Peregrinação enquanto a maré enche

João Botelho esteve na Ásia e agora pelo país a filmar Peregrinação, a partir da obra de Fernão Mendes Pinto. Fomos molhar os pés e vê-lo em ação no cais palafítico da Carrasqueira, que fará as vezes de um porto malaio e de outro chinês

"O barco estava acabadinho de pintar e agora fizeram-lhe aquela judiaria". É em tom de gracejo que D. Minda aponta para a sua embarcação, agora tingida de castanho, e na qual dois figurantes demonstram dificuldades em manterem-na no local que a produção designou. Estamos em cima de um cais que também é propriedade da mesma mulher - cuja casa, na aldeia, serve de base para o guarda-roupa e a maquilhagem. "Isto é excelente para a terra", comenta. "Só é pena não filmarem a minha casa" - e aqui di-lo sem zombar. É certo que João Botelho nega que Peregrinação seja um filme de época. "O filme é do dia em que o faço. Evidente que tem de ter verosimilhança com coisas que podem ser do passado", por isso uma construção do século XX está fora dos locais de filmagem da longa-metragem baseada na obra de Fernão Mendes Pinto. E são bastantes: em Portugal, além da Carrasqueira, Almada, Lisboa, Sintra, Torres Novas, Tomar e Vila do Conde recebem a equipa de filmagens.

Antes, entre o final de agosto e o início de setembro, uma pequena equipa de cinco elementos esteve em périplo pela Ásia: Japão, China, Vietname, Malásia e Índia. O propósito foi duplo. Filmaram paisagens para usarem como fundos de cenas - por exemplo, para as cenas com os barcos - e também para a realização de um documentário, em quatro episódios, para a RTP (ainda sem nome). "Isto passava também por uma componente de investigação e não fazia sentido nenhum estar a filmar o Oriente sem o conhecer minimamente. O documentário mostra-nos a Ásia como é hoje, uma peregrinação do João partindo dos ensaios sobre a Peregrinação", explica Alexandre Oliveira, produtor do filme.

As filmagens no porto palafítico (isto é, assente em estacas de madeira) da Carrasqueira, no concelho de Alcácer do Sal, obedecem às limitações das marés. Durante parte do dia, e isto não é jogo de palavras cinematográfico, só há lodo no cais. "Um horário normal de filmagens é de dez horas, aqui estamos circunscritos a metade do dia de trabalho", aponta o produtor. Por isso não há tempo a perder e a organização é essencial. Talvez por isso mesmo, antes da rodagem da última cena, dá-se um momento de tensão quando o exíguo espaço é inundado de adereços e figurantes. "Deixem-me compor o plano e só depois trazem os figurantes", ordena o realizador, irritado. Nada que não se resolva em tempo. Para ajudar à planificação, João Botelho recorreu ao storyboard (espécie de roteiro desenhado), um método ao qual já não recorria há alguns anos. "Tem de haver storyboard senão pode ser a ruína. Se temos de fazer 30 planos num dia e se não tiver uma base para isso corre-se o risco de ficarmos nos primeiros cinco. Mas há improviso, há alterações. Acho que ainda não repeti um único plano do storyboard, mas ajuda imenso, sobretudo nas cenas mais complicadas e com muitos figurantes", diz Botelho, para depois invocar uma petit histoire: "O sr. Hitchcock é que fazia bem: dizia que escusava de ir filmar porque estava tudo desenhado e programado".

"Há tão pouco espaço", ouve-se. O cais ainda não está inundado de água, mas parece não caber mais nada, entre cabos, carros de mão, material do mais variado e um vaivém de pessoas. "Até agora não caiu ninguém à água", assegurava um elemento da produção. E até ao final ninguém teve um contacto indesejado com o rio, embora um figurante e o protagonista, Cláudio Silva, tenham sido assistidos devido a pequenos acidentes.

"Tens cara de pirata, tens!", atira um dos pescadores ao ver passar um figurante da Comporta, que não perdeu tempo a dar o troco: "Se eu gostar da personagem vais ver-me todos os dias assim." O figurante não teve mais oportunidade de se vestir com aqueles trajes porque foi o segundo e último dia de filmagens na Carrasqueira. Neste dia recriou-se o porto de Patane, perto de Malaca, no dia anterior Lampacau, na China. "No caso do porto chinês construímos uma jangada em bambu, que é comum à região de Guilin, onde passa o rio Li, um sítio que nos inspirou, porque estivemos lá a filmar", conta Alexandre Oliveira.

É notório o contraste entre a agitação do cineasta, que no cais corre, esbraceja e grita para que a equipa siga as suas orientações, e o momento de descontração num intervalo das filmagens. Pergunta-se como é que o filme pode ser ao mesmo tempo um filme de aventuras, uma epopeia musical e um filme literário, como o realizador escreveu? "Há uma frase muito engraçada do Godard, nos anos 60: pôr tudo num filme. Gostava de pôr tudo. Este filme não é a Peregrinação. A Peregrinação é um romance monumental, do outro mundo. E isto é quase como uma introdução à Peregrinação num filme contemporâneo. O filme é muito centrado na vontade de escrever de Fernão Mendes Pinto, que esteve oito a dez anos sem escrever uma linha, a tentar ser recebido pela corte e ser pago. É um combate terrível com a memória, com a verdade e com a literatura." Botelho sustenta: "Mendes Pinto não esteve nestes sítios todos, mas os portugueses estiveram. Trouxe muitos livros, na China aprendeu mandarim, trouxe mapas do Japão. Há uma exageração própria do romance, mas ver uma manta a saltar do mar e voar, ou um dragão-de-Komodo, são monstros como para os japoneses chegarem caravelas são extraterrestres, é a ideia do deslumbramento do outro. E há um respeito enorme pela civilização do outro e por isso é que ele é muito rejeitado, é o Fernão Mendes Minto".

João Botelho, que antes se inspirou em obras de Almeida Garrett, Eça de Queirós, Fernando Pessoa e Agustina Bessa-Luís, declara uma "obrigação" e "serviço público" dar a conhecer as "coisas importantes" do país. E de Peregrinação, que deve estrear-se neste ano, diz ainda: "As pessoas vão ficar contentes com as batalhas, com as emoções e com as violações, e ao mesmo tempo vão ficar emocionadas com as canções, há dois coros notáveis" - a banda sonora é de Por Este Rio Acima, de Fausto.

"Estava cheio de medo quando comecei. Porque uma pessoa para dois anos, volta a filmar e é o primeiro filme outra vez", diz o realizador que na quinta-feira faz 68 anos.

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