"Sabia muito pouco sobre Amadeo antes do filme"

Christophe Fonseca, luso-descendente, realiza o documentário "Amadeo de Souza Cardoso: o último segredo da Arte Moderna", que passa amanhã na RTP, às 21.00, a 8 de maio da televisão francesa e em junho passa de novo no auditório da Fundação Calouste Gulbenkian.

O que conhecia do Amadeo de Souza Cardoso antes de fazer o documentário?

Vou ser sincero: pouca coisa. Nasci em França, ouvi falar de Amadeo mas nunca estudei na escola e nunca tive contacto com ele num museu. É difícil ver a obra dele.

Como nasce este trabalho?

Da Fundação Calouste disseram-nos o ano passado que iam quase de certeza ter uma exposição no Grand Palais e perguntaram se queria fazer. É um desafio muito grande! Apresentámos o projeto à France Telévision. Estivemos muitos meses para eles aceitarem o projeto, porque é difícil investir num filme de alguém que ninguém conhece.

O que os levou finalmente a aceitar?

A minha insistência (risos). Todos os dias ligava! É a história do Amadeo. Primeiramente é a obra, que é deslumbrante e depois é história, que é incrível. É um artista que teve sucesso, um génio, desaparece, e volta.

Qual é o objetivo do documentário?

A ideia principal é que seja nada elitista. Para os especialistas, em todas as imagens há uma referência à obra de Amadeo. Algumas pessoas não veem, mas entendem na mesma. Quando a Helena de Freitas, curadora da exposição e a grande especialista em Amadeo, viu, ficou muito comovida. Era muito importante que seja uma das grandes especialistas a dizer que está bem. Descansou-me. Só faltava o público e ver como reagia. Sempre que o fiz, fiquei sempre com orgulho de Portugal. Ficaram impressionadíssimos com Amadeo e com as paisagens de Portugal.

Já tinha trabalhado temas de Portugal?

É o lema da minha vida. Nascei em França, a minha família já está em França há várias gerações, a primeira geração emigra na Primeira Guerra Mundial, mas tenho uma paixão fulgurante. Trabalho sobre Portugal em todos os meus filmes e quando não é sobre Portugal, há ao menos uma música, e não é fácil fazer isso no estrangeiro. Quando aparecem projetos assim, ver o apoio, ver uma sala de 1200 pessoas, 300 pessoas que tiveram de ser recusadas à porta, à hora do Benfica-Bayern, é arrebatador. Emocionei-me. Até na capital da cultura, Paris, não aconteceria.

À medida que o trabalho ia avançando, achou que as pessoas sabiam mais sobre Amadeo?

O objetivo era dar um ar internacional, precisávamos dos créditos dos grandes especialistas. Foi muito difícil, alguns desconheciam. Tivemos de ser nós a dar informação. Em Chicago eles conheciam, mas mesmo assim não havia grandes em especialistas. Em nova Iorque, não havia e é incrível porque está a acontecer com o Walter Pach [crítico de arte], o mesmo que acontece aqui com o Amadeo. Estão a reavaliar o papel dele no Armory Show [exposição de 1913]. Mas a conclusão é sempre a mesma. Seja quem conhecia a obra ou quem não conhecia, é importante contar a história. Diziam: a história da arte moderna tem de ser reescrita.

O documentário estreia-se amanhã na televisão portuguesa: RTP1, após o Telejornal. Será emitido pelo canal francês France 5 no dia 8 de maio e voltará a ser mostrado na Gulbenkian em junho.

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