Sexo, drogas e adolescência

Estreado no Festival de Sundance 2015, O Diário de Uma Rapariga Adolescente carrega o tom de um retrato só aparentemente previsível

O cartaz de O Diário de Uma Rapariga Adolescente pode passar a ideia de uma comédia repleta de códigos já bem conhecidos do grande público. Mas não é. Esta primeira obra da californiana Marielle Heller, que a publicação Hollywood Reporter designava, em janeiro de 2015, como "o tipo de filme que Sundance reza para ter todos os anos", é a afirmação segura de uma voz autoral, que define os seus próprios códigos. Nesse sentido, vale a pena referir que, justamente pela dessincronização entre o que o cartaz nos dá a entender do conteúdo e o que de facto é, o filme foi classificado no Reino Unido para maiores de 18 anos... Guerra aberta entre os produtores e a entidade responsável pela classificação, que parece simplesmente ter falhado no entendimento da mensagem.

Este Diário, em grande parte pela conceção formal entre criatividade indie e honestidade dramática, não estabelece muitas semelhanças com a maioria dos retratos da adolescência, embora seja inevitável e determinante o tema da sexualidade. É, pois, nessa chama que o filme se queima, aos olhos de quem classifica o que chega às salas britânicas, ainda que seja também através dela que a realizadora dá sinais de não estar para concessões. Baseado na novela gráfica da escritora e ilustradora Phoebe Gloeckner, que nos situa em São Francisco, década de 1970, diante de uma rapariga de 15 anos que rejubila com a sua primeira vez, esta é uma história sem floreados (a não ser os que resultam do traço animado de ilustrações): Minnie (Bel Powley) teve a sua iniciação sexual com o namorado da mãe, um homem de 35 anos. Chocante? À letra, sim, mas é por isso que se torna tão importante contextualizar. Na verdade, os anos 1970 em São Francisco, ainda no rasto da loucura dos sixties, são o reflexo de uma sociedade americana dominada pelo uso regular de drogas, em que as fronteiras morais da intimidade facilmente se transpunham - basta dizer que a mãe de Minnie (Kristen Wiig) dava festas em casa, quase todas as noites.

Bel Powley, atriz revelação, tem assim a tarefa hercúlea de levar o espectador a conviver com os paradoxos da sua personagem. E consegue-o com larga distinção, ou não fosse a sua expressividade absolutamente adequada ao universo gráfico de O Diário de Uma Rapariga Adolescente. A singularidade da abordagem de Marielle Heller está no realismo mágico que envolve o filme, e nos afasta da preocupação maniqueísta de perceber quem é vítima da sedução de quem. Não há maus: há adultos, adolescentes, e a vida, na sua admirável estranheza.

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