São Paulo celebra Mamonas Assassinas em musical

Vinte anos após a morte dos seus membros, banda brasileira é celebrada nos palcos. "Hoje, na era do politicamente correto, eles fariam ainda mais sucesso", diz o encenador

Os espectadores começam por ouvir um apanhado dos seus maiores êxitos, depois veem a cortina a abrir-se e os cinco rapazes, num lugar que lembra o céu, a receber de Deus a missão de contar a sua própria história em formato de musical. O Musical Mamonas, que se estreia no sábado dia 11 em São Paulo em homenagem aos 20 anos da morte dos cinco membros dos Mamonas Assassinas num desastre de avião, segue em tom de comédia irreverente até ao fim. Foi a solução que José Possi Neto, o encenador, encontrou para lidar com o episódio final da meteórica banda brasileira.

"Não foi difícil conciliar o lado humorístico da banda com o lado trágico do acidente de há 20 anos porque focamos no espetáculo o encontro dos cinco membros, a sua origem humilde, a sua luta por conseguir um lugar ao sol, a sua trajetória ainda como Utopia, mais tarde Mamonas Assassinas, e a escalada do sucesso, sempre destacando a irreverência e a alegria deles", disse ao DN o encenador.

Os Mamonas Assassinas, constituídos por ex-estafetas da cidade de Guarulhos, vizinha de São Paulo, foram um fenómeno. Uma mania. Um conto de fadas. Mas breve: de junho de 1995, quando estouraram nas rádios e nos programas de auditório das televisões promovendo o seu único álbum de estúdio, até março de 1996, quando um acidente de avião na serra da Cantareira, no estado de São Paulo, interrompeu a vida dos seus cinco jovens membros às vésperas da primeira viagem internacional - para Portugal.

O estilo - normalmente resumido como "rock cómico" - era na realidade uma improvável mistura de géneros: do vira punk, de Vira, Vira, ao brega psicadélico, de Robocop Gay, os Mamonas Assassinas, alicerçados no talento performático do multifacetado vocalista Dinho e nas bases musicais do guitarrista Bento, ajudados por Júlio Rasec e pelos irmãos Sérgio e Samuel, surpreenderam, chocaram e divertiram em doses iguais o público brasileiro. Cada tema era uma caricatura assumidamente baseada em estereótipos: do modesto imigrante português, do homossexual não assumido, do marido traído, dos pobres, dos ricos, do muçulmano, do caipira (provinciano), de todos os grupos que habitam o Brasil e em particular a diversificada Grande São Paulo.

Estilo debochado

"Se os Mamonas vivessem hoje provavelmente não teriam carreira. Algum membro do Ministério Público careta e autoritário teria proibido suas letras em nome do "respeito" a algum grupo ressentido", ironizou o filósofo Luiz Felipe Pondé, no jornal Folha de S. Paulo. Possi Neto, concordando, discorda: "Fariam mais sucesso hoje. Aliás, farão mais. Porque já ninguém aguenta o patrulhamento ideológico dos politicamente corretos."

O encenador pegou na ideia dos produtores Rose Dalney, Márcio Sam e Túlio Rivadávia e no texto de Walter Daguerre, serviu-se do talento dos jovens atores, alguns deles sósias dos Mamonas originais, e contou numa encenação que lembra o universo da banda desenhada a história do grupo no seu todo, mais do que a da vida pessoal de cada um, para manter o estilo leve e debochado que ficou na memória dos fãs.

Para tal, a cada mudança de cenário os atores brincam com o assunto, num misto de plano e improviso, e no princípio da peça ouvem-se mais temas das bandas que influenciaram os cinco rapazes, como as multinacionais Pink Floyd ou Guns n" Roses e as brasileiras Titãs ou Legião Urbana, do que dos próprios Mamonas Assassinas.

"Depois de 43 anos de carreira a dirigir espetáculos, teatro, óperas, dança, musicais e concertos, este novo trabalho foi mais um a que me dediquei com total paixão pelo tema, pelos jovens e talentosos atores e pelo compromisso com a alegria", diz Possi Neto.

"Esperamos muito sucesso, este show é um dos principais da temporada do teatro, as vendas já estão em ritmo acelerado online porque os Mamonas foram de facto um fenómeno", acrescentou ao DN Fábio Senna, administrador do Teatro Raul Cortez, que exibe o musical.

Além dos palcos, os Mamonas também vão ser as estrelas de uma série da TV Record, em parceria com a Fox e a Endemol, prevista para o segundo semestre, cujo foco será os primórdios da banda e o improvável e súbito sucesso.

Portugal na mira?

No aniversário do falecimento da banda, o jornal desportivo Lance! usou apenas títulos retirados das letras do grupo, enquanto outros jornais, televisões e rádios entrevistaram os familiares dos membros ou fãs que não eram nascidos na data do acidente, e recordaram curiosidades na elaboração das músicas, além de registarem o detalhe sinistro da banda incluir nos agradecimentos do único álbum o pioneiro da aviação brasileira Santos Dumont, "sem o qual a gente ainda "tava indo mixar o disco a pé".

O Musical Mamonas pode, se as vontades assim o decidirem, ser exibido em Portugal, ao contrário da banda que nunca chegou a apresentar-se no país, por causa do acidente às vésperas da viagem. "Os produtores brasileiros e os produtores portugueses é que têm a palavra mas eu ficaria felicíssimo, já excursionei espetáculos em Portugal, fui amorosamente recebido e amo o país", disse José Possi Neto.

São Paulo

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