Scarlett Johansson: de musa de Woody Allen a estrela dos filmes da Marvel

Está a chegar às salas Ghost in the Shell, o filme mais recente de Scarlett Johansson - ela é, afinal, uma herdeira das estrelas clássicas do cinema americano. Oportunidade para recordar a carreira da atriz, uma das mais bem pagas da atualidade

A história, a tradição e a própria moral do espectáculo ensinam-nos que os méritos de uma estrela de cinema não são um reflexo imediato dos números da sua contabilidade pessoal. Seja como for, o mais básico pragmatismo lembra-nos também que a dimensão de uma "star", sobretudo no interior da máquina do cinema americano, não é estranho ao significado de tais números.

Scarlett Johansson, por exemplo: o seu nome surge em terceiro do lugar na lista das atrizes mais bem pagas ao longo do ano de 2016, editada pela revista Forbes, com um rendimento global de 25 milhões de dólares (cerca de 23,2 milhões de euros). Apenas superada por Jennifer Lawrence e Melissa McCarthy (em 1º e 2º, respetivamente), terá recebido 17,5 milhões por um único filme - Ghost in the Shell, adaptação de uma "manga" japonesa que estreia na próxima quinta-feira -,resultando outra importante fatia do seu rendimento de um contrato publicitário com a casa Dolce & Gabbana.

As aventuras mais ou menos fantásticas, inspiradas ou não na BD, tornaram-se mesmo uma marca forte da sua recente filmografia. Vimo-la, por exemplo, no "thriller" futurista Lucy (2014), dirigido pelo francês Luc Besson, ou ainda, desde Homem de Ferro 2 (2010), a assumir a personagem de Natasha Romanoff/Viúva Negra em várias aventuras de super-heróis com chancela da Marvel. Repetirá o papel em Avengers: Infinity War, agendado para 2018.

Ironicamente, nos primeiros tempos da sua carreira, parecia ser um banal fenómeno infantil, mais ou menos ligado à tradição iconográfica dos estúdios Disney. Em 1995, aos 11 anos de idade (nasceu a 22 de novembro de 1984, em Nova Iorque), surgiu, por exemplo, no policial Causa Justa, no papel de filha do casal interpretado por Sean Connery e Kate Capshaw; dois anos mais tarde, integrava o elenco de Sozinho em Casa-3. Foi Robert Redford, na tripla qualidade de produtor, realizador e actor, que lhe ofereceu um primeiro papel consistente em O Encantador de Cavalos (1998), filme nostálgico dos grandes melodramas clássicos.

O ano de 2003 revelar-se-ia decisivo na superação da imagem infantil de Johansson, através de duas obras de sedutoras singularidades: Lost in Translation, de Sofia Coppola (lançado entre nós com o título bizarro O Amor É um Lugar Estranho), e Rapariga com Brinco de Pérola, evocação de uma musa do pintor Johannes Vermeer, com realização do inglês Peter Webber e direção fotográfica do português Eduardo Serra (nomeado para o Óscar de melhor fotografia).

Ambos os filmes valeram-lhe nomeações para os Globos de Ouro da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood. Não ganhou (aliás, nunca ganhou um Globo, não tendo qualquer nomeação para os Óscares). O certo é que o seu estatuto simbólico mudava: deixava os papéis de "eterna" adolescente e entrava nas convulsões da idade adulta. O encontro com Woody Allen faria o resto: Match Point (2005), Scoop (2006) e Vicky Cristina Barcelona (2008) definem um capítulo especial na trajetória de ambos, a ponto de haver quem tivesse sugerido que o realizador poderia ter encontrado uma nova musa para "ocupar" o lugar que já tinha pertencido a Diane Keaton e Mia Farrow.

As coisas não aconteceram assim, até porque, como o próprio Woody Allen esclareceu numa entrevista dada à MTV, em 2008, a participação de Johansson em Match Point teve algo de acidental (a primeira escolha fora Kate Winslet que, necessitando de um período de repouso, pediu para abandonar o projeto). Woody Allen reconheceu-a de imediato como "encantadora, brilhante e divertida", doando-lhe uma personagem suscetível de transfigurar toda uma carreira - subitamente, Johansson emergia como uma mulher capaz de representar as nuances afetivas e os enigmas sexuais de uma relação adulta.

Memórias de Hitchcock

A partir daí, a imagem "sexy" da atriz passou a ser uma componente da sua identidade no interior da indústria do "entertainment": a Viúva Negra dos filmes da Marvel será mesmo a sua ilustração mais óbvia. E se é verdade que tais composições estão longe de constituir as proezas mais brilhantes da sua carreira, não é menos verdade que foi através delas que Johansson se consolidou como grande trunfo comercial de Hollywood.

Paradoxalmente, o seu papel mais "sexy", ou mais subtilmente erotizado, aconteceu na ausência da imagem. Foi nesse filme visionário que se chama Her - Uma História de Amor (2013), escrito e dirigido por Spike Jonze. Nele se encena a relação de um desencantado escritor, interpretado por Joaquin Phoenix, que povoa a sua solidão através da interação com o seu computador, dotado de um sistema operativo com inteligência artificial. O sistema responde pelo nome de "Samantha" e quem lhe dá voz é Johansson - raras vezes a pulsão amorosa e o desejo sexual foram tratados de modo tão vibrante e também tão "invisível".

Numa calculada gestão de contrastes, a atriz tem sabido combinar os "blockbusters" da Marvel com projetos como o de Jonze, obviamente devedores de um radical espírito de independência. É o caso de Debaixo da Pele, de Jonathan Glazer, assombrado e assombroso drama de ficção científica que surgiu em muitas listas dos melhores filmes de 2013, Salve, César! (2016), retrato cáustico dos bastidores de Hollywood assinado pelos irmãos Coen, ou ainda Rough Cut, comédia negra dirigida pela estreante americana Lucia Aniello, que deverá chegar às salas nos meses de Verão.

O seu curriculum inclui participações importantes na televisão (este ano, por exemplo, apresentou pela quinta vez o programa de humor Saturday Night Live), na área musical (lançou o álbum Anywhere I Lay My Head em 2008) e no teatro (em 2013, na Broadway, protagonizou Gata em Telhado de Zinco Quente).Scarlett Johansson parece ser uma das derradeiras representantes de um modelo de "star", de aparência frágil e admirável energia interior, cujas raízes estão na idade de ouro de Hollywood. Alfred Hitchcock gostaria, por certo, de filmar com ela. Vimo-la, aliás, no filme Hitchcock (2012), de Sacha Gervasi, sobre os bastidores da rodagem de Psico (1960), um dos títulos mais lendários do mestre do suspense - Johansson assumia a figura da atriz Janet Leigh e, mais do que uma interpretação, dir-se-ia uma reencarnação.

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Nuno Artur Silva

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