Pedro Teixeira da Mota: "Sempre gostei de ser o centro das atenções"

Pedro Teixeira da Mota estreia-se esta noite, terça-feira, com o espetáculo a solo "Impasse". O DN esteve à conversa com o humorista

Pedro Teixeira da Mota é um dos nomes que mais se tem destacado na nova geração de comediantes portugueses e estreia-se a solo com o espetáculo Impasse esta terça-feira, 14 de novembro, na sala do Tivoli BBVA em Lisboa. A data foi agendada depois de ter esgotado a primeira, no dia 15, quarta-feira, no mesmo local. No Porto, vai atuar no Hard Club a 18 de novembro. Ao todo, nos dois espetáculos na capital e um a Norte, vai contar com 2526 espetadores.

Começou há três anos como um dos membros do projeto Bumerange, com mais três humoristas - Carlos Coutinho Vilhena, Manuel Cardoso e Guilherme Geirinhas - que chegou à televisão: sketches de humor com menos de dois minutos na Sic Radical.

Abriu os espetáculos de Luís Franco-Bastos durante a digressão "Voz da Razão". Tem um canal no Youtube em que publica vídeos de minuto e meio e é um dos criadores do programa Erro Crasso na mesma plataforma. Muito ativo nas redes sociais, brinda os seguidores com descrições de fotografias hilariantes no Instagram. Todos os domingos publica um podcast intitulado Ask.TM - que é dos mais ouvidos em Portugal e já chegou várias vezes ao primeiro lugar no ranking luso do iTunes - e vai respondendo às perguntas que lhe colocam no Twitter. O mais recente feito é também o mais importante da carreira, diz ele: conseguir esgotar o primeiro espetáculo de stand-up a solo não uma, não duas, mas três vezes.

O DN esteve à conversa com o humorista.

Porquê chamar Impasse ao espetáculo?

Porque, por um lado, sou um adulto, por outro lado não sou. Tenho 23 anos, já acabei de estudar, mas ainda vivo com os meus pais. Às vezes, dão-me dinheiro para ir jantar, outras vezes eu é que lhes empresto quando precisam. Portanto, é tudo um bocado um impasse nesse sentido de "sou um adulto, ou sou uma criança?".

Achava possível esgotar o primeiro espetáculo a solo?

Acho que é um bocado falsa modéstia e irrita-me imenso esse discurso de dizer "bem, se há dois anos me dissessem que eu ia esgotar...". Isso quer dizer que não pensas no teu potencial. Eu acredito no meu trabalho e que vou ter resultados. Não, dois [espetáculos] não estava à espera de esgotar, de facto. Um estava, dois não. Acho que assim foi um bom começo, estou contente com isso.

O que é que leva tanta gente ao espetáculo quando tem tanta oferta gratuita nas redes sociais, o podcast, vídeos?...

Acho que é um sinal de respeito das pessoas. Estão-se a entreter, mas nunca pagaram por nada e sabem que é o meu trabalho, por isso devem pensar "não, ele merece". A quantidade de bons momentos que proporcionei às pessoas vale esses 12 euros, vale uma oportunidade para me verem ao vivo. Para além disso, penso que o que eu faço é bastante genuíno e as pessoas criam uma ligação, de certa forma. Têm curiosidade e querem ver o que é que eu tenho para dizer ao vivo. O podcast é giro, mas eu acho que ao vivo é sempre melhor.

E o que é que se pode esperar de diferente no Impasse?

O registo é o mesmo, mas são outros temas e podem ver a cara, o que é sempre interessante a nível de expressões! Não estou a dizer que sou bonito, estou a dizer que a nível de expressões as histórias ganham com isso. Mas é um registo parecido... De tudo o que faço, o podcast é o mais perto que eu tenho de stand-up. É quase stand-up, no fundo. Só que estou sozinho.

Diz que Chris D'Elia é uma das grandes influências e ele também tem um podcast...

Foi uma inspiração. Ele tem um podcast chamado Congratulations, que também sai uma vez por semana, onde fala sozinho durante uma hora. Ao quarto ou quinto episódio comecei a pensar: "tenho de fazer uma coisa parecida". Porque é um bom exercício para ele, está a criar o seu próprio material e isso obriga-o a pensar em coisas novas. Depois falei disto ao Salvador Martinha, que acabou por fazer o mesmo. Quando criei o meu, quis torná-lo diferente e lembrei-me deste formato de pergunta-resposta.

Tendo em conta a inspiração nas grandes referências, onde é que marca a diferença?

Do Chris D'Elia, por exemplo? Acima de tudo ser mais novo e falar em português (risos). Da mesma maneira que ele fala das coisas que lhe acontecem, eu falo das minhas experiências pessoais. Tudo me diferencia dele, porque temos sempre ângulos diferentes sobre as coisas. Quem é muito atento pode pensar, "isto é um bocado Salvador Martinha, ou isto é um bocado Chris D'Elia". Mas eu faço o meu registo. Se calhar tenho influências, mas nem reparo nisso.

Gosta de música e toca piano. No espetáculo vai juntar música?

É possível termos ali mais do que dois momentos musicais. Posso adiantar isto aqui em primeira mão, porque as pessoas vão chegar lá e vão ver um piano.

E ideias para próximos espetáculos?

Vou fazer estes dois em Lisboa e no Porto e no próximo ano espero fazer noutras cidades, como Coimbra, Leiria e Aveiro. Há umas quantas onde acho que já tenho público-alvo suficiente para atuar. Mas, para já, vou focar-me nesta tour. Isto parece aquele típico discurso de futebol, "pensar neste desafio, levantar a cabeça, só penso no próximo depois de fazer este". Mas no fundo é verdade. Agora estou mais concentrado em Lisboa e no Porto, depois as outras e depois logo se vê o que é que vem daí.

A família vai assistir ao Impasse?

Vai estar no verdadeiro primeiro espetáculo, que é o de dia 15. E é giro, porque a minha avó vai lá estar e ela nunca viu nenhum espetáculo de stand-up. Portanto, o primeiro que vai ver vai ser o meu primeiro solo.

Isso não o deixa mais nervoso?

Não, nada. Os meus pais sempre foram porreiros. Eles ouvem o podcast, onde eu digo palavrões e falo de droga. Já aceitaram que...

É tudo a brincar?

Não, que é tudo a sério (risos). Que digo de tudo e não vale a pena estarem a dizer "Pedro, é escusado falares de drogas.". Falo disso, eles aceitam e gostam imenso. A minha mãe acha que eu não devia dizer tantos palavrões. O meu pai não, o meu pai não quer saber - "então, é coisa dele, deixa-o lá estar". Mas vou tentar controlar um bocado, fica feio dizer muitos e eu tenho noção disso.

Há algum sítio fora do normal onde gostasse de fazer um espetáculo de stand-up?

Não. Stand-up não se pode fazer em qualquer lado, têm de estar as condições certas de luz, som, ambiente. Só quero atuar em teatros e com boas condições, para que as pessoas possam ter a experiência completa. Tudo faz a diferença. As pessoas às vezes não têm noção, mas saem de um espetáculo e se calhar não adoraram porque o som a certa altura não esteve bom, ou a luz estava muito forte noutro sítio e distraiu-as a certo momento... Há vários fatores que fazem o stand-up resultar bem e só num teatro com boas condições é que isso pode acontecer.

E tem algum pedido bizarro para o camarim?

Não, porque descobri que eu é que o pago (risos). Se calhar não vou pedir, por exemplo, um camelo. Talvez seja melhor ficar-me por maçãs e água. E um hambúrguer "Double Cheese" só para dar sorte.

Houve algum momento da vida em que percebeu que queria ser humorista?

Desde pequeno que sempre gostei de ser o centro das atenções e fazer rir. O projeto dos Bumerangue, naturalmente, foi um desses momentos. Estava no Vine e no Twitter quando me juntei ao Manuel Cardoso, ao Carlos Coutinho Vilhena e ao Guilherme Geirinhas e o nosso realizador convidou-nos para irmos atuar ao Chapitô. Foi a primeira vez que fiz stand-up e gostei. Mas não houve nenhum momento, uma epifania, por exemplo: "eu lembro-me, 3 de março de 98. Eu estava deitado..." Foi uma coisa gradual.

No espetáculo interage com o público. Se o público não reagir como esperado, não receia o improviso?

Não, porque até o facto de o público não responder é bom para mim. Imaginemos que eu pergunto "que idade é que tens?" e alguém não responde, é do género "ah!, temos aqui um mudo". Qualquer coisa que eu diga, se for minimamente engraçado, pode resultar. Mas é preciso ter uma resposta na ponta da língua e só faz improviso quem sabe que vai conseguir sair por cima. Alguém que fala connosco durante um espetáculo chama-se heckler. E se ele diz, por exemplo, "não tens piada", ou mesmo algo que não seja um insulto, se eu não conseguir responder à altura é péssimo para mim, porque perco o respeito do público. É uma pressão, mas faz parte.

Já aconteceu?

Um heckler ganhar-me, não. Já me aconteceu dizerem coisas, mas eu consigo responder. O Chris D'Elia disse algo interessante sobre os hecklers: "Esta pessoa, que agora acabou de dizer isto, vai para casa a achar-se a maior, porque disse algo ao qual eu respondi e que fez com as pessoas se rissem. Fez parte do espetáculo. Mas não. Tentou estragá-lo e eu é que sou hilariante e fiz com que isto resultasse". E eu gosto dessa ideia.

Falando de termos técnicos, como heckler: fez um curso de escrita de humor. Isso significa que o humor tem regras?

Há técnicas. Mas depende de ti. O curso ajuda-te a ter algumas noções e a saber o que não fazer, mas não te ensina a ter graça. Há a "regra dos três", que consiste em dar dois exemplos normais e depois um absurdo. E os três, como têm uma certa música, resultam. Por exemplo, "há três coisas que são certas na vida: a morte, os impostos e... estrangeiros que não sabem falar". Dizes uma coisa absurda, ou que não seja tão certa e supostamente vai ter graça. Há técnicas deste género, mas não quer dizer que tenhas de as usar. São só ferramentas.

Quando é que uma piada deixa de ter graça?

Quando é muito usada. Falar sobre a Maddie ou o Rui Pedro é descabido. É indiferente. Já se fez tanto que podes dizer o que quiseres, nunca vai ser bom. Nunca falei desses temas porque não gosto de falar da atualidade, uma vez que daqui a duas semanas já não interessa. Nos podcasts, é raro eu falar sobre coisas que estão a acontecer agora. Prefiro discutir assuntos, como "o que é que achas de pessoas que bebem café com açúcar?", que funcionam sempre.

O humor é uma arte?

Claro. Estás a criar o teu próprio texto, estás a interpretar e daí despertas emoções nas pessoas, até raiva e tristeza. Eu acho que isso é a definição de arte. Ainda por cima vou tocar piano! É arte a duplicar.

Texto de Inês Nepomuceno editado por Bárbara Cruz

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