Salvador Sobral cantou e recebeu as notas certas

O cantor português apurou-se para a final de sábado da Eurovisão. Salvador Sobral foi o único participante a apresentar-se em palco a cantar noutra língua além do inglês

Luzes em profusão, efeitos cénicos e pirotécnicos, dançarinos e guarda-roupa espampanante. É essa a tónica dominante num Festival Eurovisão da Canção - e o momento de Salvador Sobral não podia ser mais contrastante. Apresentou-se no meio do pavilhão do Centro de Exposições de Kiev num pequeno palco circular, só ele, a sua voz e presença para dar a ouvir ao mundo Amar pelos Dois. A interpretação do cantor de 27 anos convenceu júris e telespetadores de outros 20 países participantes (17 dos 18 semifinalistas, Reino Unido, Espanha e Itália) e Portugal estará presente na final, tal como Moldávia, Azerbaijão, Grécia, Suécia, Polónia, Arménia, Austrália, Chipre e Bélgica.

Amar pelos Dois foi composto pela irmã de Salvador, Luísa Sobral, "uma canção lindíssima", que o convenceu a concorrer ao festival, contou o músico português. Ao contrário do que tem sido prática, o tema de abertura não foi o vencedor do ano transato. A organização optou pelo hip-hop do ucraniano Monatik, cujo hit Kruzhyt foi adaptado para inglês (Spinning). A vencedora da última edição, Jamala, apresentou-se mais tarde, durante o período de televoto. Além de Salvador Sobral, foi o único artista que se ouviu na língua materna, ao interpretar uma nova versão de 1944, sobre a deportação em massa dos tártaros da Crimeia no tempo de Estaline.

Salvador Sobral foi o nono artista a subir ao palco. Coube ao representante da Suécia, Robin Bengtsson, iniciar o concurso com uma canção pouco otimista quanto ao seu destino (I Can"t Go On). Contraste com a georgiana Tamara Gachechiladze, que logo de seguida professou a sua fé em Keep the Faith. No entanto, foi o contrário que sucedeu: o sueco foi eleito e a georgiana voltou para casa, se não descrente, pelo menos sem sucesso. Além da excêntrica representação australiana (pela distância geográfica) de Isaiah, captaram a atenção - não necessariamente pelos melhores motivos - a albaniana Lindita vestida de noiva, o montenegrino Slavko Kalezic e o seu rabo-de-cavalo ou os letões Triana Park cuja cantora, Agnese Rakovska, fez lembrar a personagem Harley Quinn de Esquadrão Suicida. Coincidência ou não, não passaram da meia-final.

Um pouco à imagem do Conselho de Segurança das Nações Unidas, há um conjunto de países que são mais iguais do que os outros: Espanha, França, Itália, Alemanha e Reino Unido estão dispensados de passar pelo crivo da eleição das semifinais e têm lugar assegurado na final. A máxima orwelliana aplica-se a estes cinco países porque são os maiores contribuintes da União Europeia de Radiodifusão. O sexto país com representação garantida é o vencedor da edição anterior e anfitrião, como é o caso neste ano, da Ucrânia. Esse regime de exceção não contribuiu em especial para o currículo de Itália, Espanha e Alemanha, que contam com duas vitórias - tantas quanto a Ucrânia, que participa desde 2003.

A segunda semifinal disputa-se na quinta-feira, dois dias antes da final. Rússia e Bósnia e Herzegovina, por motivos diversos, não participam no Festival Eurovisão deste ano. A concorrente russa, Yulia Samoylova, está proibida de entrar na Ucrânia por ter dado um concerto na Crimeia após a anexação por parte de Moscovo. A Rússia rejeitou a possibilidade de a cantora atuar numa transmissão via satélite. Já a Bósnia alegou dificuldades financeiras da televisão pública.

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