Robert Kopp: "Baudelaire acreditava no poder redentor da poesia"

O especialista em Baudelaire Robert Kopp está hoje e na quinta-feira no Centro Cultural de Belém para falar do poeta maldito, viciado em drogas, sifilítico, gastador e em cuja inspiração estão as prostitutas...

Quando se lhe pergunta se a viagem vale a pena, Kopp refere que só por se estar no 150.º aniversário da morte de Baudelaire seria uma boa razão. Quanto aos defeitos apresentados, o crítico de arte concorda que "é verdade que era sifilítico, viciado e maldito, mas não é como se tivesse tomado sobre si os pecados do mundo moderno".

Até que ponto a revolução de Baudelaire ainda se mantém?

A revolução de Baudelaire sente-se até hoje a vários níveis. Primeiro, orientou a poesia moderna num sentido que era impensável antes. Há um período antes e depois de Baudelaire. Abriu caminho para Rimbaud, Verlaine, Mallarmé e, para além destes, a Valéry, Pierre Jean Jouve, Bonnefoy e muitos outros. Lamartine, Victor Hugo e Gautier cantam nos seus versos a natureza, o amor, a perda do ser amado. Pega nos temas que a poesia lírica sempre tratou e coloca-os numa nova forma. Baudelaire escolheu como tema a consciência dilacerada do homem moderno, dividida entre o spleen e o ideal, vulnerável às solicitações do mundo moderno e exposta ao seu utilitarismo e materialismo. Ao testemunhar uma mudança de civilização, perguntou-se qual seria o lugar da arte num mundo que cultuava o progresso.

"Hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère!" Esta é a provocação baudelariana preferida de muitos especialistas. Também é a sua?

Com essa interpelação, Baudelaire quer desafiar o leitor e dizer-lhe que a descida ao inferno da consciência humana, o mergulho no abismo da alma do poeta, representado por As Flores do Mal, não é o retrato de um ser excecional mas o de todos os homens. Talvez prefira outro verso desse grande poema: "É o Diabo que segura os fios que nos movem!"

Não estão a esquecer-se outras vozes quando se afirma que Baudelaire é o primeiro poeta da era moderna?

Não, dizer que é o primeiro dos poetas modernos - qualquer que seja a sua língua, pois a sua influência foi imensa em Inglaterra, na Alemanha, em Espanha, em Portugal e em todos os lugares - não é esquecer Rimbaud, Mallarmé, Verlaine, Apollinaire ou Oscar Wilde.

Como obteve este estatuto se nem era crente no poder redentor da poesia?

Pelo contrário, Baudelaire acreditava precisamente no poder redentor da poesia. Lembre-se do poema "Os Luminares", que celebra a dignidade dos grandes criadores - Da Vinci, Rubens, Rembrandt, Goya, Delacroix - e termina com estes versos: "Haverá, ó deus,/ Melhor testemunho do que esse/ Que te possamos dar da nossa dignidade?/ Esse eco que ouvis morrer/ Na vossa eternidade/ É o soluço ardente/ Que ritma o humano tempo." O poeta tenta redimir-se pela poesia. "Deste-me a tua lama e eu fiz ouro", este outro verso de um projeto de epílogo para As Flores do Mal retrata perfeitamente a ambição de Baudelaire.

Transformar a sua tragédia em obra de arte foi assim tão inovador?

Sim, Baudelaire conseguiu transformar a miséria do homem moderno, a sua fealdade moral, numa obra de arte. Um pouco como Santo Agostinho e Pascal.

Até que ponto a tradução de Edgar Allan Poe transformou a sua linguagem?

Não acho que o inglês de Poe tenha tido grande influência na prosa do próprio Baudelaire. Para os anglo-saxões, Poe é um autor menor. Foi Baudelaire, com a sua brilhante tradução, que o tornou um grande clássico da prosa francesa, pela concisão e precisão de linguagem.

Concorda com chamar-se a Baudelaire um poeta escandaloso ou não passa de marketing da época?

Baudelaire escandalizou muitos dos contemporâneos, se assim não fosse a justiça do II Império não o teria processado por insultar a religião, a moralidade pública e os bons costumes. Escandalizou como Flaubert, que também foi levado à justiça mas absolvido, enquanto seis poemas de Baudelaire foram condenados. Só é reabilitado em 1949.

Apesar da diferença, Les Fleurs du Mal e Le Spleen de Paris serão mais do que um jogo de espelhos para o poeta?

Mostrei na minha edição de Spleen de Paris que Baudelaire queria fazer pequenos poemas em prosa que fizessem pendant com as Flores do Mal. Baudelaire pensou que tinha esgotado as possibilidades da poesia em verso e, talvez, sem o julgamento, não tivesse continuado nessa direção, uma vez que outra via, mais adequada à Paris moderna da transformação de Haussmann, se abria diante dele: uma poesia da banalidade, da vida quotidiana, do evanescente.

Sente vontade de "desmascarar" Baudelaire ou aprecia-o assim?

Não, quero apresentá-lo tal como é: escandaloso, irredutível, provocador, politicamente muito incorreto! Baudelaire não é o académico clássico de O Albatroz, mas um autor que coloca o dedo na ferida: a decadência do homem moderno. Baudelaire está no lado oposto a Rousseau, que acredita - e muitos dos contemporâneos seguem-no, infelizmente! - que o homem nasce bom. O homem é um potencial criminoso. A história dos últimos 150 anos prova-o...

Como é a perceção dos jovens franceses perante a obra de Baudelaire?

É um clássico. É lido no ensino secundário. Mas, evidentemente, as páginas mais violentas não são estudadas...

É autor de Baudelaire: Le Soleil Noir de la Modernité. Surpreendeu-se enquanto investigava o poeta?

Sempre que abro um texto de Baudelaire surpreendo-me. Pela riqueza e beleza dos seus versos e da sua prosa. Podemos ouvir Wagner infinitamente e irá sempre surpreender-nos. É particularidade das obras-primas serem inesgotáveis. Então, no meu livro, queria mostrar que a modernidade de Baudelaire era ambígua, ele era fascinado pelo mundo moderno e odiava-o. Odiava o progresso, a indústria do entretenimento, o romance folhetim, o teatro de boulevard, a mania das viagens, ou seja, tudo o que faz uma pretensa civilização. Apliquemos a lição de Baudelaire ao turismo moderno: "O mundo, monótono e pequeno, hoje,/ Ontem, amanhã, sempre nos faz ver a nossa imagem/ Um oásis de horror num deserto de tédio!"

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