Quando a noite chega faz-se luz em Sintra. Chegou o festival Aura

O festival que ilumina Sintra quando todos os turistas desertam a vila regressa hoje. Até domingo, o Aura espalha-se pelas ruas para contar as histórias de quem lá vive e receber a luz de artistas vindos de fora. A entrada é gratuita

O que acontece ao agora pouco habitado centro de Sintra quando a noite se põe, todos os turistas regressam ao local onde estão hospedados e as lojas fecham as suas portas? Faz-se luz. Pois a partir de hoje, e até domingo, ali acontecerá o Aura, o festival que iluminará Sintra, pelo segundo ano consecutivo: ao longo das ruas e por vezes dentro de portas, entre as 21.00 e as 00.30, a entrada é gratuita e nem as visitas guiadas ou os workshops precisam de marcação.

No Museu das Artes de Sintra (MU.SA), onde começa o percurso, sente-se a agitação que caracteriza qualquer véspera. Patrícia Freire começa o percurso que todas as noites fará por Sintra a partir das 21.30, saindo deste mesmo local até à Regaleira.

"Continuamos a trabalhar sobre paisagens noturnas, a pensar sobre a noite, uma paisagem cultural de Sintra também durante a noite", diz aquela que trabalha durante todo o ano para estas quatro noites. Neste ano, o tema do festival é "Histórias da Noite", e há algo que dele resultou ainda antes das peças artísticas que se iluminarão a si mesmas pela noite de Sintra, e que as luminárias públicas, a que foi posto um filtro em tom alfazema, e diminuído o nível de luz, permitirão ver. "Fizemos um grande trabalho de terreno, diretamente com a comunidade, que resultou no documentário As Cartografias Emocionais [em parceria com Samuel Roda Fernandes]. São histórias de vida, arquivos fotográficos e fílmicos familiares, e dos comerciantes", explica Patrícia Freire, antropóloga, cujo trabalho será exibido na Correnteza e na Rua Dr. Alfredo da Costa, zona em que neste ano centrou a sua pesquisa.

Na primeira edição, em 2015, o Aura recebeu 20 mil visitantes

Além das pessoas, essa pesquisa passou ainda pelo Arquivo Municipal, que guarda a história da iluminação pública em Sintra ou as velhas lendas que há muito param em seu redor. Lendas como aquela que está no centro de uma das instalações dos Rethorica Studio, quatro amigos que se conheceram no curso de Arquitetura da Universidade Lusíada e que a primeira edição do Aura, que recebeu 20 mil visitantes, juntou na produção artística.

"Era uma fada que teve um desgosto amoroso, apaixonou-se por um humano, e ia chorar para uma gruta. Mais tarde, com tanto desgosto, e tanta visita da fada, a gruta tornou-se qualquer coisa mágica, começou a criar incandescências", explica Miguel, um dos elementos. Resultado: no passeio da Correnteza há agora uma gruta, erguida a fios de lã com propriedades ultravioletas ao longo de um quadrado de dez metros por dez. Ali estão 8600 nós. "O que é isto? É uma instalação?", pergunta uma transeunte, ainda sob a luz do dia. Não era a primeira nem a segunda vez que tal acontecia. Este será um dos pontos a não perder numa visita ao Aura.

No Palácio Nacional de Sintra ainda não era possível ver nada durante a tarde de ontem, apenas a cabina de onde será projetado o videomapping do coletivo Oskar&Gaspar.

Comecemos por eles, que nunca são vistos ou retratados, e de quem se sabe apenas que são "dois gémeos, os donos da companhia; são verdadeiros e estão em Singapura", afirma, com um sorriso tão simpático quanto trocista, Francisco, da produção do coletivo. Neste momento têm uma obra no festival Boom e em breve rumarão a Singapura, onde participarão no Night Festival. No palácio, os criadores do espetáculo de videomapping que no verão passado iluminou o Terreiro do Paço, #Ulisseia 21, mostram Canvas. "Acreditamos que todas as paredes são uma tela [canvas, em inglês]. Estamos a expor para quem não esta lá dentro, para quem aqui passa, todas as texturas, todas as cores, os padrões que estão dentro do palácio, mas com um novo olhar, uma nova perspetiva", explica Francisco.

Patrícia Freire quer que as pessoas "comecem a olhar outra vez para a zona entre o Palácio da Vila e a chamada zona da Estefânia", em vez de acorrerem apenas à vila velha. "Para não pensarem que ele é um bairro subalterno ou um bairro periférico ou um caminho para chegar à vila velha", explica. Nas histórias que recolheu, lembra três, de três senhoras.

"Uma delas foi dona daquilo a que se chamava antigamente a Estalagem da Raposa." A par do palácio, era o centro da vila. Afinal, "Sintra ficava a seis horas de cavalo de Lisboa". Agora não. E até há desconto no bilhete de comboio para quem queira ir ao Aura: dois euros, ida e volta, a partir do final do dia. Veja então o gerador de estrelas que Luís Patrício instalou na Avenida Heliodoro Salgado ou, entre duas árvores, leia - iluminado, claro -: We Are All Made of Stars and Magic, instalação de Sarah Frances Dias, Diogo Alexis Dias e Rodrigo Abreu.

E quanto ao escuro, não há por que ter medo, está cheio de luz.

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