São precisos cinco milhões de euros para salvar o Palácio Valflores

Palácio fica em Loures e está entre os 14 monumentos mais ameaçados da Europa, lista que até inclui a Lagoa de Veneza

Já pouco mais resta do que algumas paredes e parte dos torreões, mas em tempos foi a casa do feitor de D. João III na Flandres e é um dos raros exemplos da arquitetura residencial, medieval e renascentista em Portugal. Falamos do Palácio Valflores, em Santa Iria da Azóia, Loures, um dos 14 monumentos mais ameaçados na Europa, segundo a associação Europa Nostra. A lista anual da principal organização europeia de defesa do património, ontem divulgada, inclui sítios arqueológicos, edifícios, uma ponte, um aeroporto e até a Lagoa de Veneza.

"Este é um problema que se arrasta há demasiado tempo", reconhece Paulo Piteira, vice-presidente da Câmara Municipal de Loures, referindo-se às cerca de três décadas durante as quais o Palácio das Cabaças ou das Abóboras, como é localmente conhecido, tem vindo a deteriorar-se.

Para o autarca, esta nomeação é um sinal "muito importante, significa que há cada vez mais gente atenta à questão da defesa e valorização do património". Reivindicando para a autarquia o papel de "entidade mais empenhada" na recuperação deste imóvel, Paulo Piteira recorda que desde a sua construção, no século XVI, até ao final do século XX pertenceu a particulares. Ciente do seu valor patrimonial e cultural, nos primeiros anos deste século, a câmara avançou com um plano de recuperação, em parceria com a Valorsul, empresa que trata os resíduos sólidos urbanos de vários municípios, entre os quais Loures, onde instalou a incineradora. E se a câmara concretizou a sua parte - adquirindo o imóvel por cerca de um milhão de euros -, a Valorsul acabou por não financiar a recuperação. Não por vontade da empresa mas porque "foi impedida pelo Ministério do Ambiente", assinala o autarca.

Estrutura metálica suporta paço

Nos últimos anos, o Palácio Valflores, construído numa propriedade rural pelo mercador Jorge de Barros, na tradição do paço régio medieval, "chegou a uma situação assustadora, oferecendo perigo de derrocada", refere o autarca, responsável pelo departamento de cultura de Loures. A tal ponto que foi colocada uma estrutura metálica para o manter de pé, tendo sido envolto numa tela que o protege das intempéries.

Classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1978, "com valor excecional, cujas características deverão ser integralmente preservadas", a câmara tem em curso uma candidatura a fundos comunitários, no valor de meio milhão de euros, para viabilizar uma intervenção que estabilize o imóvel.

O projeto para a total recuperação - com a criação de um centro cultural, uma escola de artes e ofícios e um pequeno museu - deverá custar cerca de cinco milhões de euros, adianta Paulo Piteira. Mas para avançar, a câmara precisa de parceiros, algo que, espera, possa vir a concretizar-se com o alerta agora lançado.

As nomeações para o programa Os 7 mais ameaçados de 2016 foram submetidas por organizações da sociedade civil e entidades públicas de toda a Europa que integram a rede da Europa Nostra e os locais foram selecionados tendo em conta o seu notável valor patrimonial e cultural, bem como a situação de risco, explica a organização, em comunicado. O empenho das comunidades locais em resgatar esses monumentos também foi considerado essencial. Outro critério importante foi o potencial desses sítios para servir como recurso e motor do desenvolvimento sustentável da região onde se localizam.

"Especialistas do Instituto do Banco Europeu de Investimento (BEI) visitarão os sete locais finalistas e contribuirão para a formulação de planos de ação viáveis. A necessidade de reabilitar esses sítios tornar-se-á, assim, mais visível e credível", explica Guy Clausse, do Instituto do BEI, parceiro da iniciativa. Portugal foi contemplado por este programa nas duas anteriores edições, com o Convento de Jesus em Setúbal (2013) e os Carrilhões da Basílica do Convento de Mafra (2014).

Os 14 locais foram pré-selecionados por um painel internacional de especialistas em história, arqueologia, arquitetura, conservação, análise de projetos e finanças. Apesar de este não ser um programa de financiamento, pretende servir como catalisador, sensibilizando as instituições da União Europeia com a ação conjunta de diferentes parceiros públicos e privados.

A lista final dos sete sítios mais ameaçados será divulgada a 16 de março do próximo ano, num evento que decorrerá em Veneza, Itália.

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