Palavras pintadas de Sofia Areal

Um dia disseram-lhe que tem uma letra péssima e a pintora atirou-se de cabeça. Desenhou letras, acrescentando palavras de todos os dias, de todas as pessoas. A exposição está no Teatro da Politécnica, em Lisboa

Já tinha arranjado títulos bizarros para exposições, mas desta vez ultrapassa-se: Mas Que Grande Pouca-Vergonha! (Morde com Todos os Dentes Que Tens na Língua). Sofia Areal, de novo cúmplice com os Artistas Unidos e Jorge Silva Melo, mostra um trabalho feito em torno dos pronomes pessoais, um tema que começou por uma irritação e fica agora fechado. Talvez venha a ser também um livro, se a pintora decidir arriscar-se a publicar apontamentos que escreve todos os dias, a propósito de tudo e de nada. Mas por agora é esta a exposição de quadros em que Sofia desenhou letras, escreveu palavras, pintou por cima, colou papéis diferentes, voltou a pintar.

Uma pessoa chega ao Teatro da Politécnica, vira à esquerda e dentro de uma enorme sala há um espaço contido, com duas passagens para poder circular. Sofia Areal explica que se trata de "um quarto de dormir". O cenário foi concebido por ela "a meias" com o cenógrafo José Manuel Reis, companhia habitual das exposições dela. O espaço está pensado como um lugar de intimidade, para uma conversa de pessoas que aqui são simplesmente indicadas pelos pronomes pessoais: eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas. "Ao falarmos dos outros, falamos de nós", está claro.

Mas antes de tudo vamos ao que salta à vista desde logo. Que pouca-vergonha de título é este? Sofia explica: "Há dois ou três anos comecei a trabalhar com a palavra desenhada. Primeiro as letras, depois as palavras, o pensamento, as leituras. Fui buscar o título à minha observação do mundo, com um lado irónico mas de uma ironia não depreciativa. Jogo com o lado satisfeito ou feliz da vida e, ao mesmo tempo, com as pequenas falhas de todos nós."

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