Paddington 2: uma sequela que não faz figura de urso

O charme de Paddington garante ao impulso da aventura uma enternecedora dimensão humanista

De chapéu vermelho, casaco azul, olhos meigos e rosto peludo, ele está de regresso à grande tela e é um verdadeiro perigo para os espectadores: não se aguenta tanta doçura. Paddington (na voz estimável de Ben Whishaw), o ursinho que veio do Peru para Londres, refugiado, e conquistou meio mundo com a sua polidez no trato social e tendência para o caos, é a grande atração deste Natal para as famílias - sem tirar notoriedade a Coco, da Disney/Pixar, também em cartaz.

Como conseguiu Paul King manter a fasquia tão elevada depois do maravilhoso primeiro filme? Para simplificar poderíamos dizer que o segredo está no doce de laranja Mas, de facto, o mérito pertence ao charme desse boneco nascido em 1958 na literatura de Michael Bond (o autor que morreu em junho, aos 91 anos, e a quem é dedicado o filme), que garante ao impulso da aventura uma enternecedora dimensão humanista.

Estamos perante um exemplo maior da produção europeia, com um fundamental sentido de criatividade e bom gosto, que não se limita a fazer render a imagem de um boneco interiorizado no imaginário britânico. Tudo o que resulta neste Paddington 2 - e que já resultava no primeiro - está intimamente ligado à noção de um cinema de puro encanto, sem desperdícios narrativos, e que extrai fantasia da própria realidade, com muita comédia física pelo meio. Charlie Chaplin e Buster Keaton são espíritos que habitam cada gag do ursinho.

Depois da sua atribulada chegada a Londres e dos momentos decisivos de inclusão naquela que viria a ser a família perfeita para ele, os Brown, Paddington vai deparar-se neste novo filme com um problema aparentemente mais simples. A saber: com a aproximação do centésimo aniversário da sua tia Lucy, o pequeno urso quer oferecer-lhe o presente ideal. E este surge na forma de uma antiguidade, um belo livro pop-up sobre Londres, que resolveria simbolicamente a mágoa da velha ursa, impedida de se deslocar à cidade para onde mandou o sobrinho, e que conhece apenas pelos relatos das suas cartas. O problema é que, tratando-se de um exemplar único, o preço do livro é exorbitante. Contudo, Paddington não desiste da ideia e, com a graça que lhe conhecemos, vai dedicar-se a todo o tipo de trabalhos para arranjar o dinheiro até ao dia em que o objeto precioso é roubado da loja. O ursinho encontra-se no local do crime e fará de tudo para apanhar o ladrão - inclusivamente perseguindo-o montado num cão! - mas acabará por ser confundido com o próprio criminoso.

As cenas que se seguem na prisão podem definir-se como autênticas delícias visuais, bem ao estilo de Wes Anderson, a explorar literalmente um lado cor-de-rosa dos prisioneiros através dos seus dotes culinários. Por onde quer que Paddington passe com o seu doce de laranja, fica um toque de felicidade no ar: mesmo no ambiente cerrado de um estabelecimento prisional.

À solta anda o artificioso vilão, Hugh Grant, com um esquema que envolve o livro roubado e um conjunto divertido de performances. Juntando-se ao próspero elenco que gira em torno de Paddington e das suas peripécias londrinas, Grant é, aliás, uma das mais opulentas surpresas do filme. Se dúvidas houver, vejam o ator no belíssimo número musical que surge nos créditos finais.

Já a iniciar a sessão está a curta-metragem Odd É Um Ovo, uma animação luso-norueguesa sobre um menino que vive muito quietinho, com medo de partir a sua cabeça de ovo. Até ao dia em que

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