Para Aldara Bizarro, a dança é um modo de vida

Coreógrafa, investigadora da dança e das suas possibilidades de intervenção, formadora, produtora e programadora. Pioneira da criação coreográfica para o público jovem.

É melhor ficar já escrito: o que ela faz, é e quer ser, irá sempre para lá dos limites de qualquer lista de trabalho feito. Além da dificuldade de abarcar quase 30 anos de criação, o rol deixará sempre de fora a riqueza das questões de Aldara Bizarro, a maneira como a dança é para ela um modo de vida - no sentido de questionamento, investigação e intervenção -, a aproximação lúdica e profunda que as suas criações fazem a temas fundamentais, capaz de atrair miúdos e graúdos sem nunca descurar a exigência do objeto artístico.

Podemos, é verdade, elencar a pertença à primeira geração da Nova Dança Portuguesa, logo a partir da estreia na criação - o solo Me, Myself and Influências, 1990 -, o trabalho pioneiro, iniciado uma década mais tarde, em dança para o público mais jovem (A Nova Bailarina, por exemplo, considerado um dos melhores espetáculos de dança de 2012), a colaboração com artistas de outras disciplinas (Fernanda Fragateiro, no projeto Caixa para guardar o vazio), o envolvimento com a comunidade (O Baile), o trabalho de formação e transmissão do processo artístico em escolas e oficinas (Projecto Respira, 10x10, Oficina de Dança da SMUP) ou mesmo a programação (Festival W.A.Y).

Aldara formou-se entre Lisboa, Nova Iorque e Berlim, foi intérprete ao mesmo tempo que se afirmava como criadora, dançar era a primeira forma de ser da dança. "O trabalho do corpo tem de ser feito com regularidade. Quando deixei de ter tempo para fazer aulas achei que era altura para parar. Não foi nenhum drama. Comecei a coreografar para outros corpos e gostei de os ver. Não preciso do palco, dessa pressão. E não deixo de dançar, sou uma pessoa que se movimenta quando está em criação: quando não consigo verbalizar, faço."

Lembra Madalena Victorino - que no final dos anos 90 desenvolvia um trabalho pioneiro para novos públicos, no Centro Cultural de Belém - e o desafio que ela lhe lançou. "A dança para o público jovem não existia por cá com a mesma exigência de qualidade que para um público adulto. Comecei a trabalhar com pessoas artística e humanamente muito ricas - a Sónia Baptista, a Paula Varanda, o meu irmão Nuno (Bizarro) -, conciliei esse trabalho com a maternidade e, lentamente, fui-me dissociando do meu trabalho anterior".

Criou a estrutura Jangada de Pedra (1999-2014) e deixou de ir para o palco com o seu corpo - exceção feita em Hanare (com Francisco Camacho), solo que a fez regressar em 2010. Voltou com Baleizão, a meias com Miguel Horta, que estreou recentemente no Museu do Dinheiro (onde regressa em outubro), trabalho da memória, viagem da capital de Moçambique, onde nasceu em 1965, à de Angola, onde viveu até 1975, antes de Lisboa. Baleizão era como se chamava o gelado da infância em Luanda e por isso mesmo mote desta peça introspetiva. "É quase uma peça de teatro, uma maneira de ver a nossa história através do olhar da infância. Foi uma outra forma de me perguntar - isto faz sentido?"

E fez. "Descobri que sou mesmo do espetáculo e da criação. A minha vida profissional foi-me acontecendo. Sei que esta é a minha profissão. Emociona-me, mantém-me acordada, alerta, viva. Obriga-me a ver, ler, estudar, analisar. É o motor para eu ser eu. Preciso disto como preciso de comer, das minhas crianças, do meu namorado. Acho que vem tudo desta profissão, de estar com as pessoas em estúdio, do trabalho do corpo. É como os meus filhos me dizem: tenho uma profissão que me põe de bem com a vida".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

Premium

Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)