Scarlett Johansson: "Manejo uma arma muito bem. Sou melhor nisso que noutras coisas"

Scarlett Johansson em entrevista fala da construção da personagem, dos desafios do realizador, Rupert Sanders, e de como este filme não é só ficção na era digital...

A atriz norte americana está de regresso aos cinemas em Ghost in the Shell: Agente do Futuro, um filme de ficção científica de ação baseado na aclamada série de manga e no filme de anime com o mesmo nome. Scarlett Johansson interpreta a personagem principal, Major, uma agente especial, a primeira da sua espécie, um híbrido humano-ciborgue, que lidera a equipa de elite Secção 9 dedicada a perseguir os criminosos mais perigosos e extremistas.

Parece que a jornada de autodescoberta de Major é um pouco menos abstrata do que a personagem principal do filme de anime de 1995...

Quando vi pela primeira vez o filme de anime achei, tal como está a dizer, que o filme era um pouco esotérico, existencial e fluido. Era muito poético e, claro, isso não se aplica apenas às palavras; a viagem visual é muito lânguida e poética também. Não me pareceu imediatamente como algo que poderia ser adaptado para a ação ao vivo. As referências visuais são excitantes e consegue-se imaginar como é que isso vai resultar fora da versão anime, mas a viagem da personagem não era tão evidente para mim. Não parecia muito materializada, e essa foi a minha preocupação quando vi o filme de anime pela primeira vez. Pensei que o aspeto físico seria emocionante para mim e que seria um grande desafio, mas o que iria eu fazer com aquilo [viagem da personagem]? Para a minha vaidade era emocionante, mas além de dar belas imagens, que mais havia ali para nos agarrar? A que é que o público se poderia agarrar? Eu não conseguia deixar de pensar nisso.

A preocupação não a abandonou...

Não me abandonou. Temos aquela mulher que tem uma ideia de quem é, ou de quem lhe é dito que ela é suposto ser, e depois, no fundo, temos aquele sentimento que é a pessoa que ela realmente é. Há um fantasma que a assombra literal e espiritualmente. Comecei a brincar com essa ideia. Isto vai soar um pouco pretensioso, mas vou dizê-lo de qualquer maneira porque me ajudou a perceber: existe o id, o superego e o ego, e as três partes compõem a experiência dessa pessoa. Essa ideia ajudou-me a relacionar-me com essa experiência aparentemente difícil de nos identificarmos com ela. E quando Rupert [Sanders, o realizador] e eu começámos a falar sobre isso - e que difícil que é para qualquer pessoa -, então tornou-se real. Tudo começou a tornar-se real, especialmente quando combinado com as referências visuais explosivas de Rupert.

Presumivelmente, as memórias originais dela começam a surgir à medida que o filme se desenvolve?

Isso faz parte da sua jornada de autodescoberta. Ela tem aquelas falhas, e eu acho que Rupert fez um trabalho realmente maravilhoso ao interpretá-las, e em vez de as enterrar e suprimir, ela fica curiosa sobre elas. Ela começa neste caminho de perseguir a sua curiosidade e é isso que essencialmente abre a caixa de Pandora para quem ela realmente era.

Mencionou a forte visão que Rupert tinha para o filme. Quer desenvolver esse aspeto?

Imaginamos o futuro como aquele lugar distópico e muitas vezes vemo-lo como muito assético e sem identidade e, outras vezes, vemo-lo como um futuro pós--apocalíptico. Rupert realmente adorava essa ideia e o que lhe parecia mais realista era um futuro onde não existe espaço. Estamos constantemente a competir com nós próprios por espaço, por isso operamos numa cidade que está construída quase em cima de outra cidade. E está cheia de culturas que foram apropriadas por outras culturas. Há renovações que são aleatórias e é um futuro muito mais colorido do que o estamos acostumados a ver. É uma cidade que nunca se viu antes; ela tem uma estética quase de Blade Runner, como se essa estética tivesse realmente continuidade e tivesse sido atualizada. Eu fiquei fascinada com isso porque tinha presumido que este futuro seria frio e digital, mas não é assim. Quando vemos o filme, é realmente caloroso e convidativo. É único, e essa visão é um verdadeiro dom que Rupert tem.

Gostou de prestar homenagem ao filme de anime? Tem várias cenas que refletem as do filme de 1995...

Sim, às vezes, se passava pela zona do monitor do realizador e via algumas referências cruzadas, mas isso aconteceu apenas com aquelas cenas muito específicas a que Rupert queria prestar homenagem, o mergulho inicial ou a luta na água. Algumas das cenas são retiradas diretamente do anime, porque são extremamente icónicas e emocionantes. Foi emocionante para nós recriá-las e também vai ser muito emocionante para o público vê-las. Mas não é como se estivéssemos continuamente a retirar as coisas diretamente das páginas da manga. O filme faz uma homenagem saudável ao original, mas tem a sua própria entidade fora daquele.

O seu desempenho da personagem muda quando Major começa a saber mais sobre quem é realmente?

Sim. Quando Major fica mais em contacto com quem ela era, talvez se humanize um pouco. Podemos querer ver alguma evolução também, mas no fim do filme ainda queremos ver Major como a conhecemos. Queremos ver a Major de quem, espero, viemos a gostar. É complicado. Era uma coisa que estava a mudar de dia para dia nas filmagens e que crescia ao mesmo tempo que a íamos definindo. Essa é a parte divertida do trabalho. Isso é o que me mantém verdadeiramente animada, poder fazer essas escolhas todos os dias.

Já tem muita experiência de desempenhar papéis de ação, mas este filme exigiu mais de si do que já tinha sido exigido anteriormente?

Tive sorte por já ter tido muito treino de luta e de armas, assim já tinha uma base para tudo isso. Realmente faz uma enorme diferença. Há uma década que tenho vindo a fazer filmes de género e filmes de ação, o que é uma loucura, apesar de ter feito algum treino de AMM (artes marciais mistas) e aprimorado as minhas capacidades, porque é incrível a velocidade com que estas se perdem. Fiz também muito treino tático que nunca tinha feito antes. Foi sempre uma coisa a que eu tive alguma aversão porque me deixa nervosa. Treino tático inclui coisas do género de combate em ambientes confinados. Aprender a trabalhar em equipa, tudo isso. Eu empenhei-me nisso. Era uma capacidade que eu evitava.

Gosta de trabalhar com armas?

Há algumas coisas de que gosto mais do que outras. Eu não me importo de treinar com armas. Na verdade, sou bastante boa com uma arma de fogo. Surpreendentemente, manejo uma arma muito bem, sou melhor nisso do que noutras coisas. A luta real não me vem de forma totalmente natural. Sou mais do tipo atlético, não sou uma lutadora por natureza. Faço muita luta e, inevitavelmente, isso dói e podemos magoar a outra pessoa. Fico nervosa com isso e quero que pareça elegante e fantástico e empenho-me imenso. Quero que o realizador possa usar o meu desempenho o máximo possível. É uma adaptação. É uma parte interessante do trabalho. A coreografia está bem, mas eu realmente não gosto de trabalhar com a técnica da suspensão por cabos. É tudo na base do compromisso.

Envolveu-se no trabalho da WETA na construção do fato?

Basicamente, eu apareci e vesti-o. Foi muito fácil. Estou certa de que eles trabalharam sem parar para o montar. Fiz uma prova em Nova Iorque. Fiz um scanner do meu corpo, a pedido deles, seis ou sete meses antes de entrarmos em produção física. Eles estiveram a construí-lo durante todo esse tempo, o que realmente funcionou a meu favor, porque no momento em que lá cheguei, o fato estava praticamente terminado. Eu não sabia como ia ser, mas não era muito diferente de usar qualquer outro superfato que eu já tive de usar.

Falou em proteção. Às vezes magoa-se quando faz cenas de luta?

Sim. Isso é algo que acontece quando se está a lutar com alguém. Entramos em contacto físico com a pessoa. Obviamente, a segurança é vital e tentamos ser o mais cuidadosos possível, mas para vender realmente algo é importante que as coisas sejam feitas com tanta convicção quanto possível. Quando se está a atuar com muita convicção e a movimentar-se com muita convicção, muitas vezes é-se apanhado. É normal.

O filme parece incrivelmente oportuno, não apenas com a ascensão do terrorismo cibernético, mas também com a desconexão que tantas pessoas sentem na era digital...

Eu acho que é oportuno, mesmo quando se olha para o anime original. Foi há mais de 20 anos, mas foi tão progressista. Mais do que tudo, previu essa desconexão que é um subproduto da era digital. O terrorismo cibernético também é uma ameaça. Mas é esse anseio, esse desejo de nos conectarmos uns com os outros numa época em que estamos excessivamente conectados. Aparentemente estamos tão conectados uns com os outros - nunca foi tão fácil essa conexão - e, no entanto, temos esse sentimento de vazio e insatisfação. Então, sim, o filme parece muito oportuno.

O que acha sobre Ghost in the Shell evoluir para um potencial franchise?

É assustador porque não é totalmente óbvio o que o próximo capítulo vai ser para esta personagem. Também é fisicamente assustador. Este filme foi extremamente esgotante, física, emocional e profissionalmente. Exigia uma quantidade imensa de disciplina e de pensamento. Foi muito, muito difícil para mim, por isso é assustador. Mas, claro, a ideia de que este filme de género feminino possa continuar para uma sequela, de que possa ter o sucesso suficiente para exigir uma sequela, é muito excitante. Seria uma verdadeira vitória em muitos aspetos. Estou preparada para o desafio. Já sou uma mulher adulta. Consigo lidar com isso, acho eu!

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