Palavras pintadas de Sofia Areal

Um dia disseram-lhe que tem uma letra péssima e a pintora atirou-se de cabeça. Desenhou letras, acrescentando palavras de todos os dias, de todas as pessoas. A exposição está no Teatro da Politécnica, em Lisboa

Já tinha arranjado títulos bizarros para exposições, mas desta vez ultrapassa-se: Mas Que Grande Pouca-Vergonha! (Morde com Todos os Dentes Que Tens na Língua). Sofia Areal, de novo cúmplice com os Artistas Unidos e Jorge Silva Melo, mostra um trabalho feito em torno dos pronomes pessoais, um tema que começou por uma irritação e fica agora fechado. Talvez venha a ser também um livro, se a pintora decidir arriscar-se a publicar apontamentos que escreve todos os dias, a propósito de tudo e de nada. Mas por agora é esta a exposição de quadros em que Sofia desenhou letras, escreveu palavras, pintou por cima, colou papéis diferentes, voltou a pintar.

Uma pessoa chega ao Teatro da Politécnica, vira à esquerda e dentro de uma enorme sala há um espaço contido, com duas passagens para poder circular. Sofia Areal explica que se trata de "um quarto de dormir". O cenário foi concebido por ela "a meias" com o cenógrafo José Manuel Reis, companhia habitual das exposições dela. O espaço está pensado como um lugar de intimidade, para uma conversa de pessoas que aqui são simplesmente indicadas pelos pronomes pessoais: eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas. "Ao falarmos dos outros, falamos de nós", está claro.

Mas antes de tudo vamos ao que salta à vista desde logo. Que pouca-vergonha de título é este? Sofia explica: "Há dois ou três anos comecei a trabalhar com a palavra desenhada. Primeiro as letras, depois as palavras, o pensamento, as leituras. Fui buscar o título à minha observação do mundo, com um lado irónico mas de uma ironia não depreciativa. Jogo com o lado satisfeito ou feliz da vida e, ao mesmo tempo, com as pequenas falhas de todos nós."

Leia mais na edição impressa ou no e-paper do DN

Ler mais

Exclusivos

Premium

Margarida Balseiro Lopes

Falta (transparência) de financiamento na ciência

No início de 2018 foi apresentado em Portugal um relatório da OCDE sobre Ensino Superior e a Ciência. No diagnóstico feito à situação portuguesa conclui-se que é imperativa a necessidade de reformar e reorganizar a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), de aumentar a sua capacidade de gestão estratégica e de afastar o risco de captura de financiamento por áreas ou grupos. Quase um ano depois, relativamente a estas medidas que se impunham, o governo nada fez.

Premium

Opinião

Angola, o renascimento de uma nação

A guerra do Kosovo foi das raras seguras para os jornalistas. Os do poder, os kosovares sérvios, não queriam acirrar ainda mais a má vontade insana que a outra Europa e a América tinham contra eles, e os rebeldes, os kosovares muçulmanos, viam nas notícias internacionais o seu abono de família. Um dia, 1998, 1999, não sei ao certo, eu e o fotógrafo Luís Vasconcelos íamos de carro por um vale ladeado, à direita, por colinas - de Mitrovica para Pec, perto da fronteira com o Montenegro. E foi então que vi a esteira de sucessivos fumos, adiantados a nós, numa estrada paralela que parecia haver nas colinas.