Ricardo Ribeiro lembrou-se de Zeca Afonso em outubro

Pode ser fado ou pode não ser esta Carta Branca do CCB a Ricardo Ribeiro. Um espetáculo de liberdade e "magia" sobe amanhã ao palco do Grande Auditório, com direção musical de Filipe Raposo e seis músicos em palco

Porquê? "Eu tinha outras ideias mas esta foi aquela que prevaleceu sobre todas as outras. Há muito tempo que eu queria cantar a obra do Zeca Afonso, porque é compositor extraordinário e que a mim me seduz imenso e me faz viajar. E porque também só se lembram do Zeca Afonso em abril e eu resolvi lembrar-me em outubro." Ricardo Ribeiro termina a frase com um enorme sorriso. O mesmo sorriso que pontuará esta conversa na zona invisível do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, onde não tardariam a começar os ensaios do espetáculo em que o CCB deu Carta Branca a Ricardo Ribeiro.

O fadista que neste Tributo a José Afonso não será fadista mas também pode ser, porque o fado - diz-nos - é o sangue dele. "Como o fado é a minha linguagem talvez haja uns pequenos traços. Se as pessoas sentirem isso, muito bem, agora que eu faça para isso acontecer, não." Até porque Ricardo Ribeiro leva para o palco instrumentos (e músicos) que não são do fado - como um saxofone, um piano, um contrabaixo, guitarras e percussão. "Exatamente", anui. "Como o Zeca Afonso não era do fado, era da música, era um criador."

Do outro lado da mesa no bar dos artistas senta-se Filipe Raposo. Pianista e compositor, assume a direção musical do projeto que vai juntar seis músicos em palco. "Conheces esta, conheces aquela. Mas olha esta eu quero fazer, e esta. Ai gostas dessa, tens ali aquela, ouve lá isso, ele foi o grande catalisador, porque eu sou um mau juiz em causa própria. Então o Filipe foi uma peça muito importante, para além de ser o diretor musical deste concerto e desta magia musical que vai acontecer. Também escolhemos os músicos em conjunto. Eu já trazia dois que queria muito que participassem, o Jarrod Cagwin, das percussões, e o Ricardo Toscano, do saxofone, e o Filipe chegou e disse então o contrabaixo será o António Quintino e nas guitarras o Mário Delgado", conta Ricardo.

Uma hora depois juntar-se-iam todos na sala de ensaio. Primeiro a voz de Ricardo e o piano de Filipe começam a dar forma a Senhora do Almortão, depois chega Jarrod de malas aviadas - É o percussionista que eu mais amo", diz-nos o anfitrião deste encontro, "é o percussionista do Rabih Abou-Khalil", o alaudista libanês com quem Ricardo também canta. Quando o norte-americano acaba de montar toda a parafernália de ritmos, já Mário aquece as cordas da guitarra. António, mais despachado, retira o enorme contrabaixo do saco e ainda ajuda Jarrod a mover-se com todos os instrumentos formando um círculo que só se fecharia com Ricardo Toscano a aterrar com o seu saxofone - "desculpem o atraso".

É então que as pautas se começam a juntar. Ricardo Ribeiro recusa o protagonismo: "Nós somos um. Eu canto e oiço os músicos. Eu entro dentro dos músicos todos e todos entram dentro de mim. Não gosto da música como ato solitário. Eu gosto de ser acompanhado e de acompanhar. É uma questão de diálogo, somos um. Sendo cantor, eu sou um frontman, faz mais nervoso porque vou cantar palavras, poesia, mas para mim a música funciona como uma unidade", diz, acentuando que há ali espaço para a liberdade. Como em Zeca Afonso. "Eu ouvi o concerto dele, já muitas, muitas vezes, o do Coliseu. É fantástico. Ele é muito livre... é difícil para mim porque ele troca palavras a uma dada altura, não sei se é de propósito, se é ele que se engana, o ritmo também muda. E depois vêm coisas musicais muito interessantes", reflete. Para além dos temas de Zeca, haverá "uma pequena melodia" da autoria do fadista. "O Filipe diz que eu devia tocar porque é bom e eu acreditei nele e vamos tocar. Chamei-lhe Glória a José Afonso."

Ao contrário de Filipe, que começou a ouvir Zeca Afonso em casa dos pais aos sábados de manhã porque a vizinha de cima "colocava sempre o mesmo disco do Zeca a altos berros", Ricardo não se lembra quando começou a escutá-lo. "Apareceu o Vejam Bem ou o Venham Mais Cinco ou Os Índios da Meia Praia, e sempre gostei muito. E disse sempre, um dia hei de cantar Zeca Afonso, porque não? É uma necessidade, porque a música é uma necessidade para todos os músicos que vivam dela. E eu tinha esta necessidade e lembrei-me: vou cantar Zeca Afonso."

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