Parece que foi ontem. Quatro coreógrafos reencontram-se 20 anos depois

Clara Andermatt, João Fiadeiro, Paulo Ribeiro e Vera Mantero juntam-se duas décadas após a única vez em que trabalharam juntos

Nos arquivos do extinto Ballet Gulbenkian encontra-se um programa da temporada de 1995-96 que anuncia a peça Quatro Árias de Ópera. Nela, lê-se uma citação de Siza Vieira: "Por mim gosto de sacrificar muita coisa, de ver apenas o que imediatamente me atrai, de passear ao acaso, sem mapa e com uma absurda sensação de descobridor." O arquiteto, "descobridor", fez o cenário no qual foram dançadas as quatro coreografias que compunham aquela peça. São assinadas por Clara Andermatt, João Fiadeiro, Paulo Ribeiro e Vera Mantero. Passaram-se 20 anos desde a única vez em que os quatro trabalharam juntos. Aquele foi o último programa de Jorge Salaviza - que convidou os quatro coreógrafos - à frente da companhia. E há uma cassete de vídeo gasta pelo tempo que, na Fundação Calouste Gulbenkian, ainda guarda tudo isto.

Os quatro seguiram cada qual o seu caminho. Continuaram amigos. Vinte anos depois, juntam-se de novo em Reencontro, que tem lugar amanhã no Solar do Vinho do Dão, em Viseu. Já não sobre um cenário de Siza, mas sobre a batuta de alguém que nasceu em 1989, ano em que aqueles quatro nomes da dança portuguesa começaram a trabalhar.

Foi a João dos Santos Martins que, há cerca de dois meses, Paulo Ribeiro, à frente do Teatro Viriato, casa da sua companhia, fez o convite para que os dirigisse. O jovem coreógrafo foi reunindo os quatro, todos eles na casa dos 50 anos, em duetos, de forma que cada um tivesse um encontro com o outro. Pô-los a falar, a dançar, a recordar. O que amanhã acontecerá, nenhum dos cinco sabe.

"Somos amigos que não se veem há muito tempo e quando recomeçam a falar parece que retomam a conversa que tiveram da última vez. O reencontro é real, nos encontros a gente lembrou-se de coisas, histórias, diferenças de postura em relação à ideia de coreografia. E, à medida que íamos falando, íamos improvisando...", conta João Fiadeiro.

"As conversas não se esgotam"

Dos duetos, sabemos o que, separadamente, cada um revela. Como Fiadeiro, que conta que, apesar da afinidade estética maior com Vera Mantero, foi surpreendido no ensaio com Paulo Ribeiro. "De repente estávamos no estúdio dele e começámos a dançar a sério, como se tivéssemos 20 anos. Depois começámos a fazer pequenos jogos. "Se eu fosse teu bailarino o que é que tu me dizias agora?"."

Clara Andermatt lembra-se de, a certa altura nos ensaios, João dos Santos Martins lhe ter dito: "Então e tu recordas-te, quando viste a primeira peça da Vera, como era o movimento? Então faz lá." E dançou, ela que conta não se recordar de ter estado antes em estúdio com Vera. Além disso, do movimento, "as conversas não se esgotam. Já passou muito tempo, mas nós estamos ali e parece que não passou tempo nenhum".

Paulo Ribeiro não se lembra de quando conheceu Vera Mantero, mas lembra-se da primeira vez em que a viu dançar. Regressara a Portugal, depois de trabalhar em várias companhias francesas e belgas. "Vi uma peça dela num daqueles ateliês coreográficos do Ballet Gulbenkian, uma coisa muito dançada, muito Trisha Brown. E eu até fiquei: Uau, já há gente a fazer coisas destas em Portugal!" Quanto a João e Clara, conheceu-os na Companhia de Dança de Lisboa.

João dos Santos Martins também foi à Gulbenkian ver aquela cassete que guarda Quatro Árias de Ópera. Conta que viu "as linhas" do trabalho de cada um "já bem definidas". "Talvez menos o João Fiadeiro", diz por fim. E Fiadeiro, numa outra conversa, concordaria. "Já não está em mim. O João deu--me a ver coisas de que já nem me lembrava. O meu trabalho nos últimos 15 anos [desenvolvido sobretudo no Atelier RE.AL, que fundou em 1990] tende a levar o meu corpo para um lugar mais imóvel, mas a verdade é que o meu corpo tem um histórico, um património, e quando está em contacto com pessoas como eles ativa esse lugar."

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É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.