Rui Baeta canta ópera sobre "O Corvo" de Poe

Pela primeira vez, e à 28.ª edição, a Temporada Música em São Roque integra ópera na sua programação. Será amanhã à tarde (às 16.30), no Mosteiro de Santos-o-Novo, com "O Corvo", de Luís Soldado, "ópera de câmara para barítono, bailarina e ensemble de 4 elementos", que tem por libreto o famoso poema de Edgar Allan Poe, na tradução de Fernando Pessoa

No princípio, num absoluto silêncio, há um homem tentando desfazer-se de um corpo: "é a encenação da necessidade do protagonista de se libertar daquela memória, daquela mulher", explica-nos Alexandre Lyra Leite, diretor da Inestética-Companhia Teatral, ideólogo do projeto e encenador desta produção, que já passou por Vila Franca e Montemor-o-Novo e chega amanhã a Lisboa, ali bem perto de Santa Apolónia.

O Corvo, publicado em 1845, é uma das criações máximas de Edgar Allan Poe e exemplo do Romantismo tétrico e mórbido. "Tenho desde sempre um fascínio por Poe, presença recorrente no meu trabalho, e por este poema em particular, que conheço desde a adolescência, pois tem um lado fantasmático que liga muito com o meu percurso criativo", conta Alexandre. "Pensei logo no Luís Soldado para compôr e no Rui Baeta [barítono] para cantar".

"É um texto dificílimo, porque é muito hipnótico e com muitas repetições!", confessa Rui Baeta. Por seu turno, Luís Soldado, fala de "o maior desafio e o maior receio" a respeito da musicalidade interna do poema - "como vou mexer naquilo?", lembra-se de se ter perguntado. Desafio avolumado porque "nunca tinha escrito um monodrama [ópera com um só personagem] e este tem quase uma hora de duração, o que é raro em monodramas!"

Vetor importante foi a inteligibilidade do texto: "quis que o texto passasse o mais claro possível para o público", refere Luís, nisso indo ao encontro de algo enunciado por Alexandre: "confrontar o público com algo a que não está habituado: ouvir ópera em português, anulando a distância da língua". Já Rui fala de "um ritmo musical genericamente lento, que permite perceber como o texto é "encorpado" e habitado".

Para isso concorrem ainda, diz, "os vários registos que me são pedidos: há o falado, o estilo recitativo e há o cantado, que é 95% dos casos e que alcança mesmo, por vezes, um lirismo pós-verista".
Para o compositor, "a ópera é sempre uma tensão entre o texto e a música - e a música tem que ganhar!" Para O Corvo, Luís refere que Alexandre lhe pediu "um ambiente que fosse um misto de Harry Potter e Tim Burton". Antes de se lançar na escrita, acrescenta, "fiz pesquisa de bandas sonoras de filmes de terror atuais, para ver o que se está a fazer". Esse universo deixou algo: "o que compus quase podia ser música para filme, se não fosse a voz lírica".

Em termos musicais, "há um crescendo contínuo até um clímax já perto do final, após o que há uma rápida resolução". Para ele, esse crescendo reflete "o acumular de tensão dentro da própria personagem, cada vez mais angustiado e atormentado, num clima cada vez mais opressivo".
O clímax, diz Alexandre, "é o momento de maior desvario e descompensação do protagonista". Já a resolução lê-a como "o entendimento de que é inútil [tentar esquecer a falecida amada] e a aceitação do seu destino".

Atenção especial mereceu a expressão recorrente ao longo do poema: "Nunca mais!" - "É cantado com variações de intenção, mas a ideia é que comece gradualmente a incomodar, tornando-se mais assertivo e definitivo, pois desde a primeira vez quer dizer a mesma coisa: "Tu não tens salvação!"", interpreta Rui. Já Luís assume com humor: "Não resisti à "tentação" de associar um Leitmotiv [motivo condutor] a essas palavras". Por sua vez, Alexandre explicita a solução cénica: "A personagem está presa num espaço que é uma cama-campa de folhas secas, mas que é um espaço interno, interior. É uma ilha, uma tumba de que ele não consegue escapar. No final, ele percebe que está condenado a viver com a presença daquele corvo - que mais não é senão a "versão negra" da sua amada que regressa para o atormentar - até ao (seu) fim."


A restante programação
O Música em São Roque prossegue até 20 de novembro, às sextas (21.00) e domingos (16.30), com exceção do recital do pianista António Rosado (dia 7, 19.00). Igreja de São Roque, Convento de São Pedro de Alcântara e Mosteiro de Santos-o-Novo são os três espaços que recebem concertos.
Dentre o que aí vem, refiramos o recital dos Sete Lágrimas com o programa Diáspora (dia 30); a estreia moderna, pela Orquestra de Câmara de Sintra, da oratória Il Trionfo di Davidde, obra de 1785 de Bráz Francisco de Lima (dia 4), as Vésperas marianas de João Lourenço Rebelo, o compositor de D. João IV (dia 11), pelos grupos Capella Joanina & Flores de Mvsica; um programa luso-brasileiro pelo Americantiga Ensemble, dedicado a D. Maria I (dia 13) e, no último dia, o Requiem de Fauré, pela Orquestra Metropolitana e Coro da UNL. Demais informações no site da Santa Casa.


O Corvo
ópera de câmara para barítono (Rui Baeta), bailarina (Yara Cléo) e ensemble (acordeão, clarinete, violoncelo e eletrónica em tempo real)
autor: Luís Soldado
texto: poema 'O Corvo', de Edgar Allan Poe
encenação: Alexandre Lyra Leite
local: Mosteiro de Santos-o-Novo
data: domingo, 23 de outubro, 16.30

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

Premium

Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

Premium

Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.