Sam Mendes despede-se de 007

"007 Spectre", de Sam Mendes

Sam Mendes já anunciou que não voltará a dirigir filmes de James Bond (o anterior, "Skyfall", lançado em 2012, tinha também a sua assinatura). Talvez por isso, encontramos aqui uma invulgar "revisão da matéria dada", feita com especial dedicação e carinho. Desta vez, o agente secreto 007 não é apenas um acumulador de proezas mais ou menos físicas ou eróticas, antes um peão de um tabuleiro imenso em que se joga a sobrevivência da sua própria profissão. Que irá prevalecer? A velha guarda dos agentes como Bond (da série "00", comandados pelo emblemático M., agora assumido por Ralph Fiennes)? Ou uma nova ideologia em que a posse global da informação, descartando a própria noção de nacionalidade, imporá uma lógica de constante manipulação das ânsias colectivas? A parábola civilizacional é actualíssima, sendo tratada num tom de tragédia latente em que as obrigatórias cenas de "acção" surgem organicamente integradas. E como esta pode ser a derradeira composição de Daniel Craig como 007, eis o que reforça o sedutor simbolismo do empreendimento.

Classificação: ****

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Falem do futuro

O euro, o Erasmus, a paz. De cada vez que alguém quer defender a importância da Europa, aparece esta trilogia. Poder atravessar a fronteira sem trocar de moeda, ter a oportunidade de passar seis meses a estudar no estrangeiro (há muito que já não é só na União Europeia) e - para os que ainda se lembram de que houve guerras - a memória de que vivemos o mais longo período sem conflitos no continente europeu. Normalmente dizem isto e esperam que seja suficiente para que a plateia reconheça a maravilha da construção europeia e, caso não esteja já convertida, se renda ao projeto europeu. Se estes argumentos não chegam, conforme o país, invocam os fundos europeus e as autoestradas, a expansão do mercado interno ou a democracia. E pronto, já está.