Rentrée literária portuguesa desilude no romance

A rentrée literária deste ano é tão fraca que fica difícil encontrar uma dúzia de novos romances de autores nacionais para se ler até ao final do ano. Salva-se o ensaio e a investigação.

A não ser o regresso habitual de António Lobo Antunes à ficção, o panorama está trágico e nem se conseguiu encontrar um "rival" para este escritor nas novidades que estão a começar a ser editadas. Salva-se o ensaio e a investigação, área onde a edição nacional pode ser comparada à de outros países europeus, tanto em qualidade como em qualidade. Nada que impeça as editoras portuguesas de lançarem neste regresso das férias muitas centenas de títulos e mais de cinco milhares até ao Natal.

A rentrée literária portuguesa é o primeiro olhar para as grandes novidades que vão chegar às livrarias a pensar no Natal, o momento alto para os portugueses comprarem livros. No entanto, entre os vários géneros editados, é notória a ausência de abundância de títulos na área dos grandes romances e o melhor desta metade do ano encontra-se nos ensaios e na investigação. Aliás, será devido à crise do romance que a não-ficção tem crescido cada vez mais entre as preferências dos leitores e como aposta das editoras.

Se há um ensaio a destacar, ele será a nova investigação do neurocientista António Damásio, que desde O Erro de Descartes tem publicado a cada década um volume com eco mundial. Desta vez intitula-se A Estranha Ordem das Coisas e tem lançamento previsto para novembro, sendo que sai em Portugal antes da edição em língua inglesa. A grande temática da obra é uma análise à vida, ao sentimento e às culturas humanas. Ou seja, explica a editora, questiona sobre o que levou os seres humanos a criar culturas, com um manancial de práticas e instrumentos, onde se incluem a arte, os sistemas morais e a justiça, a governação, a economia política, a tecnologia e a ciência. A resposta de Damásio difere da habitual dos seus pares para afirmar que a inteligência e a faculdade da linguagem não são as únicas razões para a criação da cultura.

Se as mais de 300 páginas do ensaio de Damásio irão provocar bastante polémica, o mesmo não irá deixar de se verificar com um outro ensaio: Tempo de Raiva. O autor, Pankaj Mishra, tem recebido grandes aplausos e severas críticas por parte dos especialistas devido a relacionar a violência da sociedade contemporânea com iguais acontecimentos do século XIX. Daí a "raiva" que anda pelo mundo, que explica metodicamente neste volume. A Invenção da Ciência, de David Wootton completa o trio com uma nova história sobre como a revolução intelectual e cultural moldou a ciência moderna.

Outro ensaio fundamental é O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas, de José Tolentino Mendonça, que irá proporcionar tanto questionamentos como respostas sobre assuntos que o autor bem domina, seja ao nível da poesia, da teologia e da filosofia, num conjunto de textos que surpreenderá leitores. É também o caso dos ensaios sobre Educação de António M. Feijó e Miguel Tamen, A Universidade como deve ser, e de O Ensino Superior em Portugal, de João Queiró.

O mesmo se poderá dizer do florescimento dos volumes sobre História - que têm surgido em muito maior número do que há uns anos - e que a ausência de abundância de grandes romances também não ofusca. Entre as grandes investigações - mesmo que uma seja romance não-ficção - que regressam nesta rentrée está o de Irene Flunser Pimentel, intitulado O Caso da PIDE/DGS - Foram julgados os principais agentes da ditadura portuguesa? A historiadora levanta quatro décadas depois uma pergunta que tem sido constantemente escamoteada desde a Revolução de Abril e dá uma resposta exaustiva e documentada. No mesmo âmbito de uma explicação da História por encontrar surge o romance de Javier Cercas, O Monarca das Sombras. O autor reúne no seu melhor estilo de ficcionista de não-ficção as grandes interrogações sobre um episódio passado no "lado errado da História", o de um jovem que esteve envolvido na Guerra Civil Espanhola. Curiosamente, o protagonista é tio-avô de Cercas e o que vai oferecer ao leitor é a dificuldade em lutar contra o peso do passado.

Também sobre a guerra, neste caso a colonial, assinale-se o regresso à edição do historiador Valentim Alexandre com Contra o Vento - Portugal, o Império e a Maré Anticolonial (1945-1960), um volume importante para se debater o colonialismo e a "nossa" descolonização. Ou sobre o Portugal mais recente, as memórias de José Cutileiro Abril e Outras Transições, onde radiografa o país na primeira pessoa.

Fora do cenário da Península Ibérica, temos o regresso da Nobel Svetlana Alexievich com Últimas Testemunhas, uma gigantesca recuperação de testemunhos sobre a II Guerra Mundial. Focado na visão das crianças que viveram a "Guerra Patriótica da União Soviética contra a Alemanha Nazi". Outro genocídio vai ter nova aproximação em Holocausto: Uma Nova História, de Laurence Rees, com um passado de 25 anos a entrevistar sobreviventes e responsáveis da tragédia.

Em ano de centenário da Revolução Russa, registe-se a recuperação de Viagem à União Soviética, de Urbano Tavares Rodrigues. Datado de 1973, recupera um travelling da União Soviética entre Moscovo e Leninegrado, da Sibéria Oriental e à Ásia Central. A União Soviética mantém-se como tema no filósofo Slavoj Zizek em Lenine 2017 e a Rússia czarista pré 1917 como tema de Simon Sebag Montefiore em Os Romanov - 1603-1918.

Ficção

Além do lançamento do clássico anual de António Lobo Antunes, Até que as Pedras se Tornem mais Leves que a Água, as novidades na ficção portuguesa serão quase inexistentes nesta rentrée. Ou seja, estamos perante o panorama mais desolador da ficção nacional inédita dos últimos anos, sendo impossível encontrar um "rival" português para Lobo Antunes...

A não ser o lançamento do inédito de Agustina Bessa-Luís, Deuses de Barro, ou das várias reedições prefaciadas - Vale Abraão, Os Meninos de Ouro, O Mosteiro, O Manto, As Pessoas Felizes e Fanny Owen -, o destaque poderá ir para Um Bailarino na Batalha, de Hélia Correia. Poderá, porque este é um título prometido pela escritora desde o ano passado e nunca há certezas.

Nada foi anunciado pelas editoras nacionais quanto à ficção portuguesa, daí que seja a internacional que vai oferecer boas leituras aos portugueses. A exceção entre os autores da nova geração poderia ser José Luís Peixoto, com O Caminho Imperfeito, mas o seu novo livro é um regresso à não-ficção e às viagens; tal como o novo Gonçalo M. Tavares, Breves Notas sobre Literatura - Bloom. Aguarda-se, ainda em língua portuguesa, a confirmação do último volume da trilogia sobre Gungunhana, de Mia Couto. Restam, a nível nacional, duas narrativas, o primeiro romance de Carla Pais, Mea Culpa, e Os Corpos de Rodrigo Magalhães. Bem como o regresso ao romance de Sandro William Junqueira com Quando as Girafas Baixam o Pescoço.

O mesmo não acontece em relação à ficção traduzida, sendo vários e bons os novos livros que estão para chegar. É o caso de Colson Whitehead com o seu A Estrada Subterrânea, um romance sobre a escravatura nos Estados Unidos que está a fazer furor no mundo inteiro. Muito premiado, faz de um tema gasto um romance revolucionário.

É também o caso do mais recente de Haruki Murakami, uma coletânea de contos, sempre com milhares de fãs no nosso país. De Karl Owe Knausgard surgem dois títulos: A Minha Luta 5 e Na Primavera. Três autores repetem: o norte-americano Paul Beatty com A Dança do Rapaz Branco; o galês Cynan Jones com A Baía e a espanhola Marina Perezagua com uma antologia de contos baseado em dois livros, Criaturas Abisales e Leche. De Espanha virá o novo de Rosa Montero; do Japão a tradução de Morte pela Água de Kenzaburo Oe, e de França Escutai as Nossas Derrotas de Laurent Gaudé.

Thriller

O ringue do romance policial, de espionagem e de aventura é grande o suficiente para lá caberem dúzias de livros. Convém trazerem na capa uma frase a dizer "Bestseller do New York Times" ou coisa do género, mas se isso não acontecer o nome de alguns desses autores é bastante suficiente para animar os fãs. É o que se passa com Dan Brown, o autor que continua a suscitar muita curiosidade cada vez que lança um novo livro desde que se tornou mundialmente famoso com O Código Da Vinci, com a agravante de já ter confirmado que, pela primeira vez, vem a Lisboa promover o novo thriller. Origem só sai dia 4 mas já está nas tabelas de vendas portuguesas devido às muitas pré-encomendas. O novo romance é descrito como "espantosamente inventivo" e continua a ter como protagonista o professor Robert Langdon - e uma nova companhia feminina - numa peregrinação pelo conhecimento de símbolos enigmáticos em várias cidades espanholas - Mosteiro de Montserrat, a Casa Milà, A Sagrada Família, Museu Guggenheim, Palácio Real de Madrid e a Catedral de Sevilha -, país em que Dan Brown morou enquanto jovem.

Ora se Dan Brown vai chamar a atenção dos leitores, certo é que José Rodrigues dos Santos não se deixará ficar atrás. Dificilmente se erra ao fazer a previsão de que os top"s de novembro e dezembro vão ter Dan Brown e Rodrigues dos Santos nos primeiros três lugares. Três? Sim, pois o autor português vai lançar dois livros até outubro: o terceiro volume da Trilogia do Lótus, intitulado No Reino do Meio e uma nova aventura do criptologista Tomás Noronha. Uma coisa é certa, o tema da investigação de Noronha vai ser tão polémico - e oportuno - como alguns dos livros deste protagonista.

Sendo estes géneros de livros tão ao gosto português, as editoras não se esquecem de os incorporar nas suas novidades, seja com nomes mais ou menos conhecidos e de nacionalidades "exóticas" como a de países nórdicos. Entre a lista pode-se destacar As Sobreviventes, pelo sueco Håkan Nesser; A Próxima Vítima de Ragnar Jónasson; M.J. Arlidge com Mal Me Quer; C. L. Taylor com Em Fuga, e a americana Riley Sager com Vidas Finais. Não faltarão regressos de autores como Chris Carter e Tom Fox, nem os novos da Coleção Vampiro: O Impostor, de E. Phillis Oppenheim; A Chave de Cristal, de Dashiell Hammett e O Crime do Escaravelho, de S.S. Van Dine.

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Henrique Burnay

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O euro, o Erasmus, a paz. De cada vez que alguém quer defender a importância da Europa, aparece esta trilogia. Poder atravessar a fronteira sem trocar de moeda, ter a oportunidade de passar seis meses a estudar no estrangeiro (há muito que já não é só na União Europeia) e - para os que ainda se lembram de que houve guerras - a memória de que vivemos o mais longo período sem conflitos no continente europeu. Normalmente dizem isto e esperam que seja suficiente para que a plateia reconheça a maravilha da construção europeia e, caso não esteja já convertida, se renda ao projeto europeu. Se estes argumentos não chegam, conforme o país, invocam os fundos europeus e as autoestradas, a expansão do mercado interno ou a democracia. E pronto, já está.