Pintura de Álvaro Pires de Évora em vias de classificação

Numa altura em que se aguarda o leilão de logo à noite, durante o qual irá à praça, em Nova Iorque "A Anunciação", o DN apurou que a Direção Geral do Património Cultural deu início à classificação de "São Cosme", uma outra obra do mesmo artista.

A Direção Geral do Património Cultural (DGPC) deu início ao processo de abertura do procedimento de classificação da pintura São Cosme, da autoria do pintor português Álvaro Pires de Évora, o mesmo artista da pintura A Anunciação, que logo à noite irá a leilão na Sotheby's, em Nova Iorque. Segundo apurou o DN, a pintura pertence a um privado, está em Portugal e deverá ir a leilão ainda este mês, no nosso país.

Quase com as mesmas dimensões de A Anunciação (30,5 x 22 cm), São Cosme (28 x 21,5) foi leiloada a 10 de novembro de 2010 pelo Palácio do Correio Velho por 15 mil euros. Um valor substancialmente diferente do que está a ser pedido pela nova-iorquina Sotheby's, que estabelece um valor base de licitação entre 150 e 250 mil dólares (entre 121 e 202 mil euros).

Um valor exagerado, segundo Pedro Dias, professor catedrático de História de Arte da Universidade de Coimbra, aposentado, e comissário, em 1994, da única grande exposição em Portugal dedicada a Álvaro Pires de Évora, pintor que nasceu em Portugal no começo do século XV, apesar de ter vivido quase toda a sua vida em Itália. "Do meu ponto de vista, tudo o que seja mais de 50 mil euros para este quadro é um exagero", afirmou ao DN Pedro Dias, sobre o valor base de licitação de A Anunciação.

Com a abertura deste processo, que, segundo apurou o DN, deverá ser publicado em Diário da República nos próximos dias, o Estado português poderá exercer o direito de preferência sobre a compra de São Cosme, ao abrigo da Lei de Bases do Património. Mesmo que não seja adquirida pelo Estado, por estar em vias de classificação, a obra só poderá sair de Portugal mediante autorização das entidades competentes e a título exclusivamente temporário, por exemplo, por cedência para uma exposição.

Este óleo sobre madeira, pintura de uma cabeça de santo, da primeira metade do século XV, "apresenta muitas semelhanças com uma figura presente no retábulo de Volterra, obra muito documentada na obra Álvaro Pires de Évora, um pintor português na Itália do Quattrocento, Comissão dos Descobrimentos, em 1994. Pág. 94", lê-se sobre este quadro no site do Palácio do Correio Velho.

A Virgem com o Menino entre S. Bartolomeu e Santo Antão, sob a Anunciação, comprada pelo Estado português em 2001, por 64 mil contos (320 mil euros) é a única deste pintor num museu nacional, neste caso o Museu de Évora. A obra foi adquirida em 2001 para aquela instituição quando o diretor era Joaquim Caetano, atual conservador do Museu Nacional de Arte Antiga, instituição que agora solicitou à Direção Geral do Património Cultural a compra de A Anunciação. "Um pequeno foco de luz numa zona de trevas quase absolutas" da pintura portuguesa, afirmou ao DN o especialsita em pintura antiga do MNAA, justificando o valor para a coleção.

Presente em coleções como as do parisiense Museu do Louvre ou do norte-americano Metropolitan Museum of Art, Álvaro Pires de Évora é também referido por Giorgio Vasari, o grande biógrafo dos pintores do Renascimento, que se refere a ele como Alvaro di Piero di Portogallo, quando escreve sobre outro artista.

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