Quem foi Manuel Mafra, o ceramista que está no V&A?

D. Fernando II colecionava peças deste barrista que se afirmou como autor. Cristina Ramos e Horta investigou a sua vida e obra.

"Internacionalmente, é Mafra que é conhecido, não Bordalo Pinheiro", afirma Cristina Ramos e Horta, historiadora que investigou a obra do ceramista nascido em Mafra (1831-1905), para uma tese de doutoramento e agora um livro, Manuel Mafra, Ceramista da Casa Real Portuguesa. O título remete para a sua proximidade com o rei D. Fernando II.

O marido da rainha D. Maria II, descendente da casa de Saxe-Coburgo Gotha, educado em Viena começa a colecionar peças de Mafra em 1852, coincidindo com o momento em que começa a pintar cerâmica. "D. Fernando mostra-lhe peças estrangeiras e revela àquele ceramista, que começa como oleiro, peças de todo o mundo", conta a antiga diretora do Museu de Cerâmica de Caldas da Rainha. "O que Manuel Mafra marca é uma charneira para a cerâmica moderna, assume-se como autor, é o romantismo tardio o que ele representa".

A cerâmica de Mafra está representada no Victoria & Albert, em Londres, o que não é estranho tendo em conta que o seu trabalho foi mostrado na feira internacional de Londres, em 1851, um ano antes do museu abrir as suas portas ainda com a designação de South Kensington Museum. Isso mesmo explicou Cristina Ramos e Horta à conservadora do museu britânico que a contactou querendo saber sobre peças do acervo do V&A que apenas se sabia que eram portuguesas. "Ele esteve representado nas principais feiras internacionais", diz a conservadora, elencando as cidades por onde o seu trabalho terá passado. Paris, Filadélfia, Viena...

Porque é menos conhecido do que Bordalo Pinheiro, 15 anos mais jovem? Ramos e Horta usa termos de hoje para explicar o que se passou então: "Manuel Mafra não tinha qualquer suporte de marketing, Bordalo Pinheiro fazia parte de uma elite" Morrem no mesmo ano, 1905.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.