Quando o cabelo de Siza pegou fogo (e outras histórias)

Cabelos em fogo, um carro destruído à bomba, crematórios e muita habitação social. Paris acolhe os portugueses na Cité e espanta-se por não se armarem em estrelas

"O universal é o local sem muros", escreveu Miguel Torga e quem o trouxe pela primeira vez ao colóquio sobre a arquitetura portuguesa de ontem na Cité de L"Architecture et du Patrimoine, foi o francês Guy Amsellem, o presidente da instituição. Nuno Grande, o comissário da exposição Les universalistes, usou de novo a frase para falar do que juntou em Paris nada menos do que Siza Vieira, Nuno Portas, Souto Moura, Alexandre Alves Costa, Carrilho da Graça, Gonçalo Byrne, Manuel Mateus, Ana Tostões, Jorge Figueira. E com eles outros arquitetos e críticos nacionais. "Um universalismo com u pequeno", como o comissário sublinhou, "porque a ideia da globalização não nos chegou nos últimos anos, é uma característica nossa".

A exposição, que é hoje inaugurada ao fim da tarde, marca os 50 anos de existência da delegação da Fundação Gulbenkian em Paris. Como explica João Caraça, o diretor da delegação, a ideia partiu do presidente da Gulbenkian, Artur Santos Silva, também participante no colóquio de ontem. Cinquenta é o número chave: são expostas obras de 50 arquitetos datadas dos últimos 50 anos. E há uma coincidência feliz: integrada nas mesmas comemorações, é inaugurada na próxima semana a grande exposição de pintura de Amadeo de Souza-Cardoso no Grand Palais, anunciada como o grande segredo da pintura europeia.

A revolução SAAL

Ontem, o colóquio, sempre com o auditório da Cité cheio de profissionais e estudantes atentos e com blocos de notas a que deram grande uso, começou num tom que exclui o espírito de estrelato que invadiu a arquitetura mundial nas últimas décadas. De manhã, sobre o palco, Siza Vieira e Alexandre Alves Costa falaram dos tempos de revolução, quando o então secretário de Estado Nuno Portas os fez trabalhar no projeto SAAL.

Mesmo quando o moderador, o crítico François Chaslin, quis realçar o papel de Siza, e perguntou por que se tinha interessado por este campo, a resposta foi desarmante e fez rir a audiência: "Fui levado pelos estudantes de Belas Artes, entre os quais Eduardo Souto Moura, que faziam na escola trabalho sobre bairros, e precisavam de um diplomado. Além disso eu estava sem trabalho no atelier." No mesmo tom em que falou, a par de Alexandre Alves Costa, da capacidade de negociação permanente com os moradores em que se treinaram intensivamente.

Ele próprio ficou literalmente com o cabelo em chamas, numa das diárias assembleias de moradores em que participavam - "usava cabelo comprido, como era moda, e alguém acendeu um cigarro tão perto de mim que me pegou fogo". É verdade: nos anos 70 Siza usou cabelo e barba compridos, além de calças boca de sino e sandálias, como se viu numa das muitas fotos projetadas. A aventura SAAL foi intensamente política, marcada por oposição agressiva contra esse trabalho militante levado ao terreno por brigadas. Foi com um riso nervoso e estupefacto que a audiência viu a foto dos destroços do carro de Alexandre Alves Costa, explodido por uma bomba.

Siza apresentou o bairro social da Haia que lhe foi confiado, recordando que a experiência de negociação dos tempos do SAAL o tinha aqui ajudado a procurar encontrar a plataforma comum às diferentes culturas dos moradores - holandesa e imigrante, incluindo uma numerosa comunidade islâmica.

O escritor Dominique Machabert fez uma declaração de amor por Portugal, pois pensa que a arquitetura é um tema banal entre nós e que temos imensos arquitetos anónimos extraordinários. Todas as sessões foram faladas em francês, e apenas o crítico Jorge Figueira trouxe o inglês para o auditório.

Décalage pode ser boa

Souto Moura explicou que o que mais lhe agrada é a mistura: "Em Portugal chegámos sempre com atraso aos movimentos estéticos, e essa décalage pode ser apenas um atraso e pode ser também uma vantagem. Tivemos 50 anos de arquitetura de colunas e frontões, na ditadura, e portanto o pós modernismo já não fazia sentido quando chegámos à revolução de 1974." E notou que a arquitetura moderna foi mais visível (e possível) nas antigas colónias africanas do que em Lisboa ou no Porto.

O mesmo confirmou Jorge Figueira, que valorizou a diversidade da arquitetura portuguesa e, exemplificou com a rebeldia do discurso de Souto Moura. Como este último disse: "A arquitetura é sempre contra natura, pois existe para nos proteger das agressões da natureza e da geografia, mas não tem de ser contra a natureza, pode manter a distância bechtiana e não ser agressiva". "Tão descontraído e tão complexo" comentou o primeiro moderador da tarde, o arquiteto Éric Lapierre.

A obra que Souto Moura apresentou foi o Crematório de Kortrijk, Bélgica uma construção "plana e cinzenta como a bélgica" feita com um cuidado extremo: os bancos onde as pessoas se sentam na sala de espera são feitos em ângulo, para que possam conversar entre si. Gonçalo Byrne mostrou o projeto de habitação social coletivo denso em chelas, feito quando era jovem no atelier de Nuno Teotónio Pereira - como este estava preso em Caxias, ele próprio e Reis Cabrita foram os autores, com a ajuda de Nuno Portas.

A última sessão juntou Ana Tostões, João Luís Carrilho da Graça, Manuel Mateus e Vincent Parreira, com moderação de Francis Rambert, diretor do Instituto Francês de Arquitetura.

Paris

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