Quer jantar num quadro de Bosch?

O Festival TODOS leva à Colina de Santana, em Lisboa, o espetáculo de teatro culinário Piknik Horrifik, da companhia belga Laika. Um dos seus pontos de partida é "O Jardim das Delícias Terrenas"

É preciso ter cuidado com o que revelar acerca de Piknik Horrifik, o espetáculo de teatro culinário que a companhia belga Laika leva ao festival TODOS - Caminhada de Culturas, num antigo quartel da GNR no Largo Cabeço da Bola, Colina de Santana, Lisboa. O risco é estragar a experiência do espectador que a pode ver hoje às 20.00

Pode dizer-se que um dos pontos de partida foi o quadro de Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas (1503-1515), pintor de quem este ano são comemorados 500 anos desde a sua morte. O outro foi o que andamos a comer e a forma industrial como o produzimos e adquirimos, conta Peter de Bie, um dos fundadores da Laika e criador do espetáculo. Peter apoiou-se, nomeadamente, no livro Hamburguers in Paradise, da holandesa Louise O Fresco para pensar a questão.

escreve como nós, seres humanos, estamos sempre, através dos tempos, à procura da nossa comida, e neste momento vivemos numa espécie de paraíso. Se formos a uma loja e tivermos dinheiro podemos comprar qualquer coisa. É um paraíso aquilo em que vivemos? Ou começamos a estar cada vez mais num estado de inferno mental? Como vamos viver se em breve seremos 11 milhares de milhões? Podemos comer carne, fruta que vem do outro lado do mundo? Como vamos lidar com isto? Então pegámos no quadro do Bosch e juntámos-lhe uma historia de produção e consumo de comida. E a empresa de piqueniques, Paradise Inc.

"Jardim das Delícias Terrenas", de Hieronymus Bosch

Os espectadores - que também vão ali jantar - entram numa peça que tem como fundo o quadro de Bosch, embora despido dos seus elementos humanos. Um cocktail é servido. É o início de um piquenique servido pela (fictícia) empresa Paradise Inc. e o que começa no paraíso e parece terminar em Inferno, tal como ambos são vistos no quadro de Bosch.

Devemos comer esta terra? Ou esta salsicha de humano? Gosto de jogar nesta linha do 'devemos fazê-lo ou não?'" Uma pista: o ator, e criador, nunca viu ninguém recusar-se. E outra: todos os alimentos da peça são todos vegetarianos.

Ao lado da companhia belga, que há vários anos usa a comida como elemento cénico e desta vez a transforma também em centro da peça, estão dez atores e bailarinos portugueses, que participaram tanto na peça como na confeção da comida. À vista das já referidas "salsichas de árvore", antes de serem servidas, uma rapariga exclamava: "Estão perfeitas!" No final, olhando a toda a volta, veem-se as pessoas a rir enquanto são finalmente confrontadas com os ingredientes do que comeram até ali, ao longo do jantar.

A entrada custa oito euros

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