Realismo social com a Troika em pano de fundo

"São Jorge", Marco Martins

As legendas inicial e final de São Jorge dão-nos um contexto histórico: o período da Troika em Portugal, com quase toda a gente a ser direta ou indiretamente atingida pelos ditames da austeridade.

A personagem central, um pugilista (Nuno Lopes) à deriva num mundo de pobreza e degradação social, seria um símbolo direto das tensões desse contexto. O certo é que o filme parece mais apostado em reduzir essa personagem a uma cópia dos tiques de um certo tipo de anti-herói de thrillers americanos do que em ilustrar, ou refletir sobre, as informações contidas nas legendas.

Obsessivo no detalhe até à facilidade maneirista, com uma evidente competência técnica de execução, o filme reflete as virtudes e limites de um realismo social que, em boa verdade, o cinema português sempre teve dificuldade em assumir.

Classificação: **

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.