"Quero destruir todas as imagens redutoras sobre a música clássica"

O maestro venezuelano Gustavo Dudamel, 35 anos, é o que de mais parecido a música clássica tem com uma estrela global e a sua notoriedade supera em muito os limites da arte a que se dedica. Dentro de dias, "The Dude", como é conhecido, dirige o Concerto de Ano Novo de Viena - o maestro mais jovem de sempre a fazê-lo

Dentro de dias, Gustavo Dudamel dirige a Filarmónica de Viena no mítico Musikverein da capital austríaca. Até aqui nada de novo: ele dirigiu aos 26 anos a centenária orquestra pela primeira vez. A diferença é que agora se trata de valsas, polcas e marchas, isto é, as obras de que se faz o mais famoso concerto de Ano Novo do mundo. Que ele dirige agora pela primeira vez - escusado será dizer, será o mais jovem maestro de sempre a fazê-lo.

Como reagiu quando a Filarmónica de Viena o convidou a dirigir o Concerto de Ano Novo 2017?

Bom, confesso que foi: "Uau, já sou assim tão velho!?!?" [risos] Porque sabe como tradicionalmente são maestros com uma grande carreira e consagrados que lá vão... Mas depois, claro, desatei aos saltos, tão feliz e honrado me sentia! É um privilégio enorme, claro.

Como encara o repertório dos concertos de Ano Novo?

Sabe, são obras que parecem muito simples, mas as valsas e polcas de Viena são das coisas mais difíceis de dirigir! Porque estão tão enraízadas na cidade e naquelas pessoas e porque há uma tradição performativa rigorosa e zelosamente preservada pelos músicos, geração após geração. É nessa tradição que terei de me introduzir para captar o espírito justo. Mas o mais importante é gostarmos do que fazemos e divertirmo-nos fazendo-o.

Haverá um "toque-Dudamel"?

Posso dizer que será um concerto cheio de surpresas e com grande variedade de autores. E o coro do Wiener Singverein terá também uma participação. Será, tenho a certeza, um concerto muito intenso, bonito e cheio de energia.

Com uma agenda tão cheia e as funções em Los Angeles, que relação mantém com a Venezuela?

Pode surpreendê-lo, mas na verdade mais de metade do ano, entre concertos que faço lá com várias orquestras e as várias digressões internacionais que faço anualmente com a Simón Bolívar, de que sou titular [em março, levam as nove sinfonias de Beethoven a Barcelona, Hamburgo e Viena]. Mas volta e meia vou à Venezuela! Este ano estive anormalmente ocupado, mesmo para os meus parâmetros [risos], e foi um pouco mais difícil viajar tantas vezes até lá, mas em geral vou quase todos os meses.

Então, mesmo sendo uma figura global, Dudamel continua a ter o seu coração na Venezuela?

Ouça, eu falo com o Maestro Abreu [José António Abreu, fundador do "El Sistema", ou rede venezuelana de orquestras juvenis, na qual Dudamel cresceu e se fez músico] todos os dias. E as pessoas do Sistema e os miúdos das orquestras são a minha família. Não tem a ver com trabalho. Quando tocamos juntos, experimento sensações que não sinto com nenhuma outra orquestra, pois há ali uma conexão mais forte, que implica os nossos corações e os nossos espíritos. E as pessoas apercebem-se disso.

Também por isso, teme pelo futuro do Sistema, tendo em conta a situação na Venezuela?

Estamos muito preocupados, claro, porque nos envolve a todos, mas sabemos que o Sistema é um símbolo de esperança, de oportunidades e uma inspiração para o nosso povo, o que faz dele um modelo que seria bom aprender para tornar as coisas melhores no nosso país. Agora, o Sistema é muito forte: ao longo dos seus 42 anos de existência, atravessou fases difíceis e atravessou as fases difíceis do próprio país - já passou por sete diferentes chefes de governo -, mas saiu de todas sempre revigorado. Pelo nosso lado, temos de acreditar que as crianças que ensinamos são o presente e o futuro do país e compete-nos dar sempre o nosso melhor no trabalho que fazemos.

Mas a crise atual não atingiu uma dimensão inédita?

A Venezuela é um país muito jovem com uma história jovem. É como um adolescente, com as suas crises. Mas amadureceremos!

Face à crise, não haverá a tentação de "sacrificar" o Sistema?

Felizmente, o poder político venezuelano sempre soube preservar o Sistema das instabilidades políticas. Mas é preciso compreender que a Arte é uma necessidade da sociedade e não um luxo. Na Venezuela, o Sistema é um meio para as nossas crianças acederem à beleza. E isto aplica-se em igual medida no resto do mundo: com as crises proliferando, é preciso criar e cuidar dos espaços de beleza que temos!

E uma forma de fazer isso é exportar o "Sistema" mundo fora?

Veja: já está espalhado por todo o mundo, inclusivé na vossa Lisboa - as orquestras Geração, que é um projeto muito belo! Lembro-me de ter estado em Lisboa em 2008 e deparar com um projeto ainda incipiente e agora, da última vez que aí estive, ver já orquestras grandes e miúdos a tocar tão bem! E tem singrado em países ricos e socialmente equilibrados, como a Suécia ou a Áustria. Na Suécia, por exemplo, existe desde 2008 e integra hoje mais de 7 mil crianças. Em Los Angeles, ajudei a criar a YOLA [Youth Orchestra of Los Angeles] em 2007 e dirijo-a com regularidade - aliás, dirigi a YOLA e a LA Phil no meu concerto inaugural como diretor da LAPhil no Hollywood Bowl, perante 18 mil espectadores!

Costuma ser abordado por jovens aspirantes a músicos?

Sim, sim, muitas vezes. Mas mesmo que não fosse, ia eu ter com eles! [risos] Preciso de partilhar o que aprendi. E depois, eu adoro os jovens, interessam-me muito os temas e problemas da educação e, principalmente, o papel que as artes terão na educação no futuro.

Teme que esse papel, e o da música clássica em particular, venha a ser menosprezado?

Há que fazer compreender aos decisores que a Arte nada tem a ver com luxo, mas é antes uma necessidade básica do ser humano e é parte desde sempre da sua humanidade e é determinante para o futuro da humanidade. No caso da música clássica, é preciso destruir a ideia feita de uma arte para poucos, elitista. E os concertos devem comprová-lo e constituir-se como eventos importantes, relevantes.

O seu estatuto de "grande estrela" pode ajudá-lo nessa empresa?

Talvez sim, na medida em que a minha notoriedade possa influenciar o modo como a música clássica é vista no mundo de hoje e faça com que lhe dêem mais atenção. E eu quero muito trabalhar para destruir todas as imagens redutoras que existem sobre a música clássica e que geram círculos viciosos. E os projetos de orquestras de crianças e jovens que eu apoio na Venezuela, nos EUA, na Áustria, na Suécia, etc. são exemplo de como a música clássica é acessível e pode mudar as vidas de tantas pessoas: daqueles jovens, das suas famílias, e das pessoas que os ouvem.

Tem consciência da sua fama e da sua enorme popularidade?

Claro que sim, mas não são coisas que cultivo. Ouça, eu sou uma pessoa muito humilde e levo uma vida muito simples. O que merece atenção, realmente, é a música, o compositor, a orquestra que está diante de nós. E depois, há o meu filho e a sua existência ajuda-me a estar sempre com os pés bem assentes no chão. Seja em Los Angeles ou na Venezuela, ele está sempre comigo.

Essa popularidade traduz-se na assistência aos concertos que dirige em Los Angeles?

Penso que sim, a Orquestra toca constantemente para casas cheias. Há programas que, no final, foram tocados para 15 ou 16 mil pessoas. O meu antecessor, Esa-Pekka Salonen, fez um excelente trabalho e a LA Phil tornou-se entretanto um símbolo vivo da cidade e da sua vitalidade. Há muita gente jovem, há novos públicos e o público que nos ouve é etnica, social e economicamente diferenciado.

Pode adiantar algo das celebrações do centenário da LA Phil em 2018?

Posso dizer que será uma coisa em grande escala, muito bonita e centrada na ligação à cidade. Queremos celebrar a vida musical de Los Angeles ao longo destes 100 anos e afirmar a LA Phil como um símbolo da comunidade, e de todas as comunidades que fazem Los Angeles, criando uma conexão muito forte. A ideia principal passa por criar uma osmose entre a LA Phil e a cidade: tornar claro que a nossa celebração é a celebração de Los Angeles e de todos os habitantes de Los Angeles.

Que papel desempenha a nova música na sua atividade de maestro?

Um papel considerável, na verdade. Eu estou aberto a música de todas as latitudes e repertórios. Nos sete anos que levo em Los Angeles, já diriji mais de 50 obras em estreia, o que dá ideia do meu - do nosso! - compromisso com a nova música. Só na primeira semana, fizémos duas estreias mundiais: de Unsuk Chin [Cheng Concerto] e de John Adams [City Noir]! Compositores americanos, na sua maioria, mas também europeus, da América latina, asiáticos... Eu próprio me envolvo ativamente na política de encomendas de novas obras pela Orquestra. E para o Centenário, há muita coisa a perfilar-se, claro! Nos clássicos da vanguarda, dirijo regularmente obras de Messiaen, Ligeti, Varèse, Berio e Luigi Nono.

Gustavo Dudamel - um breve perfil

Nasceu a 26 de janeiro de 1981, na cidade venezuelana de Barquisimeto

Formação musical adquirida no seio do Sistema Venezuelano de Orquestras Juvenis

Artista exclusivo da Deutsche Grammophon desde 2006

É desde 2012 o diretor musical e artístico da Orquestra Filarmónica de Los Angeles, com um contrato até 2022

Além da Filarmónica de Los Angeles e da Sinfónica Simón Bolívar, Dudamel dirige as principais orquestras do mundo, com mais regularidade as de Berlim, Viena e da Rádio da Baviera. "Equilibra" isso com a dedicação a projetos de educação musical e de inclusão social pela música um pouco por todo o mundo. E ainda consegue fazer ópera com regularidade - "já tenho mais de 20 títulos no meu repertório", disse-nos. Vem com alguma regularidade a Lisboa, que confessa ser "um dos lugares do mundo de que mais gosto!"

Concertos de Ano Novo cá e lá fora

Lisboa, Teatro Nacional de São Carlos

No Chiado, o São Carlos abre as portas no dia 3, pouco antes das 21.00, para receber o público para o seu Concerto de Ano Novo. Ali, Coro do Teatro, Orquestra Sinfónica Portuguesa, o soprano Susana Gaspar, o mezzo Maria Luísa de Freitas e o maestro britânico David Parry irão percorrer um repertório muito variado, que vai de Georges Bizet até ao Gloria de Francis Poulenc, demorando--se ainda pela opereta nas pessoas de Jacques Offenbach (A bela Helena) e Johann Strauss (O Morcego). Mas também lá estará a bela Valsa do Imperador, do mesmo Strauss.

Lisboa, Centro Cultural de Belém

Aqui, o Concerto de Ano Novo é no Dia de Ano Novo: às 17.00, a Orquestra Metropolitana convida para uma celebração musical da chegada de 2017, com aquele que começa ser o "maestro dos Concertos de Ano Novo": o polaco Sebastian Perlowski, a quem apelidam de "mago da boa disposição". Dirige ele um programa "à Viena de Áustria" que não poderia ser mais popular e apelativo em termos da escolha das valsas e polcas. Pelo meio, ouvem-se duas obras de Janusz Bielecki e, a abrir cada parte, duas populares aberturas de ópera: do Guilherme Tell, de Rossini e de Ruslan e Ludmilla, de Glinka.

Lisboa, Fundação Gulbenkian/Igreja de São Roque

Do lado da Gulbenkian, o Concerto de Ano Novo é antes um Concerto de São Silvestre, como já vem sendo habitual nos últimos anos, retomando a tradição da Lisboa setecentista de se fazer cantar um Te Deum na Igreja de São Roque. Às 17.00 de dia 31, no citado templo, os Coro e Orquestra Gulbenkian, sob a direção de Jorge Matta, interpretam o Te Deum barroco de Marc-Antoine Charpentier (famoso por ter sido adotado como hino da Eurovisão) e o Te Deum moderno do estónio Arvo Pärt. São solistas Eduarda Melo, Carolina Figueiredo, Marco Alves dos Santos e Tiago Matos

Porto, Casa da Música

A Norte, a Sinfónica do Porto-Casa da Música "recebe" o Novo Ano no dia 6 (às 21.00) com um programa de feição toda vienense, a meio caminho entre as valsas e polcas e as páginas de opereta, sendo que esta inclui amiúde aquelas. Obras dos irmãos Johann e Josef Strauss, mais Robert Stolz, Franz von Suppé, Franz Lehar, Emmerich Kalmán e Émile Waldteufel. Será solista o soprano lírico alemão Jeanette Roeck (terá quatro intervenções), na sua estreia em Portugal. Dirige o austríaco Leopold Hager.

Viena de Áustria, Musikverein

O "Concerto dos concertos" de Ano Novo é o que se realiza na manhã de dia 1, em Viena, desde há mais de 70 anos, hoje visto por quase 100 milhões de pessoas em mais de 70 países. Na Sala Dourada do edifício do Musikverein de Viena, a Filarmónica de Viena, este ano dirigida por Gustavo Dudamel (ver entrevista), fará um programa extremamente variado, contemplando, claro, Johann (pai e filho) e Josef Strauss, mas também Franz Lehar, Émile Waldteufel, Franz von Suppé, Carl Michael Ziehrer, Otto Nicolai, aqui com mais uma surpresa: a participação do coro amador Singverein de Viena. Começa às 11.15 locais. A RTP transmite em ligeiro diferido (transmissão inicia-se às 10.30), ao passo que a Antena 2 transmite em direto. O fim, já se sabe, é com O Danúbio Azul e a Marcha Radetzky, mas com Dudamel tudo pode acontecer...

Berlim, Filarmonia

Em Berlim, entre dia 30 e dia 1, há nada menos que 26 concertos de São Silvestre/de Ano Novo de perfil clássico por toda a cidade, inclusivé na Igreja-Memorial do Imperador Guilherme, mesmo ao lado do palco do recente atentado na capital alemã. Escolhemos para aqui o que se realiza às 16.00 de dia 1 e que será dirigido pelo nosso bem conhecido Lawrence Foster, ex-titular da Orquestra Gulbenkian. Tendo por solista o soprano alemão Annette Dasch, o programa é integralmente norte-americano. É no Konzerthaus, com a Orquestra dessa instituição.

Londres, Barbican Centre

No Barbican Centre, às 14.30 de dia 1, a London Concert Orchestra, dirigida por Anthony Inglis, apresenta um programa de classical favourites.

Paris, igrejas

Na capital francesa, são sobretudo igrejas que são palco de concertos de Ano Novo. Por exemplo: dia 1, às 15.30, em Saint-Pierre-de-Montrouge (Messias de Händel); ou às 20.30, na de Saint-Germain-des-Prés (obras de Bach, Mozart, Vivaldi, Albinoni).

Milão, Auditório

Na capital lombarda, os Coro e Orquestra Sinfónica de Milão-Giuseppe Verdi tocam a Nona Sinfonia de Beethoven, sob a direção do alemão Claus Peter Flor. Será no Auditório de Milão, nos dias 29, 30 e 31; e no dia 1, às 16.00.

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