Para Rita Vila-Chã, a galeria de arte é lá em casa

Inspirada pelo curador da Serpentine Gallery, a jovem portuense decidiu abrir a galeria Oitavo. Em sua casa, na Cooperativa dos Pedreiros

Ser arquiteta. Era este o sonho de Rita Vila-Chã desde os 6 anos, talvez por influência do pai arquiteto, e outros familiares. Mas a frequência do curso na Universidade do Porto acabou por lhe mostrar uma realidade que não a satisfez. "Se calhar até podia ser arquiteta, mas ficar fechada numa sala a fazer projetos num computador não me iria dar prazer", conta Rita, agora com 30 anos.

No ano passado, já com a decisão tomada de deixar a arquitetura para trás, "comecei a pensar em projetos que me completassem". Foi nesse período, enquanto andava à procura de algo que a entusiasmasse, que assistiu a algumas conferências do Fórum do Futuro, em novembro, no Rivoli, no Porto. E foi aí que, ao ouvir o curador e diretor artístico da Serpentine Gallery em Londres, a ideia ficou subtilmente guardada na sua cabeça. Entre muitas outras histórias partilhadas pelo suíço Hans Ulrich Obrist, considerado em 2016 como o homem mais poderoso do mundo da arte pela revista britânica ArtReview, o curador contou que começou com uma galeria dentro de sua casa. "Aquilo deve ter ficado no meu inconsciente e em dezembro sai-me com esta ideia. Vou fazer uma galeria em casa", recorda. A casa, essa, é o 8.º Dto. Frt do edifício da Cooperativa dos Pedreiros, no Porto, projetado por David Moreira da Silva e Maria José Marques da Silva.

"Fui falando com várias pessoas sobre o meu projeto e a reação foi sempre muito boa." Não perdeu tempo. "A meio de janeiro criei a galeria e cerca de três semanas depois abri a primeira exposição." In.formalidades foi o título escolhido para a primeira exposição da Galeria Oitavo aludindo a uma duplicidade: "A própria galeria faz parte de uma dicotomia porque é uma casa e, ao mesmo tempo, uma galeria." Por outro lado, serviu também de apresentação da galeria ao público: "Informal, porque não é o tipo de galeria a que estamos habituados; mas também é formal porque as pessoas vêm a casa de alguém que não conhecem e há um certo formalismo inerente a essas visitas bem como um certo voyeurismo." Nada que incomode Rita, claro, fazendo de seu T2 uma galeria onde há obras na entrada, na casa de banho, na cozinha, na sala, nos gigantes vidros das janelas da sala de onde se tem uma desassombrada vista sobre a cidade até ao mar.

A maior parte dos artistas com os quais trabalha são emergentes, mas também alguns já com um certo currículo. "Gostamos é de mostrar trabalho que consideramos ser bom independentemente das idades e tentar mostrar esses trabalhos ao público." Trabalhos de arte contemporânea, nas suas diversas formas - ilustração, arte urbana, instalação, aguarelas, pinturas, escultura.

Em fevereiro, "na inauguração estiveram mais de 200 pessoas, o elevador do edifício não conseguiu dar resposta, era só pessoas a subir e a descer as escadas, e cá em casa estávamos todos apinhados. Foi um abuso", conta. Uma dessas pessoas era a diretora da Associação do Hospital Maria Pia que "gostou imenso do projeto e nos convidou para fazer uma exposição no antigo hospital que a associação pretende transformar num polo dinamizador de cultura". Depois de Déjà Vu, que esteve no antigo hospital na primeira quinzena de julho, em novembro seguir--se-á uma outra exposição no mesmo espaço. Antes, Rita e Francisco Moura Relvas, que se juntou ao projeto, vão trabalhar numa instalação a apresentar na estação da Trindade, um desafio que lhes foi lançado pela Metro do Porto. Por isso, só no próximo ano a Galeria Oitavo voltará a receber uma vernissage.

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