Paredes de Coura, o festival que é prata

Evento arranca amanhã e atinge as 25 edições com um cartaz à altura do seu historial. A organização salienta a melhoria das condições para os campistas

Estará longe de ser uma novidade dizer-se que os dias que antecedem um festival são uma azáfama para quem o produz. Mas se dissermos que chega ao ponto de um gesto tão corriqueiro como andar na rua tornar-se uma prova de obstáculos, isso já é menos óbvio. "É uma coisa impressionante", diz João Carvalho, após retomar a entrevista por telefone. " Venho à rua principal e há sempre pessoas a falar comigo", desabafa. No caso, uma proprietária de um terreno arrendado ao festival não deixava o diretor do evento perambular enquanto falava com o DN.

O Paredes de Coura não é o festival de verão mais antigo (na vetustez, Vilar de Mouros é o vencedor), mas é o que conta mais edições, 25. Um sonho de jovens da terra que se transformou numa das mais sólidas festas musicais. Por ali passaram - e alguns com concertos memoráveis - Queens of the Stone Age, Nick Cave, Sonic Youth, Flaming Lips, Korn, Motörhead ou The Cramps, só para dar alguns exemplos.

Neste ano, quem se destaca do cartaz? "Há edições em que falo em um ou dois nomes e a coisa está resolvida. Este é o cartaz mais difícil de aconselhar porque há tanta coisa para aconselhar...Neste eu falo de dez nomes, e esqueço-me de três ou quatro fundamentais", diz João Carvalho. Ficamos então com as sugestões dos "mais pequenos": "Andy Shauf, um artista que quero muito ver e acho que vai ter um impacto muito grande, está a crescer imenso; os Timber Timbre, que vão estar pela primeira vez em Portugal; os Lightening Bolt, que são uma banda poderosíssima em palco e que vai estar em data única não só em Portugal, como na Europa. Vêm dos Estados Unidos só para atuarem em Paredes de Coura, o que demonstra também a força deste festival." Nomes que se juntam aos "grandes" que enumera: At The Drive-In, Beach House, Benjamin Clementine, Foals, Future Islands, Kate Tempest, King Krule, Japandroids... E não mencionou os Wedding Present, que vêm tocar o primeiro disco na íntegra, George Best, contrapomos, ao que responde com a risada de quem se esqueceu de um nome importante.

Já se sabe que o evento não se esgota na música. Desde sexta-feira que os detentores do passe de quatro dias podem acampar junto à margem do rio Coura e gozar a praia fluvial. Neste ano é aqui que reside a principal novidade. "O Festival Vodafone Paredes de Coura tem proporcionado coisas novas todos os anos. Para esta edição criámos uma zona de higiene mais completa. No ano passado já era uma zona boa, com chuveiros, com secadores de cabelo, com espelhos. Melhorámos ainda mais as condições. E as casas de banho e os lava-loiças estão ligados à rede de esgoto. Somos o primeiro festival, julgo eu, que tem todo o camping ligado à rede de esgoto", diz.

Vinte e cinco é o número que estará ligado a esta edição, até porque a organização espera 25 mil espetadores em cada dia. "A perspetiva é a lotação esgotar. Os passes de quatro dias esgotaram e os bilhetes diários estão a vender-se a bom ritmo."

E daqui por 25 edições, João Carvalho continuará a evitar as ruas mais movimentadas de Paredes de Coura nas vésperas do festival? "Meu Deus, espero bem que sim. Daqui por 25 anos terei sessenta e poucos, sim, imagino-me. Mas é claro que o festival é maior do que nós e vai perdurar para além de nós, se bem que tem um toque muito próprio de todos os fundadores, a forma de estar e de programar, o lay-out do próprio festival..."

Por fim, João Carvalho diz-nos o que gostaria de proporcionar no futuro: "Gostaria de ter água quente no campismo, gostava que a famosa rampa tivesse uma escada rolante ou uma solução idêntica de forma a não beliscar a estética do local e gostava de trazer os Lambchop, que é uma banda pequenina e até de fácil contratação, só que nunca os apanhei em digressão."

Festival Paredes de Coura

A partir de amanhã e até sábado

Praia Fluvial do Taboão

Bilhete diário: 45 euros

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