Paul Verhoeven: "Hoje era impossível fazer o Instinto Fatal"

Ela estreia-se para a semana e é um dos favoritos a vencer o LEFFEST. O realizador que está desconfiado com tanto elogio...

Aconteceu a Paul Verhoeven e a Kleber Mendonça Filho. Saíram do Festival de Cinema de Cannes sem prémios mas aclamados pela crítica. Os realizadores de Ela e Aquarius foram os mais elogiados pela crítica internacional. Talvez por isso, a primeira pergunta que fazemos ao realizador holandês é precisamente como se gere tanto consenso da crítica.

Responde-nos com aquele sotaque inglês divertido e cheio de saliva: "é perigoso. Fico sempre desconfiado com os elogios. Vou ter de fazer filmes que voltem a tornar-me odiado, mas já estava à espera que este Elle pudesse agradar aos críticos. Acho que tem que ver com aquela autenticidade que a Isabelle Huppert dá ao papel. Só ela é capaz de ir tão longe no cinema! Não sou o único a dizê-lo, o Michael Haneke acha o mesmo...Mas este é o meu melhor filme."

Sim, Ela é Huppert, aqui muito próximo daquela transcendência gelada de A Pianista, exatamente de Haneke. Aqui é Michèle LeBlanc, uma mulher de negócios sexagenária que depois de ser atacada e violada em sua casa desenvolve uma estranha relação com o seu violador. De presa passa para predadora. Estamos no domínio da farsa feminista? Ou apenas o "instinto básico" do olhar masculino do cineasta homem? Ela é um pouco disso tudo, mas também uma possibilidade de melodrama sobre os segredos mais perturbantes do desejo das mulheres, neste caso com histórias paralelas sobre traição e traumas de família (a personagem é filha de um conhecido assassino e só a partir daí chegam uma série de avalanchas de complexo de Édipo).

Mas no terraço de Cannes, em pleno último dia do festival, recordamo-nos que o realizador de Instinto Fatal e Amor e Sangue está particularmente feliz. Sorri muito enquanto fala e antes do gravador estar ligado também conta que ficou triste de não ter podido vir ao IndieLisboa, festival que lhe prestou homenagem e apelidou-o de Herói Indie. Também não veio agora ao Lisbon and Estoril Film Festival por estar em Los Angeles nas pré-campanhas do Óscar (Ela é o candidato ao melhor filme estrangeiro pela França).

"Lembro que este era um projeto que queria fazer nos EUA, mas nunca me deixaram. Todas as atrizes americanas a quem o papel lhes foi oferecido recusaram! Reagiram todas muito, mas muito mal. Também descobri que os seus agentes ainda são mais preconceituosos do que elas...Queríamos atrizes importantes, mas foi mesmo impossível. Hoje creio que era impossível fazer o Instinto Fatal", conta.

Os tempos mudam mas a base do tabu sobre o tema da violação e da violência sexual será sempre um tema. Ela, por muito que seja elogiado pela imprensa especializada (e é mesmo um dos grandes filmes da carreira de Verhoeven), vai viver permanentemente sob imensos estigmas. Um jornalista holandês conta-nos que na Holanda, antes de alguém ver sequer uma imagem, já se falava que era um filme pró-violação. O realizador apenas nos diz que não é uma comédia de violação, embora assuma o tema e o humor: "Não tentei ser frívolo com nada. O Jean Renoir também filmava estas coisas imorais e não se ria delas. A vida é assim mesmo! Por outro lado, também não me considero feminista - já estou farto de dizer isso. Mas sou pró-mulheres, isso sou... Gosto muito de mulheres e defendo-as. Ela é a prova disso. Tem uma mulher violada que se rebela contra a agressão de que foi vítima: recusa-se a ser vítima uma segunda vez. É alguém que nunca aceita o lugar de vítima! Por outro lado, não é um filme sobre uma vingança de uma mulher que foi violada."

Ficamos com uma dúvida: será que ele se quer vingar da Hollywood que o marcou como "perdedor" depois de Showgirls, o seu imenso falhanço de bilheteira? "Atenção, ainda vivo em Los Angeles! O problema é que na América é muito difícil encontrar um projeto interessante. Não tenho nenhum espírito de vingança. Veja bem, nunca se sabe onde se pode vir a encontrar trabalho. Não esperava fazer este filme em França..." A última vez que tinha rodado na América foi há 16 anos, Hollow Man, delícia de série B com a sua inconfundível assinatura.

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