Retrato de D. João V será mostrado em janeiro após restauro

Quadro, comprado por 100 mil euros, teve vida "acidentada" e "restauros pouco peritos"

"É mais um dos ícones que obriga a passar pelo museu porque documenta um episódio histórico de grande relevância", resume António Filipe Pimentel sobre o Retrato de D. João V e a Batalha do Cabo Matapão, de 1717, de Giorgio Domenico Duprà, que desde esta quarta-feira faz parte do acervo do Museu Nacional de Arte Antiga. Comprado por 100 mil euros, com dinheiro angariado na campanha "Vamos pôr o Sequeira no Lugar", o quadro vai agora ser restaurado e será mostrado em janeiro de 2017, com a explicação do restauro.

"Quando os museus compram as obras para enriquecimento do seu acervo não vão a um catálogo como o do IKEA escolher o que querem. Estamos dependentes das disponibilidades do mercado. Por feliz coincidência, a campanha do Sequeira estimulou a disponibilização desta pintura o que foi ótimo. Seria uma pintura que, se aparecesse no mercado nós quereríamos comprar de imediato, e o mercado veio ter connosco", refere o diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).

Isto porque, tomando conhecimento da campanha de crowdfunding "Vamos pôr o Sequeira no lugar certo", os netos do antigo embaixador brasileiro em Haia, atuais proprietários da obra, propuseram a compra ao Museu. "Estávamos em plena campanha do Sequeira. Na altura disse que estávamos interessados mas no momento estávamos focados na Adoração dos Magos de Domingos Sequeira". A porta ficou aberta e, quando terminou a campanha, foi um dos netos que, sabendo que a campanha angariara mais do que os 600 mil euros necessários para a compra do quadro do pintor português, voltou a entrar em contacto com o museu.

"Tendo nós movido os céus e a terra quase com uma investigação de Perry Mason para conseguir localizar uma pintura da qual se conhecia apenas uma fotografia a preto e branco tirada na embaixada do Brasil em Haia, e que fora revelada numa obra de 1962 [do historiador Armindo Ayres de Carvalho], foi uma feliz coincidência porque o mercado nos trouxe uma pintura que nós em teoria ambicionaríamos mas nunca se tinha colocado a questão", diz António Filipe Pimentel.

"Nós já estávamos muito contentes por termos localizado a pintura e por os proprietários a terem emprestado para a exposição [Encomenda Prodigiosa], não imaginámos que a pintura pudesse vir a ingressar tão rapidamente no museu", conta, visivelmente contente com esta aquisição.

Tudo começou em 2012 quando Pimentel, como comissário da exposição A Encomenda Prodigiosa. Da Patriarcal à Capela Real de São João Baptista, tentou localizar o quadro. Com a ajuda do Ministério dos Negócios Estrangeiros, nomeadamente do embaixador José de Bouza Serrano, "fizemos a ponte com a embaixada do Brasil em Haia, onde a pintura não estava nem nunca tinham ouvido falar nela. Por sorte, a embaixada tinha mudado de sede poucos anos após 1962, e do inventário dos bens da nova embaixada não constava o retrato. Aí surgiu a ideia: se calhar era propriedade do embaixador anterior que entretanto cessara funções".

Localizados e contactados os herdeiros do embaixador, "por milagre a obra ainda pertencia à família" e acabou mesmo por ser mostrada em Portugal pela primeira vez, na exposição que o MNAA inaugurou a 18 de maio de 2013, tendo justamente constituído a capa do respetivo catálogo.

Comprada pelo embaixador brasileiro num antiquário londrino no período pós Segunda Guerra, era atribuída a um outro pintor e pensava-se que retratava um rei inglês. Foi apenas em 1962 que o historiador Armindo Ayres de Carvalho (na obra D. João V e a arte do seu tempo: Arquitectos de el-rei D. Pedro II e D. João V), identificou a obra como sendo o Retrato de D. João V e a Batalha do Cabo Matapão, de 1717, do pintor Giorgio Domenico Duprà, um importante retratista do seu tempo, que não estava ainda representado na coleção do MNAA.

Como terá ido parar ao antiquário inglês é uma incógnita. "Imaginamos que a pintura terá partido para o Brasil com a Corte Portuguesa em 1808, e que depois, na posse dos descendentes da família imperial, após a implantação da República do Brasil exilados em França, terá reentrado no mercado europeu. Colocamos esta hipótese porque há um outro desenho de Duprà, agora no Paço Ducal de Vila Viçosa, oferecido pelo Rei Humberto II de Itália, que o comprou em Genève, a conselho de Ayres de Carvalho", avança o diretor do museu.

Quanto à encomenda da própria obra, "pomos a hipótese que o quadro tenha sido encomendado com o objetivo de ser reproduzido e disseminado pelas cortes europeias como manifestação de propaganda portuguesa, de poderio naval e político, mostrando a imagem triunfante do rei magnânimo e magnífico, com a sua couraça militar".

Isto porque o quadro "documenta um episódio histórico de grande relevância, a Batalha do Cabo Matapão". "Hoje pouco falado mas na altura teve uma importância política enorme. Foi a grande batalha naval do período de D. João V, uma operação militar de grande sucesso e que travou a invasão da Europa pela Armada turca. O Império Otomano estava a avançar sobre a Itália. Foi uma operação militar que foi essencialmente uma operação política de reforço da presença portuguesa no mundo. É a partir da batalha do Cabo Matapão que se fecham inexoravelmente a favor de Portugal as negociações para a criação do Patriarcado de Lisboa. Foi um grande instrumento político. Daí que, como a exposição Encomenda Prodigiosa foi sobre a Patriacal e a capela de São João Baptista, este quadro tinha de estar presente, por isso nos empenhámos", recorda Pimentel.

O diretor do museu destaca ainda a importância do quadro na obra de Durpà: "É uma excelente pintura de Duprà e absolutamente original pela paisagem marinha que apresenta porque os retratos de Duprà são quase sempre em cenário fechados, por vezes até com um fundo neutro".

O restauro vai ser algo complexo. A equipa de conservadores do museu já fez os estudos e levantamentos preliminares. E uma coisa é certa: "Este quadro teve uma vida acidentada, teve intervenções de restauro que não foram propriamente muito peritas e que também estão envelhecidas, o que torna o restauro mais complexo, mas sem nada de transcendente", diz confiante.

O trabalho deverá estar terminado até ao final do ano e "iremos depois apresentar o quadro, uma vez restaurado, em janeiro, no local da obra convidada, com a explicação do restauro e só depois seguirá para o lugar certo, para o piso 3".

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