Pintou a Capela Sistina na igreja do bairro

No verão de 1999, Miguel Macías foi um dos milhões de turistas no Vaticano de nariz no ar a mirar a obra de Miguel Ângelo. No regresso a casa, o designer gráfico mexicano começou a pintar uma réplica. Já leva 14 anos de trabalho. E ainda falta...

Sempre gostou de pintura. Mas foi no dia em que entrou na Capela Sistina, em Roma, que a vida do mexicano Miguel Macías mudou. Contemplou a obra maior de Miguel Ângelo até os guardas o obrigarem a sair. Neste deslumbre, lembrou-se de medir o espaço. Deu passos largos entre os (outros) turistas e concluiu, fazendo-lhes as contas, que a Capela Sistina teria o mesmo tamanho da Igreja da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Cidade do México. Não tardou a chegar-lhe a ideia: ia reproduzir os desenhos do mestre renascentista na igreja do seu bairro.

No regresso a casa, Macías tratou de confirmar as medidas e falar com o padre. "Tudo coincidia, exceto a altura, porque a Capela Sistina tem 20 metros de altura e aqui apenas dez, mas até a curvatura da abóbada é similar", disse ao jornal Tierras de Santa Maria. Recebeu luz verde com uma condição: os custos seriam por sua conta. A igreja do bairro Colonia Moctezuma começava a tornar--se a Capela Sistina mexicana.

O designer gráfico, católico, acabara de se reformar. Aliás, a viagem ao Vaticano, que fez com um amigo arquiteto, assinalaria simbolicamente o fim da carreira no ativo. Assumiu os custos do projeto, com contributos de amigos e visitantes. E deitou mãos à empreitada.

Cedo percebeu que não iria conseguir pintar como Miguel Ângelo, de nariz no ar. Já não tinha destreza física para o fazer. Pinta em acrílico sobre mosaicos de tecido com 15 metros por três onde reproduz os desenhos do mestre. Desenha os contornos a lápis, olhando as reproduções do original. Depois pinta-os. Finalmente faz subir pedaços da tela até ao teto com um sistema de roldanas e cordas.

Começou pelo centro, com a famosa cena da Criação de Adão. Demorou três anos a concluir este pedaço da Sistina mexicana. "Quando se colocou o primeiro tecido, veio o cardeal Rivera Carrera dar a bênção à obra", disse.

Não podia morrer

Já lá vão 14 anos de trabalho, em que tem contado com a colaboração de voluntários que se vão revezando. Uns ficam um dia, outros, anos.

A igreja já tem o teto tal qual Miguel Ângelo pintou. O mexicano comentou ao El País: "As figuras aqui veem-se mais pertinho do que na Capela Sistina" - precisamente porque a igreja é mais baixa.

Faltam-lhe agora quatro mosaicos para terminar a obra e Macías estima que tenha trabalho para mais dois anos. A empreitada já leva mais de uma década e várias peripécias. Macías, de 71 anos, teve uma apendicite grave e o padre da igreja disse-lhe que não podia morrer antes de acabar. "Acreditei e aqui estou", diz ele.

Mas o trabalho é longo. Pelo sim pelo não, na lona que cobre o trabalho do dia, aquele a quem chamam de Miguel Ângelo mexicano colou um letreiro: "Não te rendas, Miguelito"...

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