"Sinto-me orgulhosa de ser a favorita". A israelita Netta sai fora do padrão e gosta disso

A cantora de Israel, favorita à vitória da Eurovisão em Lisboa, no dia 12, ensaiou ontem pela primeira vez. Assume a diferença e sente-se "honrada"

"Eu sabia que estávamos a fazer qualquer coisa de especial e única, mas não esperava o boom, o amor, sentir o abraço por algo tão diferente do padrão..." Netta Barzilai respondia assim sobre o entusiasmo que tem suscitado a canção Toy que traz à Eurovisão, e que terá de passar a primeira semifinal no dia 8 no Altice Arena, em Lisboa. A concorrente israelita lidera, para já, as apostas, diz o Eurovision World.

"É um sentimento incrível. Eu sei que tenho de trabalhar muito para levar a Eurovisão de novo para Israel 20 anos depois", assume a cantora de 25 anos, concorrente da versão israelita de The Rising Star onde interpretou uma versão do tema vencedor de 1978 - A-Ba-Ni-Bi, com Izhar Cohen, que promete cantar no próximo encontro com jornalistas e fãs.

Mostra-se surpreendida com o favoritismo que lhe atribuem na vitória, o que não aconteceu em Israel. Tem uma gargalhada característica que ecoa pela sala enquanto se diz "envergonhada" e "honrada". "Que uma figura como eu, que não se parece com o padrão, que pensa e cria fora da caixa" lidere as preferências. "Originalidade está escrita na minha bandeira. Sinto-me orgulhosa de ser a favorita, é uma grande mudança".

Com um macacão em estampado leopardo, mala cor de rosa à cintura, passos de dança, sorrisos e muita vontade de namorar com as câmaras, ela foi também a presença mais acarinhada entre eurofãs. Uma hora antes, tinha subido ao palco do Altice Arena, pela primeira vez, para cantar a sua canção. "Estava muito preocupada com a questão técnica", explicou.

Netta também lidera as preocupações com segurança, como se viu na sua primeira conferência de imprensa, ontem. "Afastem as cadeiras por segurança", pedia um elemento da organização antes da sua chegada.

Pela sala de conferências de imprensa passaram metade dos países que vão atuar na primeira semifinal da Eurovisão. A saber: Azerbaijão, Islândia, Albânia, Bélgica, República Checa, Lituânia, Israel, Bielorrússia, Estónia e Bulgária.

Aisel, a cantora que representa o Azerbaijão foi a primeira. Os ensaios começaram às 10.00, mostrando uma performance que se quer minimalista e dramática. Explicou a sensação de ser ela a abrir, para todos os efeitos, os espetáculos da Eurovisão 2018.

"Ficámos surpreendidos, para ser honesta", respondeu a cantora. É preciso dizer que se sorteia o dia da semifinal, mas também se a atuação acontece na primeira ou na segunda parte do espetáculo. O Azerbaijão ficou na primeira parte e foi a organização da Eurovisão que decidiu que seria a cantora, de 29 anos, a primeira a chegar a casa dos espectadores. "Nervos, entusiasmo... São muitas emoções, mas boas. Estou a tentar tê-las no sítio certo", disse Aisel. A canção X My Heart foi gravada em Londres com o produtor que trabalhou com os One Direction e Ellie Goulding.

O primeiro dia ficou também marcado pela ausência de Mikolas Josep, da República Checa, na conferência de imprensa. Membros da sua delegação explicaram que, por precaução, e uma vez que sentia dores nas costas, foi levado ao hospital. O tema pop Lie to Me é um dos mais exigentes fisicamente do que se viu ontem na Eurovisão.

Quase todas as atuações foram recebidas com aplausos, exceto a Bielorrússia. As rosas que animam a canção Forever de Alekseev suscitaram apenas surpresa, e alguns risos, na sala de imprensa onde se segue uma emissão interna. Entrevistado pelo DN, o cantor diz que se trata de um adereço que "tem a ver com a canção, que fala de um bom momento numa relação".

Os ensaios continuam amanhã com as estreias em palco da Macedónia, Croácia, Áustria, Grécia, Finlândia, Arménia, Suíça, Irlanda e Chipre.

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