Pessoa muda a vida de quem o lê? De José Gil a Madonna

De quinta a sábado, na Fundação Gulbenkian, reúnem-se mais de 40 especialistas em Fernando Pessoa. É o IV Congresso Internacional.

A grande novidade do IV Congresso Internacional Fernando Pessoa, organizado pela sua Casa, é a de pela primeira vez contar com a participação de jovens investigadores doutorandos como oradores - vários portugueses e brasileiros e uma italiana - que consideraram o poeta uma boa razão para lhe dedicar a vida profissional. A notícia é dada pela diretora da Casa Fernando Pessoa, Clara Riso, que organiza pela primeira vez o Congresso, que já acontecera em 2008, 2010 e 2013. "A adesão mostra que há novos estudiosos interessados além daqueles que há muito tempo já produzem investigação", diz.

Pessoa faz cada vez mais parte do dia-a-dia da diretora desde que o descobriu nos tempos da faculdade e espera que a plateia também se renove com "muitos estudantes e público leitor e não só quem já tem um nível muito especializado".

Diga-se que a influência de Fernando Pessoa é grande em todo o mundo e, nas últimas décadas, tornou-se o mais reconhecido português na literatura. Que marca os que o leem de forma definitiva, seja a mediática cantora Madonna, que colocou um verso do poeta no Instagram; Patti Smith, que na última digressão fez questão de passar pela Casa Fernando Pessoa e fazer leituras do poeta, ou Maria Bethania que dedicou um disco, entre outras homenagens no palco.

Entre muitos os leitores que foram tocados por Pessoa está a escritora Luísa Costa Gomes. Quando se lhe pergunta se o poeta alterou a sua vida, garante que sim: "Mudou completamente. Li o Álvaro de Campos com uns 13 anos e foi uma descoberta que não imaginava ser possível. Lia Dostoiévski mas não muita poesia e o que senti foi uma explosão que mostrou até onde se podia escrever. Inspirada nele, fiz uma peça de teatro nessa idade. Foi dos primeiros que comecei por imitar e explicou como a máquina é feita. Campos e Caeiro são os principais, que li suficientemente cedo para nada perceber e compreender também o que era importante. Foi uma descoberta fundante, feita sem mestre."

Também a fadista Aldina Duarte se sente em dívida para com Pessoa: "Mudou a minha vida. Como se não bastasse ler e cantar Pessoa, ainda tenho de lhe agradecer uma das melhores experiências, mais concretas e definidas da minha vida. Não se esquece de quando fez parte, como fadista e personagem, da peça Os últimos três dias de Fernando Pessoa, de António Tabucchi, no Piccolo Teatro de Milão, onde aprendeu que "a liberdade, a renovação permanente do conhecimento, o prazer, a honestidade e a humildade perante uma arte são a verdadeira e única condição de um artista".

Richard Zenith começou a "frequentar Pessoa já adulto", o poeta acabou por dominar a sua atividade profissional, mesmo que "pouco ou nada mudasse de essencial na minha vida - isto é, na minha pessoa. Nunca foi exemplo que quis seguir. É um tableau vivant, multiplicadamente expressivo, que me espanta e acompanha imensamente".

Também o ensaísta José Gil, autor de inúmeros textos sobre Pessoa, se sente marcado: "Não posso dizer, como muitos, que o encontro com Pessoa mudou a minha vida. Não fui absorvido por ele, não sou um Pessoa-dependente. Até porque já tarde (por volta dos 40) o "revisitei". Mas a sua releitura foi um deslumbramento: tanto génio poético, tanto pensamento, tanta capacidade de exprimir limpidamente as camadas mais profundas e obscuras do sentir." Para o filósofo, Pessoa tem "cruzamentos surpreendentes com os pensadores mais inovadores do século XX" e é "uma fonte inesgotável para o pensamento estético e ontológico, bem como para os problemas da modernidade, a multiplicidade e o devir do sujeito, o inconsciente e o estatuto do real, a existência, a construção da obra de arte, a formação da crença, o alcance da analogia, a natureza do Estado e os tipos de obediência política, etc." Conclui: "Não mudou a minha vida, mas levou a imensos desvios, direções imprevistas, meandros arriscados, estímulos alegres e vitais no meu pensamento."

António Mega Ferreira é direto: "Anda comigo desde o início da adolescência; há de entrar comigo pela noite dentro da minha vida." Não desdenha até que ponto a leitura da poesia de Pessoa lhe mudou a vida: "Pergunto-me, às vezes, se antes da leitura dos poemas de Álvaro de Campos, aí pelos meus 16 anos, eu teria uma vida. Sei, isso sim, que a poesia de Pessoa determinou, como outras coisas, a minha maneira de estar e de entender a literatura como algo de absolutamente fundamental na minha vida." A poesia "expansiva e histriónica" de Campos foi a "porta aberta" para o poeta, diz: "Naquela idade da adolescência em que o mundo parece demasiado pequeno, o estro de Campos, o grito convulsivo, era uma razão de ser e a justificação de um sentimento de inadequação à vida, tal como ela se apresentava. Mais tarde, quando o Livro do Desassossego foi revelado (em 1982), aprendi outra maneira de ser Pessoa e de ser Lisboa pelos olhos de Pessoa."

No palco, com São José Lapa

Quando a peça Fernando Talvez Pessoa subiu ao palco do Teatro Nacional todos os atores homens do elenco tiveram um papel, a exceção foi a atriz São José Lapa, que interpretou o poeta aos 12 anos. Já conhecia a sua poesia da adolescência mas voltou a lê-la para se preparar para o papel. Recorda-se das salas cheias constantemente e de muitas crianças das escolas terem feito parte da plateia, sendo que uma vez foi necessário prolongar uma pausa mais do que o necessário de modo a evitar que continuasse a explosão de alguns balões de pastilha elástica. Também se lembra que chovia na parte de trás do palco e era preciso usar chapéu de chuva entre cenas. Quanto à influência de Pessoa, que representou ainda em O Marinheiro, garante que foi a própria da idade: "Permitiu os questionamentos interiores e o prazer da leitura próprio da poesia."

O poeta também do estrangeiro

Jorge Uribe é membro do projeto crítico e editorial Estranhar Pessoa e foi o hábito de ler Pessoa que o trouxe a Lisboa: "Ganhei com os anos outra nacionalidade e perdeu-se-me o sentido de pátria. Acomodei-me perto dos versos "Estrangeiro aqui como em toda a parte", e voltei a ir embora a saber que não é preciso estar no Tejo para ver o Tejo. Lendo Pessoa fiquei mais entretido na vida, talvez não mais tranquilo, mas nem dou por isso."

Bernard McGuirk, docente da Universidade de Nottingham, não tem dúvidas: "Cedo, a paixão pela poesia de Pessoa influiu na minha vida e carreira. Nas últimas três décadas fui convidado a visitar Portugal frequentemente, o que permitiu partilhar a minha opinião sobre essa figura intelectualmente gigante, o autor de múltiplos textos e registos que contêm a antecipação da grande poesia e inscreve qualquer ângulo filosófico e teoria literária que possa ser expressa." McGuirk coloca Pessoa ao lado de Stéphane Mallarmé no que respeita ao topo da descoberta poética.

Anna Klobucka, professora de Português na Universidade de Massachusetts (EUA), não hesita em revelar que Pessoa "muda a vida de qualquer um" e que "depois de experimentado já não se sai dele". Deste modo, explica, "senti-me interpelada para o papel de observadora participante, à maneira antropológica ou no sentido do público teatral brechtiano." Klobucka tem alguma dificuldade em recordar os pormenores concretos das primeiras leituras pessoanas: "Que poemas e em que contexto? Acho que a visão inicial não terá sido muito diferente da que forma agora, na maioria dos casos, alunas e alunos a quem apresento Pessoa pela primeira vez: olha que giro, um poeta com vários poetas dentro, e estes ainda por cima conversam uns com os outros, discordam, provocam." Considera que entre os seus poemas os mais apelativos são "do fatal Álvaro de Campos", mas ao pensar Pessoa mais a fundo entendeu "o radicalismo do que podíamos chamar a dialética da razão pessoana, o "drama-em-gente" como uma performance dialógica de posicionamentos intelectuais, éticos e afetivos que, entendidos deste modo, exigem também uma autodefinição e participação - intelectual, ética e afetiva."

Kenneth David Jackson é autor do livro Adverse Genres in Fernando Pessoa (Oxford, 2010) e habitual orador em eventos sobre Pessoa. Por isso, ao questionar-se a influência do poeta, o investigador diz: "Uma vez que se comece a ler e pensar sobre Pessoa é impossível parar e temo-lo como companhia para a vida. Sem Pessoa, jamais compreenderia a literatura e a filosofia como a interpreto agora." Não hesita em o qualificar como um "desafio sem fim", porque a arte dos seus poemas, a persona e o modernismo são temas de meditação contínua e que exigem uma leitura e perceção muito próprias."

Jeronimo Pizarro perseguido

Fernando Pessoa, assegura Jeronimo Pizarro, mudou-lhe a vida quotidiana durante anos: "Perdi-me nas suas arcas durante dias e noites e agora sinto que me persegue: corro o risco de ser chamado "pessoano", já fui amigavelmente acusado de ser mais um heterónimo e há pouco recebi um material impresso endereçado a "Fernando Pessoa | Universidad De Los Andes | Departamento de Humanidades Y Literatura | A.A. 4976 | Bogotá D.C. | Colombia"." Pizarro não é capaz de imaginar o que lhe aconteceria se regressasse a Portugal e "a força magnética das arcas fosse novamente irresistível". Admite ser possível comprar uma T-Shirt pessoana ou talvez comece a endoidecer de Pessoa, talvez encontre Pessoa até na sopa, talvez digam que foi visto a caminhar por Tavira com um monóculo...

O poeta e estudioso de Pessoa, Carlos Pittela Leite, chorou quando se deparou com o túmulo de Fernando Pessoa. Chegou a Lisboa numa tarde de 2004 revendo-se primeiro em Alberto Caeiro: "Apresentaram-me como mestre zen e queria tornar-me seu discípulo. Depois, foi Cleonice Berardinelli, que pensava ser uma dama portuguesa de outras gerações. Por fim, foi Pessoa mesmo."

Consulte o programa do congresso aqui.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.