Serralves está em festa. Bem vindos ao São João das Artes

Música, dança, circo, teatro, cinema, exposições. Hoje é o segundo dia do evento no Porto.

Põe-se um pé dentro do Museu de Serralves e é difícil conter o espanto logo no átrio de entrada: um piano numa caixa de acrílico, que o protege da tinta vermelha que é salpicada desde o teto, toca sozinho uma versão de Grândola, Vila Morena. Esta é uma das surpreendentes instalações da exposição Tecnoforma, de Silvestre Pestana. O visitante pode então explorar a obra do artista madeirense por outras salas do edifício projetado por Álvaro Siza ou então virar para a ala da direita e conhecer a primeira grande exposição antológica com pinturas e desenhos de meio século de trabalho do pintor turinense Giorgio Griffa.

Cá fora, na Clareira das Bétulas, as atenções focam-se desde logo no teatro de circo. Numa performance de humor gestual, que só não é mudo porque há sonoridades que interagem com o público, que devolve o entretenimento em aplausos intercalados com gargalhadas, Quique Mendez surge em palco como carteiro em bicicleta, como que inspirado em Jacques Tati. Há já algumas centenas de espetadores sentados na relva a verem esta comédia Sem Remetente.

No entanto, basta afastarmo-nos um pouco para, ao fundo, conseguirmos ouvir no Court de Ténis (outro espaço do parque) Eine Alpenjazzphonie, um concerto da Orquestra de Jazz da Escola Profissional de Espinho na companhia do trompetista bávaro Matthias Schiefl.

Quem preferir teatro, pode continuar a percorrer as "avenidas" de carvalhos, teixos e bétulas até descobrir, umas centenas de metros à frente, um barracão no Arboreto. Daquele encontro inusitado surge uma interessante parceria com o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica. É aqui que a peça Perro Perdido, da Companhia Cal y Canto, está quase a começar.

250 eventos em 40 horas

Podemos parar com esta espécie de GPS pelo enorme pulmão verde onde se respira cultura. Já percebeu que estará no "Serralves em Festa". Seja bem-vindo ao Porto!

Ainda o dia nem vai a meio e já há dezenas de atividades a fervilhar nos 18 hectares do parque que em conjunto com a casa e o museu se tornou num dos principais polos de cultura do País. Desde as 8 horas da manhã de sábado até à meia-noite de domingo, em "40 Horas Non-Stop", Serralves acolhe 250 eventos e 400 artistas de quinze nacionalidades. Com entrada grátis.

Nesta 13.ª edição o tempo não azarou e o sol ajudou ao clima de festa para atrair, como sempre, muita gente a este São João das artes que Porto vive uma vez por ano.

Se à noite os concertos de música eletrónica no Prado concentram sobretudo gente mais jovem, o dia é em particular procurado por famílias; jovens casais como por exemplo Marcelo Paiva e Inês Castro, que vivem em Vila Nova de Gaia e trouxeram a filha de dois anos e meio a passear no parque e no museu. "O Serralves em Festa tem evoluído em termos de programação e nós também temos evoluído enquanto espetadores. Dantes vínhamos sozinhos ou com amigos, mais à noite, e agora vimos em família e tentamos aproveitar durante o dia uma série de atividades diferentes. O público diurno é completamente distinto. Basta olhar à nossa volta e ver o número de crianças que anda por aqui", explica Marcelo, enquanto Inês completa: "O conjunto de atividades que podemos fazer num espaço tão bonito é o principal atrativo desta iniciativa e o que nos faz voltar todos os anos."

Alfredo Carvalho, portuense, sexagenário e visitante assíduo, explica também porque aproveitou para usufruir das primeiras horas desta maratona cultural: "Venho regularmente a Serralves. Desta vez, aproveitei o "festival" para ver as exposições. Preferi vir de manhã cedo já que da parte da tarde o mais provável é que o parque se encha de gente. Já vim noutras edições e acho que a afluência de público é cada vez maior."
Se há quem venha habitualmente a Serralves há quem também se estreie nestas andanças. Salvador Martinha, apresentador de televisão e humorista, já conhecia o museu, mas numa tinha vindo ao parque em dia de festa. "Tenho um casamento, a minha mulher foi ao cabeleireiro e eu pensei: "Qual é o melhor sítio do Porto para passar umas horas?" Já estive no museu e gostei das exposições... Gosto de vir cá porque os meus limites são sempre ultrapassados por ver coisas que não imaginava. Agora, vou passear pelo parque e ver o que vai acontecer nestes palcos que estão por aí montados."

Além do público português crescer a cada ano é visível o crescente número de turistas a visitarem o Serralves em Festa. Alguns, como John Golding, inglês de Cambridge que veio passar com a mulher e um casal amigo o fim-de-semana o Porto, acabam por ser surpreendidos por terem escolhido fazer a sua visita em dia de festa: "Não tinha ouvido nada sobre esta iniciativa. Tínhamos apenas a ideia de vir conhecer o museu e o parque e apanhámos esta surpresa completa..."

Marcelo, um visitante ilustre

Hoje, entre os milhares de visitantes que acorrerão ao segundo dia de festa, que concorre este domingo com o Mini Nos Primavera Sound, que vai ter lugar bem perto, no Parque da Cidade, Serralves terá uma visita ilustre: o presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa vem apadrinhar a festa, com uma visita ao final da manhã - está prevista ter início às 11 horas.

Depois disso, a festa continuará até à meia-noite e com expectativas de bater os números do ano passado. Em 2015, estiveram nas 40 Horas Non-Stop 141 718 visitantes, um recorde numa só edição. No total das doze edições anteriores já foi batida a barreira do milhão de visitantes - mais precisamente um acumulado de 1 053 691 visitantes.

Números impressionantes, que ainda assim surpreendem sobretudo quem ainda não conhece este que é o maior evento da cultura contemporânea no País e um dos maiores da Europa com Serralves a acolher exposições, música, dança, performance, circo, teatro, cinema, fotografia e tudo o que mais lá couber.

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