Paula Morelenbaum: "Cantar em Portugal é como cantar no Brasil"

A cantora brasileira regressa para quatro espetáculos com a formação Bossarenova, que reinterpreta temas da bossa nova

O que o público português pode esperar deste espetáculo?

Será um espetáculo bem diferente dos outros que já apresentei em Portugal, pelos seguintes motivos: mostrarei a música brasileira, através da bossa nova e de alguns sambas que já se tornaram clássicos no Brasil e no mundo, com um toque literalmente europeu, que a colaboração dos músicos alemães Ralf Schmid, no piano, e Joo Kraus, no trompete, trazem. Também por conta dessa nossa união musical surgiram ideias de misturar um pouco da cultura alemã, acrescentando ao nosso repertório alguns Lieder [canções] de Schumann e Schubert, com versões em português do músico e poeta brasileiro Arthur Nestrovski.

A mistura entre estilos musicais tão diferentes - aparentemente - como a música erudita alemã e a música brasileira é uma experiência inédita?

Para mim, sim. Mas o próprio Arthur Nestrovski percebeu a semelhança entre os Lieder de Schumann e Schubert com o nosso cancioneiro popular.

Como vai a bossa nova? Há novos públicos no Brasil e no mundo, mesmo com o surgimento de tantos ritmos mais comerciais - no próprio Rio de Janeiro existe o caso do funk.

A bossa nova vai bem, obrigada! Sim, no Brasil, apesar do funk, temos um novo público, uma nova geração interessada em bossa nova e muitos deles estão reinterpretando algumas das canções e incorporando-as nos seus repertórios. No mundo, especialmente no Japão, em alguns países da Europa e nos Estados Unidos, a bossa nova continua mantendo o seu público, e, cada vez mais, conquistando novos aficionados.

Que memória guarda de Tom Jobim? Era difícil trabalhar com um génio ou até mais fácil?

A memória de Tom Jobim está presente em mim em tudo o que eu faço, tudo o que eu vejo, tudo o que eu ouço, tudo o que eu canto. Foram 10 anos maravilhosos da minha vida, em que convivi com esse mestre, tão generoso. Completamente genial, ele fazia questão de viver uma vida simples, ao lado da família e de amigos íntimos. Foram anos dourados para mim, o tempo em que tive o privilégio de conviver com ele, e aprender a sua música. Outro génio com quem tive a oportunidade de trabalhar, na minha opinião, foi Ryuichi Sakamoto. Compositor e pianista japonês, Ryuichi está sempre se superando e estive cantando com ele por três anos consecutivos, logo após gravarmos o CD Casa, com o meu marido Jaques Morelenbaum. Fizemos o trio Morelenbaum 2/ /Sakamoto e saímos pelo mundo tocando a música de Tom Jobim.

Para quem já trabalhou com tantos monstros da música brasileira e americana e interpretou compositores excecionais, ainda falta algum sonho? Interpretar ou trabalhar com alguém que admire?

Sim, tenho muitos sonhos. Gostaria de fazer diversos projetos com diversos artistas internacionais, pois gosto dessa mistura entre culturas diferentes, como estou fazendo com Ralf Schmid e Joo Kraus neste projeto Bossarenova. Um dos meus sonhos é fazer um álbum com uma orquestra, poderia ser uma orquestra portuguesa!

A ligação entre bossa nova e jazz já foi experimentada e foi muito bem-sucedida. Qual a sua opinião sobre o fado? Terá a bossa nova pontos de contacto com o fado?

Eu adoro o fado. Adoro os cantores contemporâneos de fado, como Marisa, que é uma cantora espetacular, e que por incrível que pareça, canta muito bem bossa nova. Dividi com ela o palco numa ocasião, por conta de um concerto num programa de televisão e fiquei impressionada com a sua versatilidade. Vejo também que a Carminho tem estado muito atenta à música brasileira, introduzindo no repertório dela canções brasileiras, não necessariamente bossa nova. E numa voz masculina há também o exemplo de Antonio Zambujo, que carrega em si as culturas musicais portuguesa e brasileira.

Qual a sua opinião do público português, é mais recetivo à bossa nova por causa da língua?

Sem dúvida. Cantar em Portugal é como cantar no Brasil, sinto-me em casa. Certamente o facto de os portugueses entenderem as letras, faz uma grande diferença, mas acho que, mais do que isso, existe um culto à música brasileira em Portugal. O português interessa-se pela nossa cultura e abraça-a. Sinto muito carinho da parte dos portugueses.

Com o Brasil no noticiário internacional, é inevitável sair da música e perguntar como vê as crises política, económica e, digamos, policial do país?

A crise política é muito séria. Está tudo errado. Todo o dia temos uma notícia ruim e quando achamos que pior não pode ficar, o governo surpreende-nos. A crise económica e a violência são consequências de um governo desgovernado.