Portugal já foi invadido por Michael Moore!

O que é que Portugal tem de bom?

Foi essa a investigação de Michael Moore no seu documentário sátira Where to Invade Next, um roadmovie que leva o documentarista norte-americano em busca do melhor de uma série de países. O que Moore quer é roubar os melhores sistemas e as melhores ações governamentais para levar para os EUA. Ele chama-lhe invasões amigáveis, anexações para salvar os EUA. Cada vez que encontra algo de bom espeta uma bandeira dos EUA em solo estrangeiro e pede licença para copiar a ideia no seu país.

A premissa do filme começa com uma reunião forjada no Pentágono. Depois dos fracassos militares dos Estados Unidos no Afeganistão, Síria, Iémen, Coreia, Vietname e por aí atrás, Moore compromete-se com o governo americano a pesquisar novos países para um outro tipo de invasão.

Quando chega a Portugal comenta logo que este é o país que ajudou a escravatura a chegar aos EUA e fica espantado com a maneira como o nosso povo festeja o 1.º de Maio. Vai daí e toca a celebrar! Moore espanta-se com o facto do 1.º de Maio ser feriado. Pressente-se sorriso de escárnio...

A sua relação com Portugal fica ainda mais próxima quando descobre junto de polícias que ninguém é preso por consumir droga. Dizem-lhe depois que os crimes relacionados com o consumo de estupefacientes estão a diminuir. Parece não querer acreditar.

O seu herói português é Nuno Capaz, do organismo governamental Comissão para a Dissuasão da Toxicodependência de Lisboa. Todo o seu discurso é sorvido com perplexidade por Moore, que mal o conhece diz-lhe na cara que tem ar de drogado - "todos me dizem o mesmo, já estou habituado", replica em seguida. Curiosamente, a legenda apresenta Capaz como ministro...

Outro dos seus espantos prende-se com o facto de as prisões portuguesas não estarem cheias de indivíduos de raça negra. E como Where to Invade Next é, cima de tudo, um pretexto para descrever os podres dos Estados Unidos, há um parênteses para uma tese sobre a guerra ao tráfico de droga nos anos 80 ser uma forma do poder americano conseguir meter dentro das grades os afro-americanos e não os deixar votar. "Ai aqui os presos votam?", pergunta Moore sempre de boca aberta.

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