que entrevista uma atriz num hotel, num jogo que parece oscilar entre a frieza do estudo e uma sedução à beira da agressão; um estafeta de moto que ingeriu substâncias que provocam efeitos pouco pacíficos; um vendedor ambulante de cachorros quentes que talvez tenha coisas inquietantes para esconder... Por outro lado, à medida que tais ações se vão cruzando, detetamos alguns laços entre elas e, mais do que isso, pressentimos que aquilo que está a acontecer numa delas pode conter chaves para compreender os enigmas de outra...

Há outra maneira de dizer isto: nenhuma sinopse pode dar conta da vertigem com que descobrimos 11 Minutos. O filme dura um pouco menos da tradicional hora e meia, mas tudo o que nele se apresenta ocorre num intervalo temporal de 11 minutos, através de um jogo de correspondências e ambivalências que começamos a saborear quando sentimos que um momento vivido por uma determinada personagem é, afinal, contemporâneo de outro momento de uma outra ação, com outra personagem - como se um instante fosse um momento insólito, mágico e inquietante em que uma frágil fração de segundo pode conter uma promessa de eternidade.

Exercício abstrato de um cineasta "apenas" formalista? Nada disso. O cinema de Skolimowski preserva essa capacidade invulgar de envolver um arrojado desafio a qualquer academismo narrativo, sem deixar de ser uma implacável máquina de desmontagem dos sinais da vida comum, em particular da violência latente de muitas relações. E não deixa de ser irónico que 11 Minutos, sendo uma produção de raiz polaca, envolva uma aliança com o organismo estatal da Irlanda para apoio ao cinema (Irish Film Board), tendo mesmo uma parte da rodagem decorrido em Dublin.

Talvez se possa dizer que Skolimowski (nascido em Lodz, em 1938) tem desenvolvido a sua obra através de um processo de migrações intermitentes, em parte semelhante ao de Roman Polanski, outro nome grande da "nova vaga" da Polónia revelada ao longo dos anos 50/60 - participou, aliás, no argumento de A Faca na Água (1962), primeira longa-metragem de Polanski. Repare-se em dois dos seus dois títulos anteriores: Quatro Noites com Ana (2008) era um drama visceralmente polaco com produção do português Paulo Branco, enquanto Essential Killing - Matar para Viver (2010) propunha uma perturbante parábola sobre a guerra no Afeganistão, tendo sido rodado na Polónia, Israel e Noruega.

Desde os seus títulos iniciais, como Walkower (1965) ou A Barreira (1966), até este 11 Minutos, passando pelo emblemático Moonlighting (1982), sobre um grupo de operários polacos a trabalhar em Londres (com Jeremy Irons no papel central), Skolimowski tem encenado histórias mais ou menos assombradas que, de uma maneira ou de outra, tendem para um mesmo ponto de fuga: as personagens são levadas a experimentar a diferença abissal entre os seus desejos e a crueldade, anónima ou organizada, do mundo à sua volta.

A linguagem de Skolimowski consegue ligar acções díspares num labirinto em que a transparência parece atrair o mais radical absurdo. Ao mesmo tempo, isso não exclui uma vontade de realismo que se exprime, muito em particular, nas suas invulgares qualidades como diretor de atores. Em 11 Minutos, os polacos Wojciech Mecwaldowski e Paulina Chapko, e o irlandês Richard Dormer são exemplos notáveis dessa atenção às mais discretas nuances dos gestos dos seres humanos.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.