Pré-candidato aos Óscares procura distribuidor nos EUA

"Cartas da Guerra" foi escolhido para representar Portugal na corrida às estatuetas. Mas é preciso chegar às salas americanas.

O filme Cartas da Guerra, do realizador Ivo M. Ferreira, estreado há três semanas nas salas portuguesas depois de ser apresentado no Festival de Berlim, é o candidato a candidato ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro na edição que se realiza em fevereiro de 2017. A corrida à estatueta começa agora, à procura de um distribuidor nos EUA, que ainda não existe.

"É preciso muito dinheiro e um distribuidor americano", explica ao DN o produtor do filme, Luís Urbano, da Som e Fúria, sobre o que é necessário para, literalmente, pôr o filme no mapa dos EUA e na rota de quem vota para os Óscares. "Há uma campanha que tem de ser feita, junto dos membros da Academia. É preciso comunicação, um bom publisher, é um trabalho que tem de ser feito em parceria", nota, acrescentando: "Ao mesmo tempo, tem de ser um bom negócio para o produtor. "Vamos tentar dar esse passo".

Cartas da Guerra está nas mãos de um agente de vendas internacionais, The Match Factory. "Estão em Toronto a tratar disso", explica Luís Urbano. Isto, apesar do filme não fazer parte da seleção oficial do festival que decorre até domingo na cidade canadiana e tem sido uma antecâmara para os Óscares (ver texto na página ao lado), cuja cerimónia está marcada para 28 de fevereiro, em Los Angeles.

Neste caso, é a pré-nomeação por parte da Academia Portuguesa de Cinema pode funcionar, também, como factor de atração para Cartas da Guerra, tal como o facto de ser o candidato português aos prémios Goya na categoria de melhor filme ibero-americano será usado pela distribuidora espanhola, a Golem, quando o filme estrear", nota Luís Urbano, acreditando que desta forma se antecipará a chegada às salas. A cerimónia de entregados Goya está marcada para 4 de fevereiro.

Apresentada pela primeira vez no Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro, a longa-metragem de Ivo M. Ferreira a partir da correspondência trocada pelo escritor António Lobo Antunes e a primeira mulher, Maria José, quando esteve destacado nos anos 1970 em Angola, e reunida no livro D"este viver aqui neste papel descripto. Foi rodado entre Portugal e Angola. Miguel Nunes interpreta Lobo Antunes e Margarida Vila-Nova é Maria José, a mulher e leitoras das cartas, fio condutor da narrativa.

O filme estreou a 1 de setembro nas salas portuguesas e foi visto por 12 mil espectadores, segundo a produtora. Tem presença garantida em festivais em Mumbai, Gent e Bordéus e exibição certa em escolas, cineclubes e associações culturais, e foi vendido para 12 territórios. Entre eles, o Brasil, onde estreia ainda este ano, a Holanda, a Bélgica e a França, a partir de 8 de fevereiro do próximo ano. Luís Urbano deposita grandes esperanças no público francês, que "tradicionalmente adere ao cinema português", diz. Tabu, de Miguel Gomes, outra produção Som e Fúria, foi visto por 200 mil em França.

Regras novas

A escolha do título que representa Portugal nesta pré-candidatura foi feita de maneira diferente pela Academia Portuguesa de Cinema. "Este ano foi deliberado fazer esta escolha em duas fases. Na primeira, um júri escolheu 4 filmes candidatos. Na segunda, os membros da Academia votaram, (na plataforma existente para o efeito), dentro desses 4 filmes, qual o vencedor", explicou ao DN o presidente da Academia Portuguesa de Cinema, Paulo Trancoso, por mail, adiantando que "a plataforma assinala pelo menos 50 votantes". Além de Cartas da Guerra, Amor Impossível (António-Pedro Vasc oncelos), Cinzento e Negro (Luís Filipe Rocha) e Montanha (João Salaviza) podiam ser votados para os Óscares. Gelo (Gonçalo e Luís Galvão Teles) substituía Montanha na seleção para os Goya. Com Rui Pedro Tendinha

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